Na trajetória das dez mulheres pesquisadas, ao pensar as relações entre as gerações de mulheres agricultoras e suas representações sobre a sexualidade, usei o marcador social “geração” como categoria analítica nos dois sentidos em que Andréa Alves emprega o termo. O primeiro sentido é “como posição no interior da estrutura de parentesco, alinhada à organização social do ciclo de vida” (2009, p. 15). Usei-o na perspectiva de tornar mais explicita a conexão entre sexualidade e reprodução, através das relações de parentesco destas mulheres agricultoras e de seus lugares na organização social dos ciclos de suas vidas. O modelo que predomina na sociedade em que estas mulheres agricultoras estão inseridas é o modelo normativo, dominante, de família patriarcal, heterossexual, de casamento monogâmico, com padrões de divisão de gênero e de idade. São padrões construídos socialmente que relacionam linearmente sexualidade, geração e reprodução.
Observa-se que a sexualidade é um tema difícil entre as gerações de mulheres da zona rural, a maioria começando a ter uma vida sexual ativa na adolescência atrelada a um compromisso de casamento. As dez mulheres pesquisadas iniciaram sua vida sexual entre os 15 e os 18 anos de idade, e sete delas afirmam só ter feito sexo com um único homem, seu marido. Destas, as três adultas mais velhas – Maria José (50 anos), Maria Amélia (50 anos) e Maria de Lourdes (41 anos) – têm o maior número de filhos – sete, oito e seis, respectivamente. Elas fazem parte de uma geração que ainda tinha dificuldade de acesso à informação, além da resistência em utilizar os métodos contraceptivos. Já a geração das quatro adultas mais novas – Maria do Sossego (38 anos), Maria dos Prazeres (32 anos), Maria das Dores (31 anos) e Maria da Paz (32 anos) –, e as jovens – Maria Esperança (28 anos) e Maria dos Anjos (24 anos) –, disseram fazer uso do método anticoncepcional para evitar ter muitos filhos, por este motivo, elas têm entre um e dois filhos. Maria Alice (25 anos) não tem filho por opção.
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Maria de Lourdes (41 anos), dentre as mulheres agricultoras pesquisadas, é a exceção de sua geração. Apesar de pertencer a uma geração muito conservadora e castradora da sexualidade feminina, já teve quatro relacionamentos conjugais. Com seu traço individual, seu comportamento e sua prática cotidiana, “quebra” ou resiste ao habitus83 de gênero de toda uma história coletiva da sua família e das mulheres agricultoras aqui pesquisadas. Com relação às outras mulheres da pesquisa, tem-se a percepção que há uma reprodução de vida cotidiana trazida pelas avós e mães, nem sempre percebida, principalmente em relação ao fato de as mulheres assumirem os filhos, a casa e o trabalho na roça. O mesmo se pode dizer da ausência de diálogo entre mães e filhas sobre assuntos como orientação sexual e sobre o corpo. Maria José fala do comportamento e das tradições de “antigamente” com relação à sexualidade feminina e ao namoro impostos pelos seus pais:
– Era assim, os velhos de antigamente. Hoje em dia não é assim, não. E antigamente, era assim: se, Deus o livre, a gente desse um erro dentro de casa, os pais não queria a gente. [...] [Namorava] escondido com 13 anos [risos], namorar, não, conversar,
porque antigamente a gente não namorava feito hoje em dia. Antigamente tinha que levar a namorada em casa. Nós namorava escondidinho pra papai nem saber. Depois de 22 anos em diante, assim de 20 anos, esse mesmo foi o único namorado que eu levei em casa e ainda assim foi em casa pra pedir pra casar, que foi Manoel. Por que a gente tinha o maior medo de papai... Ave Maria! Quem quisesse que fosse. Ele dizia: “se namorarem e engravidarem a gente vai ver!”. (Maria José, parda, 50 anos).
