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Videre arbeid

In document 10-01290 (sider 43-47)

Em relação à experiência como bolsista e cotista, Eduardo não se sente à vontade para se declarar como bolsista 100%, sobretudo cotista, como os colegas

de curso. Eduardo esconde dos colegas, no início de seu processo acadêmico, sua identidade de bolsista e cotista, sentindo-se “constrangido” por ter bolsa 100%, diante dos comentários que ouvia dentro da sala de aula. A fala dos colegas faz o estudante manipular sua identidade, o que nos remete a manipulação de um estigma que o sujeito realiza em espaços públicos, concebido por Goffman(1988).

É na sala, aquele assunto de dificuldade de pagar o boleto e tal. E, por exemplo, quando eu entrei tinha uma coisa que eu não comentava é... eu acho que isso é até um dado interessante, a coisa assim de ser bolsista. Mas eu não comentava com assim... por causa do pessoal que vinha reclamar ... da mensalidade sabe. Por exemplo, eu me lembro muito bem disso, no primeiro período um dia uma menina reclamando: Nossa a mensalidade está cara, não sei o que ... me falando assim. O que você acha disso? Aí eu lembro que só eu tinha só 100%. Eu não pago nada, como é que é isso? Eu me lembro a primeira vez que eu soltei isso, eu até meio que assim: Nossa, para que eu falei isso? Mas depois soltei tranqüilo. (Eduardo).

Eduardo faz parte do grupo de bolsistas que entrou na instituição no período da implantação do Prouni na universidade. Desse modo, ele ouviu diferentes críticas e comentários de seus colegas que foram preteridos pelo programa de bolsas interno da instituição, o que provavelmente o faz esconder sua identidade de bolsista, como podemos comprovar pelo fato de ele em nenhum momento de sua fala se declarar cotista.

E uma coisa dessa ... que é uma dificuldade que eu ...dificuldade não, que foi um papo que eu ouvi muito aqui na PUC, que foi um problema, não sei como que é em outras Universidades. Que é a história das bolsas que já tinham aqui. Que me parece que tinha um número maior de bolsas assim. E então muita gente reclamou disso. Inclusive na sala

eu já ouvi muitas vezes isso. O que, que o Prouni começou a acabar com as bolsas da PUC. Mais que no decorrer do tempo parece que hoje

já está mais coisa . Parece que hoje tem mais bolsa sim, pelo o que eu to...Porque eu acho que com o sistema do Prouni, eliminou-se as bolsas que existiam na PUC. Dessa modo, o número de bolsas era só para o Prouni. Parece que agora existe outro sistema interno que distribuí bolsas, mas que também incluí critério e tal. (Eduardo, grifo nosso).

Percebemos certa complexidade na narrativa de Eduardo, assim como na narrativa das profissionais responsáveis pelo sistema de bolsas, em relação à questão exposta entre ser bolsista 100%, ser negro e ser cotista. Ele usa o termo

beneficiário, termo muito usado nos programas de políticas sociais do governo e evita referir-se a si mesmo como bolsista cotista.

E assim eu não me incomodo, principalmente enquanto beneficiário do sistema assim. É até estranho falar, defender. Mas me parece assim muito... muito.. faz sentido mesmo. É pertinente. È uma coisa que eu acredito, só que eu acho que um dia vai ter que terminar assim. Cem por cento. Olha só que eu me lembre agora ah! nós entramos três, cem por cento. Tinha uma quarta que era uma menina que ela ... Ih! Ela era interessante, o caso dela assim, só pra gente se situar porque ela é branquinha assim. De olhinho azul ou verde, tem alguma coisa assim e

ela entrou no sistema de cotas para negros, que ela falou assim.E então

é nessa coisa então, na raça. Talvez ela tenha um núcleo assim na família dela tipo a minha entendeu? Tipo o meu irmão mesmo, clarinho e tudo. Cem por cento. Não são quatro, porque tem um rapaz que era da manhã, que ele pegou uma bolsa que foi de alguém que saiu também. É sim. E ele não é negro não. Porque os que eu sei que é cem por cento da minha turma, sou eu. E tem o D. Que também é cem por cento. Mas o D.. o D ele não entrou pelo sistema de cotas não. Mais ele é por exemplo pode se considera pardo. Eu falo assim de conversa com ele. (Eduardo, grifo nosso).

