Sob a história, a memória e o esquecimento. Sob a memória e o esquecimento, a vida. Mas escrever a vida é outra história. Inacabamento”279.
A memória, melhor forma de “significar que algo aconteceu”, é parte imprescindível
do reconhecimento do indivíduo, que necessita transmitir suas experiências e sua vida. Inclusive, pode-se entender o testemunho como fundamental na passagem da memória para a história280, ponto no qual a fenomenologia da lembrança caminha para a interpretação e a hermenêutica, e a experiência viva (pré-verbal) cruza com a linguagem281.
Dos poetas épicos aos escritores sobreviventes dos massacres do século XX, passando pelos múltiplos exercícios filosóficos, sempre retomados, de explicitação do enigma do real, a memória dos homens se constrói entre esses dois polos: o da transmissão oral viva, mas frágil e efêmera, e o da conservação pela escrita, inscrição que talvez perdure por mais tempo, mas que desenha o vulto da ausência. Nem a presença viva nem a fixação pela escritura conseguem assegurar a imortalidade; ambas, aliás, nem mesmo garantem a certeza da duração, apenas testemunham o esplendor e fragilidade da existência, e do esforço de dizê-la 282.
A transmissão da experiência por meio de narração, essa tradição de memória viva, oral, comunitária e coletiva se perdeu, para Jeanne Marie. Surgiu, então, traços específicos na preocupação moderna com a memória, gerando uma necessidade de se criar novas maneiras de conservação da lembrança, como livros, documentos, fotos, dentre outros283.
Walter Benjamin, nos textos O narrador e Experiência e pobreza, aborda a questão da tradição e da transmissão da experiência de geração em geração, que ultrapassa a experiência de vida individual de cada um, transcendendo a vida e a morte284.
Jeanne Marie afirma que Benjamin traz duas reflexões sobre o motivo desse
fenômeno: “o desenvolvimento das forças produtivas e da técnica”. Particularmente, em
virtude da sociedade ter se organizado no modelo capitalista e a experiência e memória traumáticas serem de difícil assimilação pela linguagem cotidiana e pela narração tradicional.
279 RICOEUR, 2007, p. 513.
280 RICOEUR, 2007, p. 27 e nota de rodapé sobre KRELL, David Farrell. Of memory, reminiscence and writing:
on the Verge. Bloomington Indianapolis: Indiana University Press, 1990.
281
RICOEUR, 2007, p. 27 e nota de rodapé sobre KRELL, David Farrell. Of memory, reminiscence and writing: on the Verge. Bloomington Indianapolis: Indiana University Press, 1990.
282 GAGNEBIN, 2009, p. 11.
283 Tradução de Sérgio Paulo Rouanet de ensaio obtido em BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações
sobre a obra de Nikolai Leskov. In: MAGIA e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221 citado por GAGNEBIN, 2009, p. 40.
Falando com Freud, o trauma “fere, separa, corta ao sujeito o acesso ao simbólico, em particular à linguagem” 285.
A escrita é capaz de transcrever a linguagem oral, de aprisioná-la em um objeto material, e, por isso, relaciona-se intimamente com o fluxo narrativo constitutivo das histórias, memórias, tradição e identidade286. A escrita “deseja perpetuar o vivo, mantendo sua lembrança para as gerações futuras, mas só pode salvá-lo quando o codifica e o fixa, transformando sua plasticidade em rigidez, afirmando e confirmando sua ausência – quando pronuncia sua morte”287.
Apesar da existência da imagem para se referir ao mecanismo da memória e da lembrança, há uma predominância da metáfora da escrita, fato que intriga a autora Jeanne Marie.
Outra metáfora-fundadora de nossa concepção de memória e de lembrança: a da escrita, este rastro privilegiado que os homens deixam de si mesmos, desde as estelas funerárias até os e-mails efêmeros que apagamos depois do uso – sem esquecer, naturalmente, os papiros, os palimpsestos, a tábua de cera de Aristóteles, o bloco mágico de Freud, os livros e as bibliotecas: metáforas-chave das tentativas filosóficas, literárias e psicológicas de descrever os mecanismos da memória e do lembrar288.
