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Vil du tegne digital igjen?

Com a implementação da rotina de aulas e ensaios, foi dada continuidade ao processo criativo de Rosa Cagliani que já havia começado desde as primeiras conversas com os músicos Carlos Anísio e Odair Salgueiro, antes mesmo de qualquer vislumbre de materialização de suas ideias. Mas, neste momento, encontrava-se instaurado concretamente o ambiente para a criação coreográfica.

Os papéis principais do Caldo da Cana foram distribuídos e o elenco final que participaria da estreia do espetáculo foi se definindo, visto que alguns bailarinos foram abandonando o projeto. Uma das personagens que sofreu alteração de intérprete foi a Senhora do Engenho, que inicialmente seria interpretada pela bailarina Stella Paula, mas que acabou sendo assumida pela bailarina substituta, Arcila Paiva.

A iniciativa de designar bailarinos substitutos para os solistas denota o cuidado de Rosa na condução do processo, precavendo-se de alguns imprevistos. De acordo com a fala da própria Arcila:

Eu era a bailarina substituta de Stella Paula, que foi a escolhida pra ser a Senhora. Eu participava dos ensaios (...) e tinha que saber toda a coreografia, tinha que me empenhar bastante porque qualquer problema eu estaria apta a substituí-la. (...) era uma maneira se projetar esse grupo com muita seriedade. (Arcila Paiva, 05/09/2013)

Outros bailarinos que participaram inicialmente do processo criativo, mas não dançaram na temporada de estreia do espetáculo, foram Floripes Melo e Simoni Cavalcanti. Seus nomes foram encontrados tanto nos manuscritos de coreografia de Rosa, como em algumas matérias de jornais, porém, não constam no programa do espetáculo, nem foram citados pelos entrevistados. Muitos deles não possuem nenhum registro de memória destes nomes e nenhum dos dois foi localizado para informar sobre sua participação no projeto do Caldo da Cana.

Sobre a condução dos trabalhos realizada por Rosa, os entrevistados disseram:

(...) em geral ela [Rosa] já trazia a ideia pronta, a montagem pronta. Às vezes a gente sentia um pouco de dificuldade em realizar aquilo que ela (...) tinha pensado, ela dizia;

- (...) eu queria que você sentisse. (Adjane Pontes, 27/08/2013) Rosa sempre vinha com alguma coisa (...) pré-elaborada na cabeça dela. Só que ela trabalhava muito o que a gente poderia dar, então ela puxava. (...), mas quando via que a coisa não andava ela deixava a gente confortável. (Arcila Paiva, 05/09/2013)

Pelas características desse tipo de montagem não existe muita possibilidade de um processo mais participativo. (...) Rosa ia dando as coordenadas, os passos, as sequencias e nós tínhamos uma certa liberdade de interpretar essas diretrizes. E como muitos de nós éramos iniciantes (...) não tinha muito pra onde correr; eu não saberia como responder a um processo mais participativo, mais compartilhado. (Guilherme Schulze, 22/08/2013)

Rosa era uma pessoa muito programada, muito metódica. (...) ela trazia uma partitura, que poderia até não ficar fixa, mas era colocada pra gente como uma partitura sim. (...) depois é ela procurava chegar mais perto do que o seu corpo respondia, do que o personagem pedia. (Maurício Germano, 20/08/2013)

(...) [Rosa] parecia uma criança brincando com um quebra cabeça que ela não sabia o que ia fazer, e no final o quadro estava lá (...) muitos de nós não tinham consciência de como ia ficar aquilo e depois a gente via aquele trabalho grandioso crescer. (...) Ela via o que tinha de melhor ali pro Caldo da

Cana e ia juntando as pecinhas. Ela foi muito inteligente.

(Socorro Ribeiro, 16/10/2013)

De acordo com a Ficha Técnica do Caldo da Cana, inscrita no programa da temporada de estreia do espetáculo, Rosa Cagliani contou com os assistentes de coreografia, a saber: Ana Maria Lisboa, Cristina Soares, Guilherme Schulze, Lílian Farias, Maurício Germano e Raniere Maia. Destes, apenas Guilherme não vinha do grupo Dança Livre.

Segundo Carlos Anísio, a criação da música do espetáculo teve muita influência de Rosa, que dava indicações de acordo com o que ela havia imaginado para a coreografia:

E Rosa dizia:

- (...) Eu me sinto como o Diaghilev6, com um compositor aqui do lado, conversando (...) Eu quero uma música aqui pra esse

pas de deux. Eu quero que seja um movimento ternário (...)

uma coisa lenta. (Carlos Anísio, 27/08/2013)

Rosa mantinha registros da montagem em seu caderno pessoal de anotações. Neste documento é possível ver suas notações coreográficas, as ordenações de cenas, o controle das entradas e saídas dos intérpretes, dentre outros. São manuscritos dos caminhos traçados pelo seu pensamento.

6 Empresário russo que conseguiu articular artistas de várias linguagens em prol de suas produções no início do século XX. (PORTINARI, 1989)

Figura 13. Manuscrito de Rosa Cagliani com registros de coreografia. Fonte: Acervo Memória do Movimento – 000111000214 PB

De acordo com as entrevistas, a forma como Rosa conduzia o seu processo era muito diferente da maneira como o Dança Livre vinha trabalhando, o que gerou certa resistência por parte de alguns bailarinos que faziam parte deste grupo desde a sua formação. Lílian Farias, que coreografou todos os trabalhos anteriores do grupo, mencionou em seu depoimento uma insatisfação em não ter muita liberdade para criar mais para suas personagens. Para ela, a forma como o trabalho foi concebido em termos de corpo não condizia com a proposta do Dança Livre, que era de uma dança

mais solta. Para descrever o seu sentimento sobre esta mudança de olhar em relação à coreografia, Lílian faz a seguinte analogia:

Então era como se você morasse numa casa e se mudasse pra um apartamento (...). Eu não tenho muita paixão por apartamento (...) eu fui pra um apartamento, mas eu queria a minha casa, meu terreno, minhas frutas. (Lílian Farias, 10/09/2013)

As memórias sobre Rosa são carregadas de um sentimento de admiração para com o seu trabalho. Mesmo aqueles que não concordaram com a sua forma de conduzir a montagem do Caldo da Cana, referem-se a ela com muito respeito e reconhecem a importância do seu legado para a dança paraibana.

Figura 14. Manuscrito de Rosa Cagliani com registros de deslocamentos no espaço. Fonte: Acervo Memória do Movimento – 000111000224 PB