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Serão definidos agora Neologia e Neologismo. Para tais definições e delimitações será utilizado o Dicionário de Lingüística de Dubois (1973/2004), além de Barbosa (1981).

De acordo com o Dicionário de Lingüística de Jean Dubois, neologia é o “processo de formação de novas unidades lexicais”, e é uma necessidade da comunicação inter-humana. Divide-se em neologia de sentido (utilização de uma forma preexistente com um sentido novo) e neologia de forma (combinação nova de elementos). Conforme o escopo que se queira usar, a neologia pode incluir não apenas palavras novas, mas também unidades novas de significação, como as sinapsias (unidades de significação compostas de vários morfemas léxicos. Ex. fio de prumo). No estudo em questão, não se abordará sinapsia, e apenas mencionar-se-á a neologia de sentido.

Há numerosos processos de neologia de forma:

1. Composição, como em bovo-frenezo [literalmente “loucura do boi “(doença da vaca louca)]

2. Prefixação e sufixação, como em kontra -scienca, balkan-i i (anticientífico, balcanizar-se)

3. Truncagem, como em foni, ka-be-i [(tele)fonar, ka-be-ar (desistir)]

4. Uso de siglas, como em (TV (tovo), USN (Usono), BEL) (televisão, Estados Unidos, Liga Brasileira de Esperanto)

5. Empréstimo, como em ombudsmano (ouvidor), etc.

Dubois define neologismo como toda palavra de criação recente ou emprestada há pouco de outra língua, ou toda acepção nova de uma palavra já antiga. Resta, assim, definir o que se entende por ‘recente’, principalmente em uma língua como o esperanto, pois ela própria pode ser definida como língua recente.

Para Barbosa (1981, p. 78), neologia é o “processo pelo qual a mudança lingüística provoca o aparecimento de formas de significante e significado novas – não ainda encontradas

na língua ou num determinado conjunto de enunciados”. Deve ser situada no tempo e no espaço, pois pertence à história do léxico, e é distinta das mutações fonológica e gramatical, que se diluem indistintamente na coletividade. Se a neologia é o processo que pode ser definido em termos de uma tipologia, o neologismo é o produto que, depois de passar por aquele processo, pertence a uma tipologia de neologia.

Além disso, falta definir o que será considerado como neologismo no esperanto, pois há várias definições de “neologismo”, conforme os critérios que sejam usados (morfológico, semântico, temporal). Ainda faz-se preciso abordar o conceito de neologicidade dos esperantófonos, pois a neologia pressupõe algo novo, que suscita o insólito, o que descaracterizaria, em princípio, o empréstimo, por exemplo, como um neologismo.

Nesta pesquisa, serão considerados “neologismos” os lexemas que atenderem aos seguintes critérios: Neologismos do tipo 1: palavras que não constem do vocabulário oficial de 1905 e até hoje não foram dicionarizadas; neologismos do tipo 2: palavras que são registradas no dicionário NPIV de 2005 sem a marcação de oficialidade; e neologismos do tipo 3: palavras que não constem, até o momento, de nenhum dicionário de esperanto.

Um dos fatores geralmente indicados em estudos de neologia como necessários à identificação dos neologismos é o conceito de ineditismo. No entanto, no caso do esperanto, tal conceito parece diferir daquele encontrado em línguas naturais. Procurou-se identificar a reação dos falantes por amostragem, através de pesquisa por formulário com 40 vocábulos, entre neologismos e palavras não neológicas, para que os entrevistados identificassem quais seriam os neologismos, e quais as palavras que eles acreditavam já constarem dos dicionários- referência. A pesquisa foi feita por nós durante o congresso mundial de esperanto em agosto de 2006, em Florença, na Itália.

Barbosa (1981, p. 77-78) afirma que a renovação lexical não se dá de maneira caótica, mas pode ser controlada conforme sua tipologia e os processos que permitem seu aparecimento. No caso de uma língua planejada, isto é de fundamental importância, pois poder-se-ia pensar que, neste caso, uma vez que não pertence a nenhum povo, o caos acabaria impondo-se na renovação lexical, já que quaisquer indivíduos falantes dessa língua poderiam arvorar-se a criadores de novas lexias. No entanto, como bem afirma Barbosa (1981, p. 144), é no meio social que se processa o julgamento da aceitabilidade do neologismo. Uma das primeiras condições para que os neologismos sejam aceitos é seu emprego por vários

locutores. A repetição do emprego e o sentimento de compatibilidade com a língua acabam por impor o neologismo, que mais tarde pode passar à norma.

De fato, Barbosa concede (1981, p. 136-137) que “qualquer locutor, de diferentes níveis sócio-econômico-culturais, com diferentes necessidades sociais, tem em sua competência os mecanismos essenciais da língua para a neologia”. “Qualquer falante numa língua pode ser autor de um neologismo. Isso é comprovado não só pelo contínuo enriquecimento do vocabulário da norma culta ou das normas profissionais, como também das normas de discurso banal, como o demonstra a produção da língua popular e da gíria”. Mormente assim é no caso de uma língua cujo iniciador declarou não ser “propriedade de ninguém”, o que fez com que seus falantes passassem a se sentir como co-proprietários e co-responsáveispor sua manutenção e desenvolvimento. Ilustrar-se-á com alguns exemplos de gíria e de jargão, retirados de Pilger (1998), e com o caso dos nomes de países e o episódio da palavra “bem-te- vi”.

broso (escova) bigode

cerbofulmo (relâmpago cerebral) idéia súbita

disko-eraro (erro de disco) 1. Fiasco 2. Completamente louco

enhaki (“amachadar”) interromper rudemente “Li enhakis en la konversacio” (ele se intrometeu na conversa)

kabei (“kabear”) desistir do movimento, abandonar algo13

krokodili (“crocodilar”) falar em língua nacional quando se deve falar em esperanto

kvaki (grasnar) falar mia i (miar) reclamar

nuda kafo (café pelado) café sem açúcar ou leite po tmarko (selo) rosto

As palavras panencefalito (panencefalite), aftremo (scrapie) [med] pa so (decalque)[ling] ilustram terminologia neológica nas áreas da medicina e da lingüística, ainda não oficializada.

