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Ao longo do acompanhamento realizado observaram-se dificuldades significativas nos cuidadores em responder algumas necessidades de natureza física, educativa e psicológica da criança. Pode-se dizer, no entanto, que os cuidadores da Família D (genitores e família extensa) tinham capacidade de responder a uma gama de necessidades muito maior que os genitores do subgrupo crônico.

Dificuldade significativa para responder às necessidades físicas (principalmente supervisão)

Os cuidadores da Família D falhavam principalmente em relação à supervisão da criança, o que repercutia nas condições de segurança oferecida a mesma, porque era deixada sozinha pelos responsáveis alguns dias da semana no período noturno, e principalmente nos finais de semana:

“eu não concordo com isso... deixar um bebê e três crianças para outra criança cuidar e ir passear...” (Vizinha - Família D).

Pôde-se verificar também alguma dificuldade, ainda que menos severa que no subgrupo crônico, em relação à higiene da criança que, às vezes ia para a escola cheirando urina, como também em relação à organização da casa e à oferta de alimentos, que era limitada no período de crise devido ao fato de a ajuda dada pela família estendida ter sido interrompida, tanto no que se refere a questões domésticas (a avó, que ajudava a limpar a casa e a lavar roupa no período que a genitora estava trabalhando, deixou de fazer tais tarefas; a sogra, que ajudava com a doação de alimentos para as crianças, deixou de fazê-lo).

Dificuldades em relação às Necessidades Educativas

Durante o período de coleta de dados, os responsáveis na Família D também não investiam na estimulação das crianças: não faziam atividades em conjunto, como passeios e brincadeiras (tanto o pai30 quanto a mãe saíam frequentemente sozinhos - o pai para pescar ou para ficar com amigos; a mãe, para namorar). Alegavam não terem tempo para realizar atividades com as crianças.

Os pais também mostravam pouco interesse nos trabalhos escolares de Alexandre (mesmo sabendo que esse apresentava dificuldades nesse aspecto), não olhando o caderno ou deixando de estimular a criança com brincadeiras “estilo ensino-aprendizagem”, hábito que a mãe revela que tinha antes, mas que não fazia mais:

“As crianças gostavam quando eu brincava de escolinha, me pediam para passar lições, mas ultimamente eu não tenho conseguido... antes eu brincava muito com eles, eu gosto de soltar pipa, de jogar bola, eu sou meio moleque...” (Lucimara - Família D).

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Segundo a genitora e os avós da criança o pai pouco investia na criação dos filhos, o que era motivo de brigas entre o casal já que este só “queria ficar com os amigos” e não olhava as crianças “por cinco minutos” se precisasse. Como estava desempregado também não colaborava na parte financeira.

A avó de Alexandre (mãe de Lucimara), entretanto, ajudava indo às reuniões da escola representando-a, mas, no que diz respeito às respostas às dificuldades de aprendizagem apresentadas pela criança, não havia qualquer recurso especializado na cidade que pudesse ser procurado e vir ao encontro de tal necessidade infantil31.

Dificuldades em relação à resposta às necessidades psicológicas

Embora Lucimara relatasse preocupação com a exposição de suas crianças a episódios de discórdia e violência32, durante o período de crise, ela não era capaz evitá-los (e tão pouco o pai, que nunca agira no sentido de aumentar a proteção oferecida às crianças), fazendo com que elas vivenciassem frequentemente medo e estresse33. Neste período, a genitora relata que as crianças passaram a ter dificuldades de dormir e falavam frequentemente desses episódios na escola.

Ademais, os eventos pareciam também afetar a disponibilidade emocional da mãe, que durante as visitas, mostrava-se extremamente angustiada, chorando com frequência e, muitas vezes, parecendo “longe”, “aérea” com relação aos acontecimentos da casa e dos filhos, como ela mesma relata dizendo “estou sem cabeça” para pensar sobre as crianças “muito cansaço, sono e sem paciência com as crianças”.

Transferência de responsabilidades parentais e cooperação

Na Família D também se observou a tendência a transferir responsabilidades parentais, como nas famílias do subgrupo crônico, quando os genitores transferiam parte das responsabilidades, como a de supervisão e cuidados físicos dos filhos, à filha mais velha, de apenas 11 anos.

É preciso, entretanto, considerar a existência de uma relação de cooperação entre mãe e filha nos cuidados aos filhos/irmãos menores, já que a genitora, no cotidiano, encontrava-se solitária na tarefa de criação das crianças, devido à separação. Assim, era filha mais velha quem auxiliava a mãe na hora que esta preparava o jantar, segurando a bebê, por exemplo, ou

31 A realização de atividades educativas, pela pesquisadora, realizadas em grupo, com algumas das crianças

pesquisadas, passou a ser frequentada regularmente por Alexandre, devido ao suporte oferecido pela mãe e pela avó, para que estivesse presente.

32 A genitora relatava que durante a relação com o ex-marido, tinha o cuidado de não “brigar” e discutir com o

mesmo na frente das crianças, para não preocupá-las.

33 Durante o período de pesquisa, por diversas vezes, segundo relatos da própria genitora e de membros da

família extensa, houve frequentes episódios em que o namorado da genitora ia até a casa da família, no meio da noite, algumas vezes armado, batendo na porta, gritando e ameaçando-a caso não saísse para conversar. Nesses dias, as crianças acordavam no meio da noite, assustavam-se, choravam, sendo que, às vezes, havia necessidades da intervenção de vizinhos que chamavam a polícia.

olhando as panelas quando a mãe estava amamentando. Após o pedido da mãe, era a filha mais velha que colocava as crianças no banho e ajudava a lavar louças.

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