Uma possível justificativa para a preferência pela escrita, para Jeanne Marie, seria que esta é mais arbitrária que a imagem e escapa com mais facilidade do sério problema da aferição entre aparência e realidade, quando se trata de lembrança289. Inclusive, atualmente, as artes plásticas estão utilizando, cada vez mais, elementos de escrita, “como se o gesto de gravar, rabiscar, bordar caracteres escritos ajudasse a reinventar os gestos miméticos tradicionais, como os de desenhar e pintar, por sua vez colocados totalmente sob suspeita” 290.
A língua, como código de linguagem, é uma “classificação opressiva” e é permeada
de um misto de servidão e poder, pois não pode, então, haver liberdade, senão, fora da linguagem, restando aos mortais, nas palavras de arthes, “trapacear com a língua, trapacear a
língua”291 .
A escrita tenta representar o real em palavras. Porém, esse caminho de escrever as coisas e as vivências do mundo real é tortuoso. É difícil significar com o sabor ou saber das 285 GAGNEBIN, 2009, p. 51. 286 GAGNEBIN, 2009, p. 111. 287 GAGNEBIN, 2009, p. 111. 288 GAGNEBIN, 2009, p. 111. 289 GAGNEBIN, 2009, p. 111. 290 GAGNEBIN, 2009, p. 111 291 BARTHES, 1980, p. 14-15.
palavras, o gosto, o cheiro, enfim, o modo de ser das coisas292. Para arthes, “língua e discurso são indivisos, pois eles deslizam segundo o mesmo eixo de poder”293.
Diante da agonia de se esquecer de tudo, os personagens do livro Cem anos de solidão tentaram driblar, em vão, os efeitos da doença da insônia com a escrita:
Foi Aureliano quem concebeu a fórmula que haveria de defende-los durante vários meses das evasões da memória. Descobriu-a por acaso. Insone experiente, por ter sido um dos primeiros, havia aprendido à perfeição a arte da ourivesaria. Um dia estava buscando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e não lembrou o nome dela. Seu pai disse a ele: “bigorna”. Aureliano escreveu o nome num papel que grudou com goma arábica na base da bigorninha: bigorna. Assim teve certeza de não esquecê- lo no futuro. Nem lhe ocorreu que aquela havia sido a primeira manifestação do esquecimento, porque o objeto tinha um nome difícil de lembrar. Mas poucos dias depois descobriu que tinha dificuldade para se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então marcou-as com os respectivos nomes, de maneira que bastava ler a inscrição para identificá-las. Quando seu pai falou de sua preocupação por ter esquecido até os fatos mais impressionantes de sua infância, Aureliano explicou seu método, e José Arcádio Buendía colocou-o em prática na casa inteira e mais tarde o impôs em toda a aldeia. Com um galho de hissopo com tinta marcou cada coisa com seu nome:
mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, caçarola. Pouco a pouco,
estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar o dia em que as coisas seriam reconhecidas por suas inscrições, mas ninguém se lembraria de sua utilidade. Então foi mais explícito. O da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, e deve ser ordenhada todas as manhãs para
que produza leite, e o leite deve ser fervido para ser misturado com o café e fazer café com leite. E assim continuaram vivendo numa realidade
escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que fugiria sem remédio quando fosse esquecido o valor da letra escrita294.
O ato de transpor o real para a linguagem escrita esconde a esperança de enganar a morte, o esquecimento e o silêncio e de deixar um rastro duradouro e imortal para as gerações seguintes295. Jeanne Marie, na esteira de Aleida Assmann, afirma que escrita e rastro não são sinônimos296, apesar de, por muito tempo, a primeira ter sido considerada “o rastro mais duradouro que um homem pode deixar, uma marca capaz de sobreviver à morte de seu autor e
transmitir sua mensagem”297 .
