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Pelo fato do Brasil ter importado a cultura letrada inicialmente da Europa e posteriormente dos EUA, pelas mãos de uma elite dominante, Romanelli (2012) afirma que, a educação brasileira esteve desde seus primórdios a serviço de uma classe economicamente privilegiada o que acabou gerando inicialmente uma dependência cultural, bem como conferindo status social a uma parcela da sociedade que passou a utilizar a escola como Aparelho Ideológico de Estado com vistas à perpetuação das condições políticas, econômicas e sociais desiguais.

De acordo com Romanelli (2012), ocorreu um desequilíbrio entre o desenvolvimento econômico e educacional, percebido principalmente a partir do início do processo de urbanização e industrialização de nosso país, por isso, pós Revolução de 1930 observou-se nas discussões políticas uma preocupação com a inadequação do sistema educacional em comparação ao econômico, ou seja, detectou-se uma defasagem entre o que a escola ensinava com as necessidades desenvolvimentistas.

A Revolução de 1930 tinha como objetivo, não apenas derrubar as oligarquias e o coronelismo, destituindo a política do café-com-leite, como também almejava por

renovação e inovação intelectual em todos os campos da sociedade, bem como a difusão do ensino nos seus diferentes graus e modalidades, primário, secundário, superior, normal, rural e profissional como forma de democratização social, sendo um dos marcos (1932), o qual pregava novos rumos pedagógicos e sociais compatíveis com uma civilização urbana e industrializada, por isso o:

[...] Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932 fez a defesa

de um plano nacional para a educação, cuja ausência comprometera aqueles primeiros 43 anos de regime republicano (ZACCUR, 2011, p. 96).

No campo da alfabetização, conceituada esta como a aprendizagem da leitura e da escrita, destacam-se aspectos psicológicos envolvidos neste processo em detrimento dos linguísticos e pedagógicos, iluminados pelo ideário liberal de democratização da cultura e participação social, atribui-se um caráter funcional e instrumental a este ensino, o qual deveria ser o mais rápido, econômico e eficaz possível e, portanto, fosse

Mortatti (2000) distingue dois discursos distintos, porém, inter-relacionados quanto à alfabetização um acadêmico-institucional e outro escolar, o primeiro buscava conquistar a hegemonia da nova tendência pedagógica escola-novista enquanto que o segundo insistia em se manter fiel às tradições herdadas e revelava uma tendência a pluralidade dos métodos defendidos anteriormente e, ainda presentes nos manuais de ensino, nos livros didáticos e em artigos científicos.

Mortatti (2000) observa que a ênfase no método de ensino cede espaço para os objetivos da alfabetização, os quais correspondiam à adequação social do indivíduo e,

Estudos psicológicos apontam para a importância do respeito à maturidade individual do aluno, sendo esta a garantia do sucesso e da eficiência do processo de ensino-aprendizagem, Mortatti (2000) observa que neste momento aceita-se e até mesmo, difunde-se a utilização de métodos sintético-analíticos, mistos ou ecléticos.

As polêmicas entre antigos e modernos, ou mesmo entre modernos e mais modernos, cedem espaço, para um discurso que pretende controlar e homogeneizar as práticas educativas, a partir de normatizações e rotinizações, surge assim, o que Mortatti

os professores a realiza-los, bem como, desenvolvimento de tal prontidão.

Segundo Mortatti (2000), alguns dos grandes nomes deste período foram Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e Lourenço Filho, tendo este último, papel de destaque nacional e internacionalmente, não apenas pelos cargos administrativos que ocupou como também pelos resultados de suas pesquisas, especialmente aquelas que deram origem ao livro, Testes ABC (1934), criado para mensurar o grau de maturidade necessário ao processo de alfabetização, foi autor de mais de duzentos textos, como também de material didático como a Cartilha do povo (1928) voltada para o ensino rápido da leitura e da escrita, e Upa, Cavalinha (1957) cartilha de alfabetização.

Segundo Zaccur (2011), Cecília Meireles, professora, jornalista e poeta, assim como outros intelectuais da época vislumbraram o fato de que, ainda que a escola não fosse capaz de mudar toda uma estrutura social sozinha, isso tampouco aconteceria sem o seu auxílio. Posicionou-se a favor de uma educação abrangente que efetivamente socializasse os bens culturais, de maneira que ao se instruir o povo, o fizesse de maneira a educa-lo não para uma existência subalterna e explorada, mas para um posicionamento crítico e ativo.