Pode-se observar também no depoimento de Maria dos Prazeres como a identidade de gênero vai sendo construída socialmente através da cultura, do comportamento dito de mulheres, dos símbolos que se materializam e são alimentados pela heteronormatividade e se institucionalizam e interagem entre si na família, no parentesco, no meio doméstico, no Estado, na educação e na religião. Maria dos Prazeres afirma que fez sexo só depois que casou, quando tinha 17 anos de idade, e conta um fato que elucida como se reproduz e reforça a identidade feminina tradicional:
– [...] Com 15 anos eu menstruei, nasceu um caroço em mim, aí meus irmãos da outra família me levou pra Salvador. Aí fez uma cirurgia [...] eu cheguei num dia me internei pra fazer a cirurgia no outro dia. [...] Quando foi de noite a enfermeira, chegou– ainda hoje
83 Compreendendo o conceito de habitus como: “[...] um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas [...]” (BOURDIEU, 1983, p. 65).
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manga de mim: “Ei dona, você tem que tirar [depilar]”, eu fiz uma briga com ela, que não deixava, eu era moça. [Ela:] “o que é que tem a ver com moça? Nada, não”. [Respondi:] “Não deixo, não, que pai disse que para tirar esse negócio só era mulher casada, eu não sou casada”, fiz uma confusão, minha fia, ela botou no prontuário. Aí o médico chegou, no outro dia, ficou conversando de onde eu era, ficou perguntando coisa e deu risada, mas ela botou no prontuário que se acontecesse qualquer coisa, era minha responsabilidade. Ah, quem disse que eu ia deixar raspar, se meu pai dizia: “moça não se raspa, quem se raspar é puta ou mulher casada. Tinha esse negócio, puta ou mulher casada, hoje a gente não usa isso, cada qual faz a sua vida, cada qual faz o que quer, mas foi difícil, me casei, tô aqui [risos]. (Maria dos Prazeres, parda, 32 anos).
No depoimento de Maria José e de Maria dos Prazeres fica evidente como elas se enquadravam, acatavam e respeitavam as regras e as determinações de seus pais. Diferente de Maria de Lourdes, uma jovem tentando se contrapor às normas e regras estabelecidas para as relações de gênero na sua época de adolescente no meio rural. O confronto desta jovem “rebelde” é com sua mãe, com a forma como ela a tratava ao exigir comportamentos adequados para uma moça, exigindo sempre cuidados para não perder a virgindade, porém, de uma forma sempre agressiva, levando Maria de Lourdes a romper com os padrões:
– [A primeira relação sexual] acho que eu tinha uns quinze pra dezesseis. Não gostei muito, não. Quer dizer que, naquele tempo, a gente fez mais besteira por causa dos nossos pais que xingava muito a gente com aqueles palavrões feios. Xingava o que a gente não era. Aí como eu sempre fui desaforada, que até hoje só, eu disse à mãe: [...] “Já que a senhora me chamou disso, a pois, eu vou dar é hoje, ainda fui de saia branca pra ter prova. Eu disse: “eu posso apanhar mas eu vou dar é hoje” (Maria de Lourdes, branca, 41 anos).
Já Maria do Sossego conta que, aos 18 anos de idade, iniciou sua vida sexual com seu primeiro namorado e foi morar com ele desde esta época, há 20 anos atrás. Ela fala com timidez sobre seu sentimento de prazer com relação ao ato sexual: “Foi assim, foi e tá sendo,
na verdade, ninguém pode negar”. Para Maria das Dores, que, atualmente, está separada há
apenas dois meses depois de 12 anos de convivência com seu único parceiro, a experiência sexual na adolescência, aos 16 anos de idade, aconteceu sem refletir, sem pensar nas consequências desta atitude, e agora, na idade adulta, com a experiência acumulada com este parceiro, pensaria mais nas questões desencadeadas após o ato sexual:
– [A primeira relação sexual] acho que foi com uns 16 anos. Não sei por que, eu
acho que a gente quando não tem assim uma experiência, a gente vai assim, no ato, não é assim com amor. Porque hoje, se fosse pra mim começar uma relação, eu ia pensar mais
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antes de fazer o sexo, tem que ter uma conversa de relação, como vai ser, porque tem que ter o respeito. E não é assim quando a gente começa, quando é jovem a gente não vai pensando no respeito, como vai ser depois da relação. Vai namorar, tem a relação de namorar, e depois quer continuar naquela vida, só tendo relação sem respeito. Não foi bom, não. (Maria das Dores, 31 anos).
