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Videre forskning

In document Virtuell ledelse i en digital hverdag (sider 113-131)

A complexidade do ato de fotografar se encontra em suas operações imaginárias e simbólicas - é justamente por essa razão que a fotografia deve ser pensada desde o corte espaço-temporal que realiza à difusão do objeto acabado. Por isso, é necessário compreender do que trata o fotográfico em todas as instâncias de sua relação com a presença fotografada. Como Dubois (1994) apresenta, a fotografia não é simplesmente um produto, ela implica uma experiência de imagem, na qual o homem não está ausente, é um sujeito em processo.

18 Segundo Turazzi, “(...) em 1839 o tempo de exposição necessário à realização de um daguerreótipo era de

quinze minutos ao sol. O próprio Daguerre julgava este aspecto uma barreira para a difusão de seu invento na arte de retratar pessoas. Contudo, de acordo com Gisele Freund e outros historiadores da fotografia, um ano depois (1840), treze minutos à sombra eram suficientes para um daguerreótipo e, em 1842, o tempo necessário já era inferior a um minuto”. Segundo Freund, um ou dois anos mais tarde, a duração da pose havia deixado de ser um obstáculo para a realização do retrato fotográfico” (FREUND apud TURAZZI, 1995, p.15).

 

“Dissolução total do sujeito pelo e no ato fotográfico. Imagem-ato” (DUBOIS, 1994, p.19, grifos do autor).

Podemos pensar a fotografia como uma interação entre dois corpos, fundada no ato de recortar espaço e tempo ao mesmo instante. O espaço é uma visão parcial do todo e o tempo, a fixação de uma temporalidade. A captura da imagem é um recorte pontual, que por si só é capaz de criar outra realidade derivada de uma presença concreta que em algum momento se fez presente em determinado lugar. A visão procura, o olhar aproxima, a câmera imprime, a fotografia distancia. Esse jogo performático, entre o contato direto e o distante, propicia guardar experiências de mundo, recordar passagens, construir narrativas, pois os traços são visíveis e “materiais” na imagem fotográfica e atuam magicamente dentro de uma ilusão de realidade que remete a uma crença praticamente inabalável do que é visto, levando à repetição do ato e à compulsão de reproduzir cenas da vida.

Os mitos foram temas muito explorados na pintura para ilustrar a relação entre o homem e as representações, o que pode ser visto também na fotografia. Aliás, hoje em dia, não há nenhuma representação melhor para abordar a problemática da imagem especular, como foi a pintura em sua época. O imaginário19 remete as primeiras relações do sujeito com suas identificações formadoras, pois o eu20 se constitui a partir de uma imagem especular, e nesse sentido, a relação do sujeito com o real tem como característica ser ilusória, na medida em que oscila entre o eu se projetando nas imagens em que se espelha, isto é, o outro. Esse caráter ilusório se deve ao fato de que toda imagem, mesmo sendo uma forma de comunicação com a realidade, atua no duplo registro de uma presença e uma ausência. Nesse sentido, os mitos de Narciso e Medusa ilustram a dualidade inerente à imagem.

Narciso era um rapaz muito belo que, ao ver sua própria imagem espelhada nas águas de um lago, apaixona-se por ela e sucumbe pela ilusão de seu duplo. O reflexo do espelho é a imagem de quem o observa, de quem está diante dele, mesmo simbolicamente, acreditando ser a imagem do outro, ela sempre será uma imagem de mim. Assim, ao olhar a superfície, estou diante de mim, daí surge o termo narcisismo21. Nesse espelhamento, o reflexo é

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De acordo com Aumont (2002, p. 119, grifos do autor), “Lacan insistiu sempre no fato de que, para ele, a palavra ‘imaginário’ deve ser tomada estritamente ligada à palavra ‘imagem’: as formações imaginárias dos sujeitos são imagens, não só no sentido de que são intermediárias, substitutas, mas também no sentido de que representam eventualmente imagens materiais. A primeira formação imaginária canônica, a que se produz quando do estágio do espelho, em que a criança forma pela primeira vez a imagem de seu próprio corpo, está assim diretamente apoiada na produção de uma imagem efetiva, a imagem especular”.

20 O ego (eu) influenciado pelo mundo externo representa a razão e o senso comum. O corpo é sua superfície e

constitui o lugar das sensações externas e internas. Assim, o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal;

ele próprio, é a projeção de uma superfície (FREUD, 1975b, p. 38, grifo nosso).

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Na fusão das pulsões, surge uma energia propulsora desses instintos que é a libido, constituída por um investimento de afeto a um objeto ou ao próprio ego – cujo investimento libidinal é o narcisismo. Por objeto,

 

confundido com o real; a ilusão da representação seduz e há o perigo de entorpecer-se pela imagem. Diante do outro, sempre projeto minha imagem, o olhar narcísico desloca-se entre a representação ideal do eu e o desejo do outro, portanto, não distingue essas fronteiras. Aqui, o espelho é uma aparência que articula a percepção de si e, nesse caso, a fotografia permite construir representações com características de realidade, o que atualmente é determinante, principalmente quando observamos as configurações imagéticas de um perfil numa rede social.

A dualidade do jogo de espelhos não se resume tão somente a presença e a ausência, a imagem especular também transita entre a atração e a repulsão, o fascínio e o temor representados pela figura de Medusa.

Congelar, petrificar, morrer... Medusa era uma linda mulher que fora violada por Poseidon, atraindo a ira de Atena, que a puniu transformando seus belos cabelos em serpentes. Além disso, quem cruzasse seu olhar sedutor seria transformado em pedra. Uma

entenda-se qualquer coisa revestida de necessidade ou desejo. A vida psíquica afetivo-sexual colore todos os objetos e todas as pessoas que nos rodeiam. A sexualidade, neste sentido, não se restringe ao sexo, mais se amplia como forma de gratificação ou busca do prazer (FREUD, 1975a, grifo nosso).

 

das três irmãs Górgonas, era detentora de uma das faces de Hades. Como relata Vernant (2000), olhar para Medusa é morrer, transformar-se em pedra, estátua, objeto, figura. Eis o paradoxo fotográfico realizado a cada captura de imagem, “Cortar o vivo para perpetuar o morto” (DUBOIS, 1994, p.169). Eternizar alguém ou algo que aconteceu uma vez para reproduzir e exibir com a aparência de vida é o que move a pulsão22 fotográfica, e cada imagem tomada pode se tornar um objeto de fetiche.

Os mitos apresentam a dinâmica corporal em nossa relação com o entorno envolvendo a construção e reconstrução de imagens investidas de emoções que ultrapassam os limites anatômicos. É por esse caminho que nossas maneiras de ser e estar no mundo são modeladas sob as convenções sociais, como nos chama atenção Vaz (2006), quando observa que atualmente, as formas de subjetivação perpassam principalmente o corpo e é através dele que as demandas afetivas da indústria cultural instauram seu domínio. Assim, na sociedade virtual, a visão, um dos sentidos mais exigido e explorado, vagueia por possibilidades de representação produzidas pelas imagens publicitárias e instituídas como modelos ideais para a construção de si.

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