Chegamos ao final de um percurso. Nesse caminho percorrido procuramos fazer uma revisão de literatura sobre hostilidade no referencial teórico junguiano. A opção por este estudo se deu a partir da constatação da importância e do impacto da hostilidade sobre a saúde individual, relações humanas e ambientais. Percebemos que a hostilidade tem sido pesquisada, sobretudo, a partir de uma perspectiva médica. A psicologia que muito poderia contribuir para o aprofundamento do estudo sobre hostilidade não tem focado nesse fenômeno. Existem algumas publicações psicológicas sobre o tema, mas essas não se relacionam diretamente às pesquisas médicas que vêem sendo desenvolvidas nesta área. A partir de proposições de Jung e Neumann optamos por desenvolver o tema em três núcleos distintos. O primeiro núcleo relaciona-se a definições e distinções conceituais sobre o tema. O segundo abordou a hostilidade em decorrência do fenômeno de repressão cultural e o terceiro tratou da hostilidade como conseqüência de disfunções no eixo ego-Si-mesmo. Neste sentido reunimos pesquisas sobre o assunto, bem como relacionamos mitos e um conto de fadas para amplificar o estudo da hostilidade.
Dentre a bibliografia levantada pudemos evidenciar que entre os autores junguianos tradicionais e os neo-junguianos existe sempre uma preferência por determinados aspectos no estudo da hostilidade. Alguns junguianos têm se dedicado ao esclarecimento das distinções conceituais sobre o assunto. Um outro grupo concentrou- se no estudo da hostilidade em relação à cultura. Segundo estes a ênfase excessiva sobre certos valores que caracterizam a cultura patriarcal estão relacionados ao aumento da hostilidade na atualidade. Um último grupo têm se dedicado a hostilidade relacionado-a às disfunções no eixo ego-Si-mesmo. Estes associam uma maternagem deficiente à formação de um ego frágil, defendido e hostil.
A hostilidade, à medida que provoca alterações fisiológicas, é característica de afetos que ainda não se diferenciaram. O comportamento recorrente e crônico de hostilidade, a ponto de provocar doenças no corpo, é um sintoma de que estes afetos originais não estão se diferenciando de maneira a serem integrados à esfera consciente como sentimentos. Como vimos os afetos são fisiológicos, corporais; sua diferenciação possibilita sua integração à consciência. Nesse ponto, eles evoluem qualitativamente,
deixando de ser fisiológicos e passando a sentimentos, relacionados a uma função valorativa racional da consciência. Uma abordagem da hostilidade que viabilizasse uma leitura simbólica dos sintomas poderia, quem sabe, transformar afetos em sentimentos e diminuir a sintomatologia orgânica.
A hostilidade é um fenômeno multidimensional. É preciso que se leve em conta os aspectos genéticos, ambientais, individuais e sociais. Uma leitura linear de causa e efeito é um reducionismo que estamos sujeitos a cometer sempre quando não se aprofunda no estudo do fenômeno. Esse reducionismo na elaboração de políticas públicas de saúde e segurança, por exemplo, pode ter conseqüências negativas e prejudiciais ao indivíduo e à sociedade. O entendimento de que em certos momentos e em determinados contextos a hostilidade é necessária para o desenvolvimento do indivíduo e da cultura traz uma nova perspectiva para o estudo da hostilidade. Conceitos junguianos como arquétipo, função transcendente, sincronicidade entre outros podem favorecer uma compreensão mais realista do fenômeno.
