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Em termos gerais, a situação mais comum encontrada nas empresas é a ocorrência de uma Necessidade de Capital de Giro positiva, pois o usual é que o Ciclo Operacional (lembrando, o prazo entre adquirir, produzir, vender e receber a venda) seja superior ao prazo que a mesma negocia com seus clientes. Como a NCG está diretamente relacionada às atividades que a empresa exerce, é natural que ela apresente uma NCG crescente à medida que suas vendas cresçam. Tal comportamento não representa, por si mesmo, nenhum indicativo de turbulência financeira, desde que tal aumento seja acompanhado por uma geração de caixa coerente. Neste contexto, cabe o seguinte questionamento: como avaliar se o crescimento da NCG decorrente de sua expansão operacional é sustentável, isto é, não irá prejudicar sua saúde financeira de curto prazo? A resposta a essa pergunta é de fundamental importância, principalmente em vista de organizações, ou unidades de negócios em fase de crescimento. A comparação entre as taxas de autofinanciamento e o ciclo financeiro auxilia a elucidar essa questão.

Taxa de Autofinanciamento e Ciclo Financeiro

O termo autofinanciamento aqui empregado refere-se à capacidade que a empresa demonstra de gerar caixa a partir de suas atividades operacionais. Em vista desse objetivo, o autofinanciamento assume expressão quase idêntica ao do fluxo de caixa operacional apresentado na Unidade 1, sendo, portanto, calculado da seguinte forma:

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Quando o crescimento das vendas da empresa se dá de forma sustentável, o autofinanciamento por ela gerado é suficiente para cobrir sua necessidade de investimento em giro (NCG). Do contrário, quando sua geração de caixa é inferior a seu NCG, tal necessidade deve ser coberta com fontes não operacionais, isto é, com o caixa acumulado pela empresa. Tal fato, em si, não é problemático, sendo bastante comum em unidades de negócio em fase de crescimento, conforme já exposto. No entanto, caso tal tendência não se reverta, cedo ou tarde a empresa se verá impelida a buscar recursos com terceiros (bancos e factorings) para financiar suas operações, quando então passará a apresentar Saldos de Tesourarias negativos. Se este comportamento for mantido, a empresa fatalmente caminhará para a insolvência.

Assim, para que a expansão de suas operações se dê de forma saudável, é de se esperar que seu autofinanciamento supere sua necessidade de capital de giro (Autofinanciamento > NCG). Dividindo- se esses indicadores pelo faturamento, temos o conceito de taxa de autofinanciamento e de ciclo financeiro, conforme as expressões:

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Consequentemente, espera-se que: Taxa de autofinanciamento > Ciclo Financeiro. Caso não seja observado esse comportamento ao longo de períodos sucessivos, teremos um cenário no qual o crescimento em vendas é sustentado por valores crescentes da NCG que, por sua vez, é financiada em proporções maiores por capital de terceiros, levando a valores negativos e crescentes do Saldo de Tesouraria da empresa. Temos assim, de um lado, um crescimento contínuo das vendas e do NCG e, do outro, uma queda contínua do Saldo de Tesouraria. Esse fenômeno é denominado de “Efeito Tesoura” em uma alusão à crescente dispersão apresentada pela NCG e Tesouraria da empresa ao longo do tempo.

Esse efeito é uma das causas mais comuns para o falecimento de empresas geradoras de receita (e, mesmo, lucrativas até certo momento) que passam por forte processo de expansão. Como em tais empresas, o crescimento é sustentado por patamares crescentes de capital de terceiros, eventuais restrições no acesso ao financiamento, como durante as crises, por exemplo, impedirá a sustentação

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de sua NCG, levando a empresa à insolvência. Arapuã, Mesbla, Disapel, entre outros, são exemplos de grandes redes varejistas vitimadas por esse efeito.

Caso Ilustrativo: Taxa de Autofinanciamento e Ciclo Financeiro da Erald S.A.

Determine a taxa de autofinanciamento e o Ciclo Financeiro da Erald S.A. em 2015 e compare com a análise realizada anteriormente.

UM PASSO A MAIS: Startups: Crescimento nas receitas ou geração de caixa?

