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Part 1. Thesis Introduction

2   Vigour

Há em Iracema uma aparente vitória do homem branco, a partir do momento em que a tabajara quebra a fecha da paz com o homem “civilizado”, permitindo a este o conhecimento dos segredos de sua tribo, ato este que há de levar tanto ela quanto os seus à destruição:

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais dalma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara. A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

– Quebras comigo a flecha da paz? (ALENCAR, 1951g, p. 32-35).

Além disso, curiosamente, o europeu relata que a sua gente é dona das terras que antes pertenceram aos índios: “– Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus” (ALENCAR, 1951g, p. 35). Em todo caso, “Iracema acendeu o fogo da hospitalidade” (ALENCAR, 1951g, p. 37). Percebe-se, nesse trecho, que a índia tabajara se deixa seduzir por algo “novo”, no que concerne à sua concepção do mundo, já que se trata do primeiro homem branco com que tem contato, já que ouvira apenas relatos de que pessoas de outra raça estavam prestes a adentrar o campo dos tabajaras. E, com a lei da hospitalidade, o estrangeiro ao chegar fora bem acolhido, tendo a oportunidade de descobrir e conhecer alguns dos segredos da tribo tabajara.

A partir desse primeiro encontro de Iracema e Martim é que se dá início ao processo de sua transposição do mítico para o histórico, pois até este momento ela tinha ciência de que não podia contrair relações com Martim: “– Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério

do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã” (ALENCAR, 1951g, p. 39). Ela tinha ciência de sua função, sendo a única na tribo capaz de mediar o contato dos guerreiros com Tupã, pois

fechar-se para o mundo e abrir-se para a extrema intimidade do eu (e para o homem natural ficcionalizado e problematizado no indígena) é uma forma, retomada pelos personagens românticos de Alencar, de contornar o peso insuportável que passa a custar a vida em sociedade. Volta-se para dentro de si mesmo passa a ser não um meio, mas um fim (HELENA, 2006, p. 97).

Mas o fator histórico prevaleceu e a levou para seu lado, prevalecendo os sentimentos e o desejo carnal: “Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da árvore de Tupã; dos galhos pendiam ocultos pela rama escura os vasos do sacrifício; lastravam o chão as cinzas de extinto fogo, que servira à festa da última lua” (ALENCAR, 1951g, p. 46).

Iracema trai seu povo ao conduzir Martim ao bosque sagrado e ter com ele relações, objetivando, assim, a sua historicidade.

Somente um ato de purificação poderia salvá-la transportando-a para o mundo místico, onde o passado não volta, criando-se, assim, uma nova fase: transcendente, espiritual. Lembramos, contudo, que Iracema transgrediu com as leis sagradas de seu povo: primeiro por quebrar o segredo e segundo por enfrentar seu próprio irmão para defender Martim. Iracema rejeita sua tribo para seguir o aventureiro europeu. Antes desses fatos, a relação dos índios com o branco era de aparente harmonia, como podemos observar no trecho a seguir:

O Pajé enchia o cachimbo da erva de Tupã; o estrangeiro respirava o ar puro da noite para refrescar o sangue efervescente; a virgem destilava sua alma como o mel de um favo nos crebros soluços que lhe estalavam entre os lábios trêmulos. […], o Pajé traga as baforadas do fumo, que prepara o mistério do rito sagrado (ALENCAR, 1951g, p. 70).

Nota-se que o homem branco vê-se integrado ao povo indígena, mas quem é histórico e fruto do progresso material não tem a ânsia de se tornar natural, pois sua essência é materialista e individualista, no sentido de unidade e não do particular, representando o geral. Isso não existe na essência mesma do ser tecnológico. Com efeito, vemos não ser possível uma união do mítico e do histórico se concretizado para sempre, mas apenas de modo temporário, pois sempre um dos lados se elide no decorrer dos fatos. Heynemann dirá que

A natureza como palco da história nacional, sua transformação em paisagem científica e histórica que adquire sentido pela presença dos atores sociais e pelo traço distintivo que confere à nação, pode ser pensada ainda pela unidade entre homem e natureza, a analogia com o organismo (HEYNEMANN, 1995, p. 111).

A natureza é também transformada em paisagem científica e histórica, de acordo com o pensamento de uma unidade entre homem e natureza. Porém, isso não é possível no lugar em que o natural predomina, pois o cientificismo e o historicismo não são compatíveis com o mundo mítico de Alencar, já que o autor de O sertanejo aborda em seus romances a incompatibilidade do progresso material com o desenvolvimento natural, condenando aí a destruição das florestas em razão da construção de ferrovias e de se produzir carvão para pôr as locomotivas em movimento. Assim, “o espírito humano, munido dos instrumentos da ciência, conseguiu literalmente perfurar os segredos da natureza e abri-los à contemplação, e conseguiu fazê-lo na forma da beleza” (FLUSSER, 2011, p. 20).

Alencar, desta forma, a partir de suas obras indianistas, traça como que a purificação cósmica do progresso, operando um processo oposto em suas narrativas, partindo de um progresso inicializado a uma narrativa em que traz a lume uma visão cósmica do universo, mormente em Ubirajara, em que o índio está totalmente desprovido do contato com o homem tecnológico.