Maria das Dores continua falando sobre sua relação conjugal e como a dominação masculina oprime os desejos e os quereres das mulheres agricultoras que, em suas relações de gênero no cotidiano, ainda não conseguem confrontar a ordem de gênero patriarcal, então, aceitam e assumem o lugar de mulher dominada. Fala que só tinha relações sexuais quando o marido queria e sem o carinho de antes:
– Só quando ele queria porque depois que a vida da gente fica mais ou menos
descontrolada, não tem aquela conversa mais, não tem aquele carinho, faltando carinho, faltando o respeito, aí vai levando. (Maria das Dores, preta, 31 anos).
A sexualidade dessas mulheres está diretamente relacionada ao casamento e à reprodução. O casamento no meio rural ainda se apresenta como uma imposição, um preceito na vida destas mulheres agricultoras heterossexuais e, segundo elas, a falta de oportunidade era, e ainda é, o grande vilão para um casamento tão precoce. Na fala de Maria José, o casamento era a única alternativa para sair do domínio do pai, da situação de pobreza e da exploração do trabalho familiar. Não passava por sua cabeça não cumprir com esta obrigação moral imposta pela família e pela sociedade e por ela naturalizada e incorporada. Maria dos Prazeres também via o casamento como um preceito: na adolescência, sonhava e juntava dinheiro para um possível casamento, que iria acontecer um dia. Quando seu pretendente apareceu, ela tinha uma condição para aceitar o casamento e poder continuar estudando. Esta condição não era nem cogitada na geração de Maria José. É o que elas dizem sobre o casamento:
– Tem hora que eu digo, assim, que acharia, porque é assim, às vezes a gente diz
vamos casar, se a gente mora de baixo dos pais, para sair de trabalho. E quando casei fui trabalhar mais ainda, então, achei bom que casei, me amparei, graças a Deus, ele nunca me tratou mal, mas é pra trabalhar. Eu devia ter ficado solteira mesmo, trabalhando sossegada, mas é coisa da vida. A gente tem que casar mesmo, não pode ficar. (Maria José, parda, 50 anos).
– E a gente foi e ficou assim, namoremos e se casemos. Esse já foi namoro mesmo
[risos]. [...] Foi, graças a Deus. No início foi ruim, mas depois a gente vai vivendo a vida, vai
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se me deixasse estudar. Ele disse que podia estudar, podia ir pra onde quisesse, então é com esse que eu vou me casar [risos altos]: “Mãe, eu vou me casar”; [a mãe:] “Menina!”. Logo eu ajudava demais em casa. Eu acordava era quatro e meia da manhã junto com pai, ia tirar o leite, eu ia também. (Maria dos Prazeres, parda, 32 anos).
As mulheres agricultoras são alfabetizadas, porém, as adultas mais velhas, nascidas nas décadas de 1960 e meados da década de 1970, mal terminaram a 4ª série primária, hoje Ensino Fundamental I. Apesar de as mais jovens terem mais escolaridade, chegando a concluir o Ensino Médio, elas continuam vendo o casamento como a única alternativa na vida delas, diferentemente dos homens, que priorizam o trabalho rural ou migram para São Paulo em busca de trabalho. Diz a jovem Maria Alice, referindo-se aos homens jovens da comunidade Bariri, do município Ribeira do Amparo:
˗˗ Como os jovens de hoje pensam, 90 % dos jovens daqui da comunidade acha que o futuro é esse e nem faz nada aqui, não completa 18 anos e quer ir para São Paulo, não faz nada aqui, não quer saber do estudo porque diz que o estudo aqui não é igual ao de lá.
