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O Maracatu Solar é uma organização não governamental cujo objetivo é levar arte e cultura para jovens e adultos que queiram contribuir para difundir uma vida de paz, amor e solidariedade. Fundado no ano de 2005, essa agremiação tem como presidente o cantor e compositor cearense Pingo de Fortaleza. O grupo estreou no carnaval de rua no ano de 2006 desfilando com seus partícipes na Avenida Domingos Olímpio, e conta hoje com um número de 150 integrantes. Uma característica desse maracatu, que significa inovação, é a não obrigatoriedade do uso da pintura no rosto. A partir do ano de 2008, o Solar passou a realizar festivais de loas para a escolha do samba enredo do carnaval, o qual viria servir como tema de desfile. Geralmente o festival é realizado em sua própria sede, situada na Avenida da Universidade, número 2333, local onde são também realizados os ensaios.

No ano de 2010 o desfile do maracatu veio como amálgama de inovações nunca antes vista, pois o grupo se desconfigurou intensamente da forma tradicional de organização e subdivisão de alas. Na verdade as alas fogem a os padrões da festa. As cores utilizadas são as mais variadas apesar de manter a presença do dourado com cor predominante. Isso marca indícios da renovação. As alas não estão correlacionadas às expectativas anteriores em que, conforme mostra o Reis de Paus, se seguem a lógica das hierarquias sociais.

No desfile tradicional, primeiro surge a ala dos índios, depois a ala das baianas e sucessivamente as alas do casal de macumbeiros e as alas da corte. A forma instituída pelo Solar, neste sentido, é desconstruída para vincula-se a uma perspectiva estética descomprometida, mas ao mesmo tempo, comprometida com a tradição. As pinturas também são descartadas ou facultativas pela aquela agremiação. O som também demarca uma batida mais intensa e vibrante com oscilações entre BPMS (batidas por minutos) mais pulsante e lenta.

As danças também são inovadoras, mas são modernizadas seguindo a linha do ritmo dos tambores. A dança é alegre e expõem as velocidades do tempo caótico da vida urbana. O ritmo é estridente e pulsante, pois conforme se observa, existe uma compreensão de que o ritmo lento é impulsionado apenas para apresentar o momento da coroação da rainha. Neste caso, o grupo busca impor sempre um ritmo veloz e acelerado para caracterizar o momento contemporâneo moderno.

Por nascer neste contexto moderno de grande velocidade e de mudança sociais e estruturais, vejo que o grupo muda a forma para estabelecer um outro diálogo mais artístico e estético de deformação contemporânea e, ao mesmo tempo, de enquadramento com regras da tradição. Esse quadro social compõe um discurso permanente entre o moderno e o tradicional que luta resistindo pra não morrer e negocia o tempo todo com as atualizações sociais que são imprescindíveis e obrigatórias pela própria exigência do contexto social híbrido e sincrético, que assola a sociedade pós-moderna e multicultural.

Cada fantasia de cada membro pertencente ao Solar parece combinar com uma espécie de modelagem dourada. É como se cada pessoa que passa na avenida tivesse sido modelada pra o espetáculo daquela cultura, revestida de

dourado, a cor predominante que demonstra-se quase que como uma escultura de bronze a desfilar na avenida. O uso intenso de vestimentas douradas, azuis e brancas renova a exposição anterior em que se privilegiava a cor preta principalmente na pintura do rosto. Agora a pintura do rosto pode ser de qualquer cor e não somente de preto, pois a coloração e marca predominante entre os participes daquela cultura.

Entre tantos elementos novos a presença do antigo e velho ritmo tradicional não deixou de persistir e permanecer na sonoridade maracatuzeira. Ritmo rural lento, mas ao mesmo tempo veloz e urbano que dialogam e se tensionam de forma hibrida e sincrética. Outro elemento que marca a tradição é a letra que fala dos santos cultuados pelo candomblé e a presença da boneca calunga também demarca a forte presença da tradição.