Como tivemos a oportunidade de comentar a hostilidade em seu aspecto construtivo é importante para a criatividade, interação com o meio-ambiente, amplificação da consciência e consolidação do ego. Em seu aspecto destrutivo pode estar associada a patologias do sistema nervoso autônomo, aumento da violência, agressões ao meio-ambiente, preconceitos e desigualdades. Por vezes, ela tem raízes em disfunções no eixo ego-Si-mesmo. Estas disfunções são decorrentes de feridas e deficiências primárias que contribuem para a estruturação de um ego frágil, defendido e hostil, com um senso de humanidade pouco desenvolvido. O ambiente familiar e social sadios são determinantes para integração e canalização construtiva da hostilidade. A passagem da esfera arquetípica-impessoal para a pessoal-temporal é um processo natural que acontece sempre que o ego vai se ampliando com a assimilação de novos conteúdos. Essa passagem é mais aguda em algumas etapas na vida dos indivíduos como na formação e estruturação do ego que acontecem logo após o nascimento como no processo de individuação que é intensificado a partir da segunda metade da vida. A infância caracterizada por uma empatia materna fraca marca o indivíduo com uma falha estrutural e desabilita-o a integrar a hostilidade, permanecendo esta intacta e crônica. A amplificação mitológica reforça esta idéia. Como vimos as características hostis de Caim, Ogum, Ares, Hefesto e Hércules estão diretamente relacionadas à rejeição e à carências afetivas. No mito de Hefesto é evidenciado o aspecto crônico, rígido e
agressiva (intervenção de Ares) na tentativa de resolução do conflito não resolve a questão. Somente o reconhecimento e o “pagamento do que é devido”, suprindo as carências de Hefesto é que vão possibilitar a solução do impasse.
Não existe na sociedade contemporânea uma compreensão aprofundada das causas e dos meios adequados para abordar a hostilidade. Antigos rituais eram muito mais apropriados para esta finalidade. Um exemplo disto eram os antigos rituais celebrados em Elêusis, enraizados no mitologema de Deméter e Perséfone que tinham tanto um aspecto de renovação como também um aspecto curativo a partir da restauração e incorporação de aspectos dissociados do Si-mesmo.
A ênfase no ego e o apego aos valores coletivos da cultura, característica do patriarcado, tem relegado os outros arquétipos à sombra. No patriarcado tem acontecido uma hipervalorização do pensamento. Nestas condições surge o impulso egóico para a independência incondicional, o controle irrestrito e o amor pelo poder. Neste sentido, a repressão do corpo e dos afetos, valores tradicionalmente associados ao feminino e a dinâmica erótica é um fenômeno cultural. A necessidade de adaptação levou o ser humano a uma tendência compulsiva pela extroversão onde o pensamento extrovertido tem sido privilegiado e o sentimento introvertido permanece inconsciente e indiferenciado. Os mitos de Dioniso, Hércules e o conto do Barba Azul elucidam esta questão. A oposição entre Dioniso e os Titãs clarificam o fenômeno da primazia do pensamento e a repressão do corpo e das emoções. A conseqüência disto é uma evolução ímpar no campo da tecnologia científica, o desenvolvimento das comunicações globais, e o aumento da hostilidade e a degradação ambiental. Ao que tudo indica a assimilação da esfera feminina da psique parece ter um efeito curativo e transformador da hostilidade destrutiva. No mito de Hércules, ele é curado de seus acessos de fúria depois de passar um tempo servindo como mulher na casa de Ônfale. No conto do Barba Azul destaca-se a importância da adequação ética, da introversão e do auto-conhecimento como instrumentos de transformação e neutralização da hostilidade.
A psicologia tradicionalmente não tem enfatizado o caminho de conscientização do corpo e dos afetos. Como observamos Jung não desenvolveu efetivamente o caminho de descenso ao corpo e parece que os neo-junguianos, teoricamente sensíveis ao feminino, também não focaram esta questão. Na atual conjuntura com o aumento da violência e a degradação ambiental, a introversão e a conscientização de nossa sombra pessoal e cultural podem ser importantes. Os sintomas denunciam que o corpo do
planeta e do homem moderno está doente. Como promover a cura se não formos capazes de olhar para nossos corpos e afetos? O estudo da hostilidade, a clareza teórica em torno destas questões, o trabalho individual com nos mesmos e com nossos pacientes, e a fomentação de um processo de transformação cultural que valorize de fato a esfera feminina são necessários.