3.1 Huntington – The Soldier and the State
4.3.2 Vilje til kompromiss
Observamos que a partir do paradigma cognitivo a CI inicia seu traço social, tornando- se evidente a contribuição que a Ciência Cognitiva (CC) tem oferecido a CI, nesta subseção buscaremos compreender tal relação.
Gardner (2003) diz que a Ciência Cognitiva tem como foco explicar o conhecimento humano no que diz respeito à sua natureza, componentes, origens, desenvolvimento e emprego.
Para Lima (2003), o objeto de estudo da CC é a mente com suas ideias, conceitos e conhecimentos. A autora define que o processo cognitivo abarca as atividades mentais que ocorrem de maneira diferente em cada indivíduo. Para Saracevic (1996) a importância da CC reside nos diferentes enfoques possíveis das questões que abordam o cérebro e a mente, utilizando abordagens que vão desde as ciências humanas às ciências da vida, das ciências
sociais às exatas, o que podemos apontar como caráter interdisciplinar da CC. Essa característica é vista em Gardner (op. cit) quando utiliza o termo ciências cognitivas para referir-se em seu livro às seis disciplinas escolhidas pelo autor como relevantes para compreender a Ciência Cognitiva, a saber: a lingüística, a filosofia, a psicologia, a antropologia, a neurociência e a inteligência artificial.
A Ciência Cognitiva tem suas raízes no período clássico, com os debates teológicos sobre o conhecimento, conforme Gardner (2003) e Lima (2003). A esse respeito Gonzales (et al, 1997, p. vii) apontam que “o estudo do conhecimento humano tem sido feito [...] desde que Sócrates mostrou a necessidade de enfocar o sujeito do conhecimento”. Porém é a partir do Simpósio sobre Teoria da Informação, realizado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em 1956, que a CC é reconhecida oficialmente (GARDNER, op. cit). Dessa forma, a CC pode ser considerada uma ciência recente, que “mantém como um ideal ambicioso a busca de uma unidade metodológica, que reúna, unificando, a diversidade e a riqueza das demais ciências cognitivas” (GONZALES et al, 1997, p. viii).
A psicologia do processamento da informação, cujo objetivo era compreender o processamento interno da percepção, linguagem, memória e pensamento, a invenção dos computadores e o desenvolvimento da gramática generativa são apontados por Lima (op. cit.) como pontos a partir dos quais a CC se desenvolveu.
Dupuy (1996) aponta a cibernética como grande influenciadora dos estudos cognitivos. Wiener é considerado o criador da cibernética - e em conjunto com Shanon, co- criador da Teoria Matemática da Comunicação. A cibernética desenvolveu-se numa primeira vertente sob a “metáfora do computador”, onde o cérebro humano é visto como uma máquina semelhante ao computador, ou seja, possui dispositivos de entrada, de processamento e de saída. Conforme nos aponta Dupuy (op. cit), Wiener introduz o conceito de feedback, em que o processamento da informação nos dispositivos ocorre de maneira que os mesmos busquem atingir um objetivo, ou seja, como se o processador de informação fosse capaz de “ajustar seu comportamento em vista dos erros que comete” (DUPUY, loc. cit.). Já na cibernética de segunda ordem, surgida nos anos 1960 e 1970, o cérebro não é mais apenas um processador de informação, mas o ser humano é quem determina a forma como os estímulos serão processados. Essa abordagem da CC em que o pensamento humano se assemelha às operações do computador é denominada por Gardner (op. cit.) de paradoxo computacional.