Apesar de tanto deformação construtiva a agremiação mantém através da forma de organização um contexto multicultural pós-moderno semelhante a um quadro abstrato em que a cores ilustram e dá significado a estrutura quase que tridimensional do espetáculo. Tal como um quadro representativo do estilo abstrato, o Maracatu Solar expõe na avenida um aparente por do sol que ao entrar na avenida parece iluminar os olhos dos espectadores. Forte e brando esse maracatu transmite uma força delirante de um ritmo urbano que corta e sangra a alma de quem aprecia o evento e ao mesmo tempo abranda de ternura o coração através do ritmo lento, suave e dolente. Essa força é a presença do moderno que clama para não morrer e a dolência é a chama que acende e queimar a alma para manter viva a tradição.

A presença do dourado com cor predominante simboliza o sol que ilumina a esperança dos desassistidos, dos excluídos de seus direitos que cantam, dançam e ritualizam sem parar. O dourado significa o fogo que mantém acessa a chama do amor e da solidariedade, que queima, ilumina e brilha e mantém viva a sede pela transformação, pela revolução dos valores, dos preconceitos e do conservadorismo que adormece e esconde as sujeiras da cidade. A letra do Solar fala do santo guerreiro, São Jorge, aquele que vai matar os nossos dragões, que vai salvar os súditos da fome, do flagelo e da seca d’água que assola sertão. A letra junto com o ritmo alucinante delimita um território complexo e micro-político, um fenômeno, uma

loucura que grita de forma esquizofrênica pela salvação. Gritos ecoados por vozes alucinantes e revoltosas que rompem com a atrocidade do poder.

O dourado simboliza a cor da fome, a cor do sertão banhado pelo sol escaldante e torrencial. A dança, a musicalidade, as cores romper com a normalidade da ordem. Cada elemento transgride a regra. Ao todo a presença do Solar na avenida representa um grito de protesto contra a injustiça, a falta de cidadania e o descaso público que desprezam as camadas sociais menos favorecidas. Máquina de guerra, movimento revolucionário micro político, o Solar não para de anunciar a miséria de um povo sem terra pra plantar, sem casa pra morar e sem escola para estudar.

As mazelas sociais ganham sentido através do Maracatu Solar que agride aos olhos mais conservadores que se impressionam com as velocidades impostas. Velocidades de um tempo passado, mas presente ainda que clame pela liberdade do povo negro, pela igualdade de direito, pelo reconhecimento humanitário e pela a emancipação cultural. O que existe de novo é a velocidade que não para de politizar, de desorganizar e de gerar um movimento de repúdio ao poder do Estado. Velocidade essa que promove a guerra, que como um furação arrasta e extermina tudo que passa pela frente.

Tal como o ritmo veloz e apocalíptico o Maracatu Solar traz em seus adereços e vestimentas todo um imaginário social político de um povo marcado pela falta de cidadania. A intensidade do canto, da dança simboliza um grito de uma população excluída, desassistida pelo poder público. Uma camada social que sagra e carece de amor e de solidariedade. A Vestimenta dourada cor de ouro também representa riqueza, fartura, alegria, justiça, felicidade e festa. O ouro é o elemento sagrado, místico que brilha e ilumina. É luz divina que clareia a escuridão e o caos. Cor resplandecente que acima de qualquer dor ou loucura reluz esperança e fé.

O que o Solar traz de tradicional está em tudo que se encontra representado no ritual. A musicalidade veloz ritmada ao caos urbano, na coreografia, na vestimenta dourada que simboliza sofrimento, festa e alegria, na cara pintada de preto e branco. Enfim todos os elementos demarcam um campo comunicativo histórico, memorial em que se observa a permanência de um lugar de civilização e

de tradição. Embora o Solar reconfigure o velho através do novo, ele não deixa de delimitar um contexto de conflitos, de tensões e confrontos ideológicos e micropolíticos em busca de uma ação que revigore a rebeldia, a indignação e a contestação. Aqui se constrói um espaço crítico de produção de subjetividade.