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Views and perspectives–Lightly edited minutes from the debate

Com o tempo, fui sentindo um vazio enorme dentro de mim. Sentia-me triste e pessimista, sem perspectiva política e ideologicamente frustrado259.

Consolidado no período stalinista, “ser comunista” englobava o comprometimento tanto político, quanto existencial, com a doutrina consolidada pela Revolução Russa de 1917 e orientadora das organizações que tinham como modelo de sociedade a União Soviética. Ao entrar para a militância revolucionária, o indivíduo subordinava-se à coletividade encarnada na vanguarda, se despersonalizava diante das exigências e necessidades da organização, passando a assimilar a narrativa mítica instituída pelas entidades comunistas, baseada, sobretudo, nas figuras infalíveis daqueles que as guiavam. Nesse sentido, a rigidez dos princípios induzia o militante comunista a adotar um “comportamento ‘normal e conformista’”, mesmo que pensasse diferente. É o que podemos definir como o isomorfismo das instituições comunistas, pelo qual o consenso pré-estabelecido de princípios e ações, amparado nos mecanismo de coesão, delimitava o grupo revolucionário e elevava o partido à encarnação da “vontade coletiva”, possuidor do “saber maior”.

Contudo, no decorrer da pesquisa nos deparamos com redimensionamentos do significado do que era “ser comunista”. Após as deliberações do XX Congresso do PCUS, principalmente com a confirmação da legitimidade do relatório atribuído a Kruschev, instalou-se uma crise no movimento comunista mundial que além de questionar aquilo que os soviéticos denunciavam, suscitou uma reconfiguração no espírito dos revolucionários. Processo que no Brasil seria revelado nas páginas da imprensa pecebista, com a insubmissão ao discurso contido na estratégia da tensão máxima a partir da abertura do debate sobre as questões candentes propagadas de Moscou. Naquele momento, quando os intelectuais põem fim ao longo silêncio que petrificava as fileiras partidárias, a iniciativa autônoma em relação à direção rompia não só com princípios estatutários, mas também com todo o imaginário edificado em torno do partido e de seus “guias”, que construía a própria identidade de um revolucionário.

259 FALCÃO, João. O Partido Comunista que eu conheci: 20 anos de clandestinidade. 2. ed. Salvador: Contexto & Arte Editorial, 2000; p. 459.

113 Além da conduta insubordinada dos jornalistas que tiveram a iniciativa de começar a discutir as publicações soviéticas, grande parte da militância não permaneceria indiferente aos questionamentos elaborados. Pelo contrário, logo que João Batista de Lima e Silva divulgou sua carta nos jornais do partido, inúmeros militantes quebraram a crosta dos postulados coletivos e se embrenharam na discussão com posicionamentos que extrapolavam os antigos consensos. Era um processo completamente novo em que a militância pecebista ultrapassava a velha síndrome da tensão máxima e trazia novas percepções acerca do papel de cada militante e da organização como um todo no movimento revolucionário. Dessa forma, passaram a questionar abertamente o “mandonismo” do grupo diretivo, a falta de voz das outras camadas partidárias, a celebração dos dirigentes e o próprio PCB como o grande “guia” e detentor do saber “verdadeiro” capaz de desencadear a revolução brasileira. Neste ínterim, para muitos “ser comunista” convertia-se na personalização do indivíduo, principal agente das mudanças prementes na estruturação interna e na política externa da organização. “Ser comunista” transcendia a assimilação da mitologia e visão do partido, não mais significava “devoção total”.

A citação do início deste excerto, de João Falcão, ilustra bem este processo de reconstituição da alma comunista. A partir do momento que os mecanismos de coesão do partido brasileiro eram rompidos, assim como a tradição marxista-leninista e sua aplicação no Brasil eram questionadas, rachaduras na narrativa mitológica que envolvia a vida dos revolucionários eram produzidas. As denúncias de Kruschev sobre a conduta de Stálin e as posteriores críticas ao socialismo soviético, vindas principalmente dos partidos comunistas europeus, proporcionaram a ruptura com “a mística da infalibilidade dos dirigentes partidários” e a eclosão de uma avaliação crítica das crenças que defendiam, o que anteriormente acontecia somente quando os militantes deixavam a organização. Antes, a maneira sacralizada de explicar o mundo oferecia aos pecebistas crenças, pretensões e representações sociais que condicionava toda a trajetória do militante, fazendo-o negar tudo aquilo que contestava o imaginário comunista. Mas, após 1956, a fissura no discurso mítico acarretou o questionamento de toda uma vida estruturada em princípios declarados degradantes. “Diante dos olhos do militante, ruíam mitos, hierofanias, cratofanias, teologias e toda uma ordem simbólica que regia a própria existência”. Mais do que ressentimentos, o “revolucionário sofria um processo de desorientação cultural”260.