O seu relato mais uma vez denuncia a complexidade do sistema de bolsas do Prouni, quando o estudante descreve que há estudantes que são bolsistas 100% e que não é negro e não ingressaram pelo sistema de cotas, uma vez que o amigo é considerado por ele pardo e não negro. A identidade é socialmente demarcada pela relação com o outro (outros). Nessa inter-relação, a partir do reconhecimento do outro, é que se pode conceber a representação do que seja Eu. A articulação entre diferença e igualdade está na base da compreensão do processo de identidade.

Não eu falo assim com o pessoal ... assim que eu converso quando a gente fala sobre curso assim, da universidade mesmo que eu não daria conta nunca com meu salário hoje. Sabe, por exemplo, devo ganhar uns seiscentos e sessenta pra pagar passagem, pagar um monte de coisa. No final das contas sobra uns quatrocentos reais.como eu te falei, eu não comentava porque eu achava estranho, hoje a mensalidade está R$ 900,00, alguém fala que está com dificuldades de pagar R$ 900,00 e você tem bolsa, não que a pessoa vai me falar isso, mas no princípio eu tinha uma dificuldade, até por que o universo da academia, a PUC aqui, eu comecei a ver uma realidade muito diferente na questão financeira mesmo. Tem gente muito pobre que está com dificuldade, tipo eu mesmo e tem outros que estão melhores. Então, no principio é inevitável essa comparação, entendeu? Eu demorei entrar na universidade, nessa história da pessoa terminar o segundo grau e entrar na universidade, eu demorei três anos e eu já disse que eu convivia com amigos que já estavam na Federal. (Eduardo).

Mesmo fazendo parte do quadro de desigualdade dentro da Educação Superior, seja por sua condição social, econômica ou racial, quando ele se refere ao valor de seu curso frente a sua condição salarial, o estudante omite sua condição de bolsista. O que chama atenção é que o estudante defende o Prouni, mas não se sente livre para falar da sua condição de cotista. Sua atitude revela como o tema das Ações Afirmativas ainda tem sido um tabu mesmo nas instituições que aderiram um sistema de cotas raciais, o que dificulta, por sua vez, que o estudante cotista declare sua condição de cotista e que seja reconhecido socialmente como tal.

Assim, senti muita dificuldade com essa questão. Que é uma questão muito particular. Mas depois, depois foi mais tranquilo para falar assim. E às vezes era até coisa de ... Depois o que acontece começa assim a sacar, por exemplo, ah! o fulano é bolsista. A fulana é bolsista. Não sei quem é bolsista. Aí que crie alguma coisa assim de ... que é uma identidade nisso aí. Mas que cria um vínculo, até porque a discussão mesmo, às vezes alguma coisa. Se, por acaso, alguém comentar. Então vamos nos preparar. (risos) É bem assim. Então, só no princípio que eu tive essa dificuldade assim, depois ficou tranquilo, não tive mais problema não. (Eduardo).

Eduardo só se sente livre para falar de sua condição quando reconhece outros colegas na mesma condição que ele. O processo de formação de identidade é relacional e se dá no concreto em determinadas condições históricas. As dificuldades pessoais encontradas no percurso acadêmico e o medo da desvalorização de sua identidade de bolsista fazem com que o estudante busque o vínculo grupal. Seu comportamento confirma as concepções de Honneth (2003) em relação à luta pelo reconhecimento. Para o autor, quando o reconhecimento é coletivo há uma ampliação da liberdade individual. Isso faz com que o reconhecimento seja transmitido em um círculo cada vez maior de pessoas, favorecendo o reconhecimento pessoal, coletivo e jurídico, etapas do reconhecimento que promovem a formação da identidade do sujeito.

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