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Videre forskning

5 Avslutning

5.3 Videre forskning

A poesia de Fernando Guimarães, para além de constituir umas das mais ricas e coerentes obras literárias da contemporaneidade, revela avultado interesse do ponto de vista de uma abordagem poético-filosófica. Por um lado, devido à própria biografia do poeta, uma vez que a sua formação académica é filosófica. Por outro, na medida em que a sua produção literária tende para uma atenuação das barreiras entre os géneros poético e ensaístico, a sua poesia encontra-se naturalmente com a filosofia, e o próprio ensaio reveste-se, não raro, de um tom poético. A comprová-lo temos justamente um dos ensaios do autor, intitulado Conhecimento e Poesia, dado à estampa em 1992. Tal estudo – reportando-se frequentemente ao exemplo de Rilke – visa abordar as aparentes incompatibilidades entre a atividade poética e o pensamento reflexivo, postulando que «é possível, para além da razão, privilegiar outras formas de conhecer»151. Do mesmo modo, a linguagem poética de Fernando Guimarães – assente numa articulação entre ritmo e significação, de que nasce uma referência de natureza filosófica – permite-nos diluir os tradicionais antagonismos entre mythos e logos, no que estes conceitos ambíguos possam consubstanciar da comum oposição entre Literatura e Razão/ Discurso racional.

A escolha da imagem da casa como objeto deste trabalho constitui, a nosso ver, um aspeto original e preponderante para uma das possíveis reflexões sobre a complexidade da obra poética em questão. Não obstante existirem já algumas investigações acerca do espaço na produção literária de outros autores (nomeadamente na de Manuel António Pina, Valter Hugo Mãe, José Saramago, etc.), uma reflexão deste cariz ainda não tinha sida levada a cabo em Fernando Guimarães, um dos escritores portugueses que mais se deixou fascinar pela imagem-símbolo da casa, tratando-a de forma obsessiva ao longo das últimas seis décadas. Em poucos autores este estudo será tão pertinente e justificado. Obviamente que tal aspeto tem sido elencado pela crítica à poesia do autor (especialmente por remeter para o pensamento filosófico de Heidegger), mas apenas pontualmente, numa lógica de complementaridade, e não de modo autónomo como aqui tentámos propor.

151 Cf. Fernando Guimarães; Conhecimento e Poesia, Porto, Oficina Musical, 1992, p. 29.

Ao permitir-nos estabelecer um ponto de vista filosófico-literário, a casa – entendida pelo poeta enquanto “projeto imaginário” – apresenta-se como metáfora do mundo real e intelectual, lugar de convergência da alma e do corpo, do interior e do exterior, do sentir e do pensar. Declinada, por nós, em quatro variantes – casa-corpo, casa- habitação, casa-árvore e casa-túmulo – esta imagem permite-nos compreender a relação entre o sujeito e o espaço, potenciada pela memória. Com efeito, tais variantes ilustram os quatro estados da vida do homem: nascimento, crescimento, reprodução e morte – momentos iniciáticos aos quais o sujeito lírico é sensível, conforme verificámos, por exemplo, através da constante enunciação dos símbolos do “centro” e do “círculo”, remetendo os mesmos para o Mito do Eterno Retorno.

A imagem da casa é lugar de confluência entre sensibilidade e reflexão, entre matéria e forma, entre efetividade e afetividade. Nas próprias palavras do autor, há imagens que, tendo-se afastado de nós, «acabaram por se tornar em cada poeta numa espécie de respiração». Na poesia de Fernando Guimarães, a casa é precisamente “uma espécie de respiração”, apresentando-se como imagem através da qual novos mundos se edificam. Porque, na realidade do poema, a casa corresponde a múltiplas casas, desenvolvendo – segundo o poeta – inúmeras «potencialidades ou virtualidades imaginativas». A palavra liberta-se, assim, dos grilhões referenciais a que, na linguagem quotidiana, se encontra presa.

Concretizada através das imagens do corpo, da habitação, da árvore e do túmulo, a casa permite-nos compreender que, na obra de Fernando Guimarães, vida e morte constituem aspetos fundamentais e indissociáveis da unidade do ser. É, por isso, inegável que a morte é limite, mas é também o sentido da existência. O sujeito lírico procura nesse “fim” o sentido último e a concretização da existência. Sem a «certeza dramática da morte» – no dizer de Celeste Natário – talvez não fosse possível atribuir uma significação à vida.

Quiçá, por isso, esta poesia nos ofereça a impressão de um mundo exterior que se torna ausente, para dar lugar à verdade íntima do sujeito. A busca por essa «intimidade/ simples de uma casa» exigiu-nos uma leitura transdisciplinar entre a Literatura, a Retórica, a Filosofia, a Psicanálise e, inclusivamente, a Arquitetura, possibilitando-nos

esboçar interpretações de um inconsciente simultaneamente individual e coletivo que se projeta e consubstancia na dimensão literária. Assim, esperamos também, na sequência deste nosso estudo, ter contribuído para que a poesia deixe de ser lida como género literário limitado, para se assumir, ao invés, como unidade de reflexão sentimental e conceptual, como construção de um sentimento que é também pensamento.

Na sequência da leitura que aqui apresentámos, erguem-se inúmeras propostas de abordagem que podem e devem ser retomadas em futuras investigações, nomeadamente a propósito das relações entre Conhecimento e Poesia, sobre as quais o autor tem vindo a refletir nas últimas décadas. No entanto, e sobretudo no que respeita às ligações entre a poesia e a filosofia, muito há ainda a fazer, pelo que o presente trabalho não deve ser considerado concluído, nem sequer próximo da análise demorada que uma obra literária desta dimensão naturalmente exige e que o tempo, aqui, nos impede de concretizar. Recordamos ainda que na nota prévia deste trabalho destacámos o facto de a obra poética de Fernando Guimarães ser ainda pouco estudada nas academias portuguesas, não obstante o enorme reconhecimento junto da crítica. É, por esse motivo, uma grande satisfação a realização deste estudo, na medida em que contribuímos, de certa forma, e ainda que sempre imperfeitamente, para o colmatar de uma lacuna.