114 No transcurso da intensa luta de opiniões que se espalhou pelo IP podemos identificar, porém, que as representações do espírito comunista não foram homogêneas. Embora as mudanças na natureza de muitos militantes fossem verificadas, principalmente os que compunham a camada intelectual, parte da militância manteve incólume o cercado mitológico que perpassava todo o imaginário comunista. Para esta categoria, formada em grande medida por militantes de organizações de base, o mito político criado em torno de Stálin, da União Soviética e da direção pecebista não sofreria maiores abalos.

A preocupação do grupo que se reordenava no Comitê Central era a de agregar duas concepções existenciais diferenciadas para compor uma nova visão política. Precisava-se abarcar a nova consciência expressa pela intelectualidade do partido, pois esta não era uma questão particular do PCB, visto que as declarações do XX Congresso produziram um movimento amplo de questionamento do que era ser revolucionário naquele momento. Ao mesmo tempo em que as propostas políticas introduzidas necessitavam ser paramentadas pelo referencial teórico “científico” do marxismo-leninismo, para que fossem facilmente absorvidas pela maioria dos militantes, “educada” nos anos em que Stálin esteve no poder. Compunha-se um esforço de renovação de métodos, perspectivas e política, mas “sem exceder os limites dos princípios ideológicos e partidários ou organizacionais”261. Assim, arquitetou-se a Declaração de Março de 1958, que compreendia os primeiros passos de uma linha partidária alicerçada na moderação política, em suas concepções “reformistas” e fundamentalmente atentas à realidade nacional. Com a eliminação da vertente “renovadora” e o afastamento de grande parte da intelectualidade do partido, o documento surgia com a finalidade de “alinhar e reanimar” a militância em torno do projeto do novo grupo diretivo.

No decorrer do debate desencadeado após as acusações vindas de Moscou podemos compreender que o contexto instaurado em 1956 possibilitou o surgimento de um momento singular no que concerne à relação do Partido Comunista do Brasil e o marxismo-leninismo. Singular, pois, pela primeira vez o questionamento profundo da tradição soviética indicava a libertação dos comunistas brasileiros do pano de fundo que orientava suas estratégias. Partindo da perspectiva de Mark Bevir, acreditamos que a tradição não é um ente coercitivo, que delimita os caminhos os quais aqueles que a adotam possam percorrer. Pelo contrário, ela á apenas o ponto de partida, aberta a mediações dos indivíduos262. Mas, no caso do marxismo- leninismo, o discurso mitológico desenvolvido no período stalinista que o envolvia se

261 SEGATTO, José Antônio. Op. cit., p. 73. 262 BEVIR, Mark. Op. cit.

115 estabelecia como uma “couraça”, que impossibilitava o surgimento de qualquer pensamento que obstruísse as conexões temporais e conceituais por ele engendrado. As revelações do XX Congresso contra o culto à personalidade e, principalmente, acerca do papel de Stálin na história do comunismo romperam o grosso revestimento da tradição tornando incontrolável o aparecimento de novas interpretações sobre o mundo soviético, a estrutura dos partidos comunistas e o próprio vínculo do PCB com os princípios marxista-leninistas.

Esta nova constituição entre indivíduos e tradição foi primordial para a manifestação de diferentes perspectivas do que era “ser comunista”, provocando nos anos posteriores frequentes embates de opiniões e fragmentações nas fileiras pecebistas, consolidando os embriões da “nova esquerda” brasileira. Dessa forma, os reflexos daquela época, além de possibilitarem a extensão da tradição soviética e do modo como era aplicada no Brasil, foram também significativos para a crítica de um sistema unitário de revolução socialista, antes aceito por um coletivo moldado nos mecanismos dos estados-maiores revolucionários. Aqueles meses de discussão profícua, no Brasil, abalaram elementos primordiais de poder do partido comunista: a disciplina incondicional e o imaginário mítico em torno da sabedoria dos dirigentes.

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