Além disso, Gardner (op. cit.) propõe cinco aspectos da CC (grifo nosso), considerando os dois primeiros como pressupostos centrais e os três últimos como aspectos metodológicos:
a) a CC credita legitimidade à representação mental feita através de símbolos, regras, imagens e utilizada pelo cientista em pesquisas que buscam compreender as relações entre tais representações. A representação mental se distingue das formas biológicas e neurológicas de entender o conhecimento humano;
b) o computador tem na CC duas finalidades: é utilizado como um modelo do pensamento humano já que, se uma máquina criada pelo ser humano pode ter objetivos, revisar seu comportamento e transformar, os seres humanos também podem ser considerados análogos a tal mecanismo. Outra finalidade é utilização do computador como ferramenta para análise de dados e simulação de processos cognitivos;
c) cientistas cognitivos buscam o afastamento do contexto, da emoção, da cultura e da história de seus estudos, sob a alegação de que estas características são muito particulares o que poderia tornar inviável a CC;
d) a interdisciplinaridade é vista como algo positivo pelos cientistas cognitivos, já que acreditam que tal característica permitirá aumentar as percepções sobre seus objetos de estudo;
e) os problemas filosóficos clássicos são frequentemente abordados nas pesquisas cognitivas, o que revela a identidade da CC com tais questões, sendo consideradas um ponto de partida para a CC.
Com base nesses aspectos, torna-se clara a interdisciplinaridade da CC com a lingüística, a filosofia, a psicologia, a antropologia, a neurociência e a inteligência artificial, conforme já apontamos em Gardner. A esse respeito Lima (2003) ressalta que após o estudos sobre a CC realizados em Harvard durante a década de 1960 , em que tais disciplinas foram selecionadas como principais linhas de pesquisa da CC, surgiram autores de outras áreas que buscaram identificar os paradigmas de suas áreas com a CC.
A interdisciplinaridade da CC com a CI está refletida na questão da representação, que tem lugar central na CC. A representação está presente na CI especialmente nas atividades de organização e de recuperação da informação, abordando temas como estudos dos sistemas de recuperação da informação, estudos dos sistemas de organização da informação tendo como foco o comportamento do usuário da informação, seja ele o bibliotecário ou o usuário final. Dessa forma, Neves (2006, p. 42) apresenta por meio de Marc de Mey (1982, p. 4) que:
o ponto de vista cognitivo da ciência da informação implica que cada ato de processamento da informação, seja ele perceptivo ou simbólico, é mediado por um
sistema de categorias e conceitos os quais, para o mecanismo de processamento da informação, constituem um modelo de mundo.
A esse respeito, Lima (op. cit) vem nos dizer que as relações entre a CI e a CC no processamento da informação estão relacionadas à categorização, indexação, recuperação da informação e interação homem-computador: a categorização é uma atividade que remonta aos tempos de Aristóteles, mas a partir do fortalecimento da CC, deixou de ser uma atividade individual para tornar-se um processo social e cultural de construção da realidade. Gardner (op. cit, p. 373) pontua que “a informação perceptiva é fundamental nas definições de uma categoria”; a indexação, tema que abordaremos mais detidamente na próxima subseção, é um processo de leitura que envolve aspectos cognitivos para compreender e representar o documento em análise; a recuperação da informação é parte do mesmo processo de organização da informação, ou seja, para que a recuperação da informação ocorra eficazmente, é necessário que a organização seja feita da mesma maneira, configurando os processos de entrada e de saída de informação como cognitivos; a interação homem- computador se pauta sobre a necessidade de um sistema de recuperação da informação que seja atraente e amistoso ao usuário da informação. Lima (op. cit.) que os estudos cognitivos que abordam a recuperação da informação também influem na interação homem-computador, já que buscam descobrir os comportamentos dos usuários na busca por informação.
Dessa forma, compreendemos que as interações entre a CC e a CI pautam-se na resignação da CI como uma ciência social, onde o sujeito que necessita da informação tem caráter fundamental, já que a informação sem uso não tem valor. Sistemas de organização do conhecimento, sistemas de recuperação da informação não fazem nenhum sentido se não forem elaborados para que os seres humanos possam atuar sobre eles, beneficiando-se dos mesmos.
Na próxima subseção abordaremos as questões de organização do conhecimento, onde buscaremos identificar as relações entre CTS, CI e CC.
2.4 A interface da CTS na Organização e Representação do Conhecimento em Ciência