Em 1934, Cecília Meireles criou no Pavilhão Mourisco, na cidade de Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do país, a qual foi denominada por Anísio Teixeira durante sua inauguração de Centro de Cultura Infantil, prenunciando futuras pesquisas na área de Cultura da Infância, entretanto, esta foi invadida e fechada no ano de 1937

por abrigar em seu acervo livro de conotação comunista, como também, sua fundadora sofreu perseguição política, visto que:

[...] o Pavilhão Mourisco representava uma tríplice ameaça: pela escritora que o dirigia, pela presença de livros e pelo projeto de formação de leitores, instigando a pensar crítica e criativamente, ousadia imperdoável naquela ordem silenciadora e monológica em que a voz do Brasil se reduzia à voz de Getúlio Vargas (ZACCUR, 2011, p. 100).

ser concebida como:

[...] um conjunto de técnicas de adaptação das novas gerações às necessidades regionais e históricas; escola, como instituição social com função socializadora; alfabetização, como instrumento de aquisição individual de cultura e envolvendo, do ponto de vista funcional, aprendizagem simultânea da leitura e escrita; estas entendidas como comportamentos que integram o conjunto de técnicas de adaptação; educação popular e alfabetização, ambas como anseios da época, mas distintas entre si, dada a abrangência mais restrita desta em relação àquela [...] (MORTATTI, 2000, p. 146 e 147).

Segundo Mortatti (2000), Lourenço Filho publicou a primeira edição dos Testes ABC em 1934, mediante um cenário nacional e europeu de fracasso da escola primária, a qual apresentava grau elevado de repetência na 1ª série. Este pesquisador afirmava que descobrira a existência de um grau de maturidade variável para cada indivíduo, necessário ao aprendizado da leitura e da escrita e que era passível de medida. Eram oito as provas integrantes dos Testes ABC:

[...] coordenação visual-motora, resistência à inversão na cópia de figuras, memorização visual, coordenação auditivo-motora, capacidade de prolação, resistência à ecolalia, memorização auditiva, índice de fatigabilidade, índice de atenção dirigida, vocabulário e compreensão geral. (MORTATTI, 2000, p. 151)

O livro Testes ABC é referenciado, de acordo com Mortatti (2000) como a primeira pesquisa brasileira sistematizada e com rigor científico, o qual aborda a alfabetização como aprendizagem da leitura e escrita, dependente da cientificidade e

iluminado por referenciais psicológicos-condutistas, que tem como sujeito desse discurso o especialista em alfabetização.

No entanto, segundo Mortatti (2000), coexistem duas maneiras de circulação deste material, uma na íntegra, disseminada entre autoridades educacionais nacionais e internacionais, pesquisadores de psicologia escolar e clínica, atuantes na área de orientação técnico-pedagógica e outra restrita ao material de aplicação, divulgada entre professores primários e diretores, o que o transforma em senso comum, a partir de um saber-fazer automatizado, natural e inquestionável, o que mostra um descompasso na história da alfabetização brasileira entre a pesquisa realizada por Lourenço Filho como um todo e sua aplicação na prática educativa.

Pelo fato da história da alfabetização caminhar lado a lado com a da escolarização, ou seja, da institucionalização do ensino no Brasil, observa-se posteriormente que esta necessidade de um ensino rápido, eficiente e barato irá perpassar o ideário do tecnicismo educacional, característico do período ditatorial brasileiro (MORTATTI, 2000).

Anterior a este momento, ocorreu a ampliação do mercado editorial e, ainda que nem todas as publicações fossem oficialmente reconhecidas, divulgavam reflexões e instruções a respeito do ensino da leitura através dos métodos analítico ou analítico- sintético, assim passam:

[...] a ser produzidos textos com finalidades acadêmicas, livros de divulgação e manuais para estudantes em cursos de formação de professores primários; muitas novas cartilhas, com propostas metodológicas diversificadas, passam a concorrer com as antigas, ainda em circulação nas escolas; amplia-se e organiza-se o sistema de inspeção escolar, a fim de garantir a uniformidade e conformidade do ensino; além do irrecuperavelmente perdido movimento das relações de ensino-aprendizagem efetivas que certamente poderiam elucidar melhor as características do momento ou, talvez, dele proporcionar outra versão (MORTATTI, 2000, p. 180).