No início do esperanto, os nomes de países levavam o sufixo -ujo para designar o continente do povo que dava origem ao nome: Francujo (França, lugar dos franceses), Germanujo (Alemanha, lugar dos germanos), Anglujo (Inglaterra, lugar dos anglos). Com o tempo, por pressão dos esperantófonos que moravam nesses países mas não se sentiam como parte desses povos, passou-se a utilizar o sufixo –io, como em Francio, Germanio, Anglio, o que até hoje não é recomendado pela Academia de Esperanto, mas é bastante comum.

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O esperanto tem, como palavra correspondente ao pássaro “bem-te-vi”, o lexema pitango ( de pitangus sulphuratus), que, no entanto, é homônimo com o nome da fruta “pitanga”. Durante embates acalorados na lista de discussão Esperanto-br14, uma das maiores listas de discussão sobre o esperanto no mundo, com mais de 1500 membros, em agosto de 2006, dois esperantistas sugeriram como alternativa ao nome do pássaro os lexemas pitanguso e pentuvio (de pentu vi – arrependa-se). Nenhum dos dois foi, obviamente ainda incorporado pela Academia como oficial, mas circulam hoje na internet sendo usados por dezenas de outros falantes, o que nos leva à especulação de que sua aceitação é boa e pode levar à substituição, com o tempo, da palavra pitango, principalmente pela palavra pentuvio, que já se tornou inclusive nome de uma empresa de um esperantista, e tem a vantagem de imitar, como a palavra brasileira, o canto do referido pássaro.

Ainda conforme Barbosa (1981, p. 138), o neologismo compreende pelo menos três fases, desde sua criação até sua desneologicidade, que pode corresponder a sua assimilação como norma ou a seu desaparecimento como arcaísmo. Um exemplo perfeito no esperanto seria o caso do pronome ci (equivalente ao tu do português), que caiu em desuso logo nos primeiros anos, porque os falantes de várias nacionalidades não conseguiam chegar a um consenso sobre como usá-lo, e logo descobriu-se que ele não era realmente necessário à boa comunicação. Barbosa diz que é a freqüência de uso que determinará a passagem de um neologismo de fala (parole) a um neologismo de língua (langue), passando da individualidade ao sistema coletivo. As três fases são: a. criação, b. recepção e julgamento de aceitabilidade, e c. momento de desneologicidade.

Verifica-se que, numa língua utilizada em cerca de 90 países, torna-se difícil fazer-se com que um neologismo seja aceito e usado por uma parcela considerável dos falantes, mas, por outro lado, o uso da internet vem facilitando o ato de tornar conhecida uma nova criação lexical e também a recepção simultânea da nova lexia por centenas de usuários da língua espalhados pelo globo. O fato de que o esperanto é uma língua eminentemente escrita faz com que o papel dos noticiários on-line (jornais e revistas) seja essencial na divulgação e corroboração de formas novas. Por esse motivo, o presente estudo privilegia a pesquisa em duas revistas de maior circulação e um noticiário diário.

Verifica-se, também, que no caso do esperanto, há um certo conservadorismo, com relação aos princípios de formação de novas palavras. Não só com relação às línguas fontes, que continuam a ser hoje predominantemente as línguas neolatinas e o grego, e em menor grau, as germânicas, com pouquíssima influência das eslavas. Também na formação de novas palavras, os esperantistas costumam seguir os mesmos cinco passos, desde o início da língua, citados por Waringhien em Wells (1989, p. 56):

1. Encurtar;

2. Evitar homônimos;

3. Evitar começo ou final de radical que pareça prefixo ou sufixo; 4. Evitar polissemia;

5. Atingir internacionalidade por um compromisso entre várias formas nacionais.

Para os empréstimos, há duas correntes: o grafismo e o fonetismo (examinadas mais adiante). O primeiro procura imitar a forma de grafar da língua origem, sem se preocupar com a fonética. O segundo ao contrário, busca imitar o som original, sem considerar a escrita.

A pesquisa verificará se os princípios de formação neológica continuam válidos para a maioria dos neologismos e quais as correntes (entre esquemismo, naturalismo, grafismo e fonetismo) estão presentes. Para efeitos da coleta de dados, serão considerados neologismos os vocábulos não lexicografados no período até 1970 e até 2002, datas do PIV de Waringhien e do NPIV. Empréstimos serão considerados neologismos de forma. Neologismos semânticos e decalques não serão processados, por causa da dificuldade de seleção com o uso de programas de computador.

Portanto, será considerado neologismo qualquer forma nova, independente do mecanismo de sua formação, e que ainda não tenha sido oficializada pela Academia de Esperanto, ainda que já esteja lexicografada. A referência para a recentidade será de 1970 até hoje, ou seja, desde a data da publicação da primeira edição do PIV de Wahringhien.

2.4.3. SENTIMENTO DE NEOLOGICIDADE DOS FALANTES DE ESPERANTO