292 O paradigma que aqui proponho não segue a partilha das funções; não visa a colocar de um lado os
cientistas, os pesquisadores, e de outro os escritores, os ensaístas; ele sugere, pelo contrário, que a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor (saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia). Curnonski
dizia que, na culinária, é preciso que “as coisas tenham o gosto do que são” ( ARTHES, 1980, p. 19-20).
293 BARTHES, 1980, p. 28-29.
294 MÁRQUEZ, 2014b, p. 88-89, grifos do autor. 295
GAGNEBIN, 2009, p. 112.
296 GAGNEBIN, 2009, p. 111. 297 GAGNEBIN, 2009, p. 112.
A partir do Século XVIII, principalmente com a contribuição do historiador Thomas Carlyle, findou esse reinado absoluto da escrita como o rastro inabalável, surgindo a consciência de sua fragilidade e de que seria apenas mais um de vários fragmentos do passado298. Assim, a escrita passa a ser considerada um rastro da existência humana como qualquer outro299, “fruto do acaso, da negligência, às vezes da violência”, pois “rastros não são criados – como são outros signos culturais e linguísticos -, mas sim deixados ou esquecidos” 300.
O excepcional no rastro, para Emmanuel Levinas, é que “ele significa fora de toda intenção de significar” 301
. Os rastros ou restos que sobram das vidas e das histórias oficiais devem ser juntados pelos poetas e historiadores, narradores autênticos, silenciosos e anônimos, que protestam, por intermédio de seus textos, segundo Walter Benjamin302.
De um lado, o rastro da escrita é incompleto, por haver muito o que ela não consegue significar de maneira plena. De outro, porém, é por meio da escrita, desse caráter linguístico da experiência, que se torna possível a compreensão de si e do mundo, o que perpassa, portanto, de forma indelével, pela interpretação “dos signos e das obras” anteriores à existência do sujeito. E, assim, além de compreender e interpretar os sentidos já dados, torna- se imperioso criar novos sentidos303.
Retornando à tríplice mímesis, o processo de criação da narrativa abrange mais do que a construção de um texto a partir de objetos, pois consolida e preconiza a ideia de
“pertencimento” do narrador ao mundo304
. Parte-se do pressuposto de que ninguém é dono soberano de sua fala e o discurso representa a “dinâmica de encobrimento e de descoberta do
Ser, o sistema de relações que estruturam o corpo social, o inconsciente”305 .
Num sentido ao mesmo tempo paradoxal e trivial, gostaria de dizer que os homens não são animais tão específicos porque possuem uma memória: mas porque se esforçam em não esquecer. A escrita da história é sim atravessada pela morte, como afirmava o deus solar do Fedro; mas se o historiador luta contra o esquecimento (Heródoto) e trabalha para cavar um túmulo, 31 seu gesto recorda simultaneamente aos vivos que nenhuma memória poderia torná-los inesquecíveis, isto é, eternos. Assim, a história luta igualmente
298 GAGNEBIN, 2009, p. 112-113 fazendo referência aos estudos de Aleida Assman. 299 GAGNEBIN, 2009, p. 113 fazendo referência a Aleida Assmann.
300
GAGNEBIN, 2009, p. 114.
301 LEVINAS, Emmanuel. Humanismo do outro homem. Petrópolis: Vozes, 1993. p. 75-76 citado por
GAGNEBIN, 2009, p. 113.
302 GAGNEBIN, 2009, p. 118 faz referência a BENJAMIN, 1994. 303
GAGNEBIN, 2009, p. 170, conclusão na esteira dos estudos de Ricoeur, Freud e Hegel.
304 GAGNEBIN, 2009, p. 169-170. 305 GAGNEBIN, 2009, p. 166.
contra este esquecimento primevo que nos é tão caro: o esquecimento de nossa própria morte 306.