Segundo Morais e Silva (2012), o fomento do mercado editorial brasileiro relaciona-se ao contexto sócio-político brasileiro do projeto de construção de uma sociedade letrada, transformando-se a educação, neste momento, em instrumento essencial para as mudanças almejadas.

A alfabetização ganha importância, de acordo com Morais e Silva (2012) por favorecer a transmissão de valores republicanos por meio dos livros de leitura utilizados, nos quais as sentenças e historietas relacionavam-se com valores morais e cívicos que se pretendia disseminar e a papéis sociais que deveriam ser inculcados em meninos e meninas da primeira metade do século XX, dentre os quais: o asseio, a higiene corporal, a decência e a pontualidade.

Os livros didáticos eram permeados por ideologias dominantes que pretendiam formar indivíduos submissos e receptivos a influências externas, responsável pelo progress

Pátria, do trabalho, da nat SILVA, 2012, p. 276).

Com o intuito de tornar o processo de alfabetização mais eficiente, econômico e rápido, ent

o método eclético, misto ou analítico-sintético, como se prefira denomina-lo. O ecletismo seria a solução, ainda que provisória, para o problema do analfabetismo, uma vez que era capaz de utilizar-se dos méritos de cada um dos diferentes métodos conhecidos, sintéticos e analítico e descartar seus insucessos, visto que análise e síntese apesar de processos distintos são interdependentes.

Tal discurso ainda coloca como ponto positivo do ecletismo pedagógico o

professor escolher seu próprio fazer pedagógico, entretanto, observa-se que tal autonomia mantinha-se vinculada ao conceito atribuído à ela por Dória, ou seja, liberdade de escolha dentre o já pré-selecionado e estabelecido pelas normatizações (MORTATTI, 2000).

Neste período os estudos sobre alfabetização estão pautados em conhecimentos das áreas de psicologia e pedagogia, realizados especialmente em São Paulo, tanto que, segundo Morais e Silva (2012), Nestor Lima, influente intelectual no ensino brasileiro se engaja na divulgação das semelhanças existentes entre os ensinos do Rio Grande do Norte com os de São Paulo e Rio de Janeiro, então capital da nação, visto que, estes estados eram tidos como modelos nacionais.

De acordo com Tanuri (2000), a formação docente desde o Império foi relegada à boa vontade ou não das províncias. Escolas normais abriam e fechavam com frequência o que perpetuou durante toda a primeira república. Desde as primeiras escolas de preparação para professores dos anos iniciais do que hoje conhecemos como Ensino Fundamental há primazia pelo domínio do método em detrimento da formação teórica.

Com um currículo restrito ao ensino do ler, escrever e contar, e a péssima remuneração oferecida, a profissão só encontrou mão-de-obra dentre as mulheres, sob o auspício de sua necessária iluminação, bem como, de sua responsabilidade com a infância, ou seja, a mulher tinha por obrigação manter seus cuidados maternais para com as crianças em idade escolar, função ideologicamente atribuída à mulher e não ao homem (TANURI, 2000).

O curso de Pedagogia só veio a surgir cinquenta anos depois da Proclamação da República, criado em 1939 pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil via o Decreto 1.190, de 4/4/1939 tinha a dupla função de formar bacharéis, que atuariam como técnicos da educação, e licenciandos aos quais caberia a docência nos cursos normais. Nascia a licencia

conteúdo e um ano

NURI, 2000, p. 74).

Apesar da repressão sofrida e dos sonhos desfeitos durante a ditadura de Vargas, um projeto humanístico de educação tinha nascido, o vislumbre de uma educação integral, constituída por aspectos sociais, pedagógicos e políticos com vistas à uma prática emancipatória e anti-hegemônica rondava o pensamento de educadores militantes (ZACCUR, 2011).

Sonho mais uma vez adiado pelo autoritarismo ditatorial, a política educacional centralizadora incumbiu o Estado por traçar as diretrizes a serem seguidas em prol da formação física, intelectual e moral da criança e do adolescente, por isso regulamentou

-leis federais promulgados de 1942 a 1946 (TANURI, 2000, p. 75, grifo da autora).