Os jovens, filhos de agricultores, deixam a escola muito cedo, querem começar a trabalhar, porque isto significa entrar no mundo dos adultos; ter ido a São Paulo, ter dinheiro, é muito importante para se afirmar em relação aos colegas e em relação às meninas. “Ser reconhecido e se reconhecer como homem”, diria Bourdieu (1983, p. 115).
Ainda hoje, na região semiárida, observa-se pouca perspectiva quanto à geração de renda para as mulheres agricultoras, mesmo quando elas concluem o ensino médio. Elas sofrem do que Crenshaw (2002) chama “discriminação interseccional”: estão em uma posição social, econômica e cultural que contribui para a sua vulnerabilidade a outros sistemas de subordinação, colocando as mulheres rurais, pobres e, principalmente as negras, mais vulneráveis, quando eles se intersectam. É o caso, por exemplo, de Maria das Dores, negra, recém-separada, um filho, formada em Magistério, que não consegue exercer este ofício no município de Banzaê nem na sua própria comunidade, tendo que fazer várias atividades para se manter e ao filho:
– Na verdade eu me mantenho hoje, estando separada, é como eu me mantinha
junto, com Bolsa Família, trabalhando, trabalho no artesanato quando vende é uma rendinha a mais e às vezes eu trabalho em Banzaê, ganho por dia [faz faxina]. Eu me mantenho assim.
Não tenho vontade também de ir pra São Paulo, que sei que lá a realidade não é fácil. (Maria das Dores, preta, 31 anos).
Maria das Dores enfrenta a discriminação de gênero, de classe social, de sua origem rural, por estar separada, mas, principalmente a racial, que também atinge sua família
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e as pessoas da comunidade Maria Preta. No seu depoimento, percebo que não é mais oprimida que as outras mulheres da pesquisa, que são da mesma classe social, sejam elas brancas, pardas, ou mesmo a outra mulher negra, mas ela experimenta as múltiplas opressões a partir de seu lugar, de sua trajetória de vida e de sua vivência de mulher camponesa negra e pobre, o que traz marcas profundas e um sentimento de revolta e tristeza, além de um ponto de vista sobre a opressão racial presente na sociedade racista e sexista, de quem vivencia a discriminação e o preconceito racial fora e dentro da própria comunidade:
– Aqui, fora, assim quando a gente chega num lugar, as pessoas não veem a
gente, é como se não tivesse chegado ninguém, aí a gente já sente aquela coisa por dentro, por ser da Maria Preta, por não ter um cabelo liso, por não gostar muito de falar, por não gostar de se mostrar, a pessoa não liga pra gente, não tem aquela atenção que a gente vê que têm com outras pessoas das outras comunidades. (Maria das Dores, preta, 31 anos).
Em outro depoimento, ela afirma que o estudo ajuda a enfrentar a discriminação racial, apesar das questões políticas:
– Ajuda, não é muito, porque a escola aqui, eu fiz o Magistério, tenho
autorização de estar em sala de aula, mas como tem a questão política e tem a questão que é Maria Preta... o professor da comunidade, mas sempre que precisa de uma mobilização na escola. Ela já sabe que eu tenho estudo, já me procura. No início do ano letivo a diretora já vem, faz reunião com as mães e aí já diz qual o professor que vai ser, logo esclarece que havendo falha do professor a gente tem direito de reclamar, e eu, Maria das Dores, que tem o Magistério, que tá por dentro mais da escola, também ajuda. Aí eu acho que sim [que o estudo ajuda]. (Maria das Dores, preta, 31 anos).
O estudo não só ajuda a enfrentar o racismo, como se apresenta como um elemento fundamental para o empoderamento das mulheres agricultoras. Dentre as mulheres pesquisadas, Maria dos Prazeres é uma exceção, pois conseguiu concluir o ensino superior e está cursando uma pós-graduação, com muito sacrifício e colaboração de sua família, principalmente de sua mãe e de sua irmã, que ajudaram a pagar as mensalidades da faculdade e assumem os cuidados com suas duas filhas, para que ela possa continuar estudando.
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