Um dos grandes fenômenos do capitalismo nos últimos anos são as Startups. Capitaneadas por exemplos emblemáticos como Facebook e Google, essas organizações vêm se multiplicando ao redor do planeta, ao propor modelos de negócios inovadores, normalmente associados a novas tecnologias. Após um intenso movimento inicial, os investidores dessas empresas agora cobram delas resultados mais concretos. Em outras palavras, a aposta em boas ideias agora cobra a entrega de resultados, isto é, lucro. Cedo ou tarde, a unidade de negócio em expansão será cobrada por gerar caixa (autofinanciamento), pois o investidor sabe que crescimento sem a correspondente geração de caixa para financiá-lo (taxa de autofinanciamento < ciclo financeiro) torna a empresa insustentável. O trecho abaixo foi retirado de uma matéria veiculada no jornal Valor Econômico em 24/05/2016 e traz uma interessante síntese sobre esse tema:

“Em setembro passado, a SpoonRocket vinha ficando sem dinheiro. Fundadores da empresa de entrega de refeições com sede em Berkeley, na Califórnia, haviam vendido a investidores de planos de expansão agressivos a promessa de um negócio de alto ritmo de crescimento. No momento em que conseguiu concretizar seu plano de expansão em San Diego e Seattle, no início de 2015, o cenário de financiamento disponível havia se transformado. Investidores de capital de risco haviam passado a dar prioridade ao lucro em vez do crescimento das operações. Depois de apenas alguns meses, a SpoonRocket abandonou os novos mercados e voltou o foco para a melhora dos fundamentos econômicos de seus negócios.”

Se tiver interesse, leia a íntegra da reportagem em:

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Do exemplo anterior, temos que: NCG2014 = 98.550 e NCG2015 = 176.050. Logo: NCG = 77.500

Autofinanciamento = 49.510 + 88.946 – 77.500 = 60.956 Taxa de autofinanciamento = 60.956 / 1.491.600 = 4,1%

Ciclo Financeiro = 176.050 / 1.491.600 = 11,8%

Em 2015, o Ciclo Financeiro mostrou-se superior à taxa de autofinanciamento da empresa, o que indica crescente dificuldade financeira, pois o caixa gerado pela empresa em tal ano não foi suficiente para financiar seu aumento de NCG. Como a empresa não detinha grande reserva de recursos em sua tesouraria (caixa e aplicações financeiras), ela se viu obrigada a financiar suas operações com capital de terceiros.

REFERÊNCIAS

BERK, J.; DEMARZO, P. Finanças Empresariais. Porto Alegre: Bookman, 2009.

DRE - Erald S.A. 2.015

Receita Bruta 1.491.600

(-) Impostos sobre receitas 223.740

(-) Custo do Produto Vendido 745.800

(=) Lucro Bruto 522.060

(-) Depreciação e Amortização 88.946

(-) Despesas Operacionais 250.700

(=) Lucro Operacional 182.414

(-) Despesas Financerias 107.399

(=) Lucro Antes do Imposto de Renda 75.016

(-) IR e CSLL 25.505

Lucro Líquido 49.510

E NO CASO DAS COOPERATIVAS?

No caso das cooperativas, ao invés do lucro líquido, deve-se empregar a conta de sobras líquidas do exercício para o cálculo do auto financiamento (e da taxa de autofinanciamento). Uma vez feito esse ajuste, os demais princípios e índices permanecem análogos ao utilizado em empresas comerciais. A única ressalva deve ser feita quanto à análise comparativa com empresas comerciais, pelo já exposto na unidade anterior. Além disso, no caso particular das cooperativas agrícolas, como tais organizações recebem os produtos de seus cooperados, pagando à vista, as contas da Necessidade de Capital de Giro são normalmente elevadas, resultado em tesourarias negativas, que usualmente são financiadas com créditos governamentais subsidiados. Assim, o uso de empresas comerciais, ainda que do mesmo setor, é particularmente desestimulado na análise relativa desse tipo de organização.

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FLEURIET, M.; KEHDY, R.; BLANC, G. O Modelo Fleuriet. A dinâmica financeira das empresas brasileiras. Rio de Janeiro. Editora Campus, 2003

GITMAN, L. Princípios de Administração Financeira. 12ª ed. São Paulo. Editora Pearson, 2010 HELFERT, E. A. Técnicas de Análise Financeira: um guia prático para medir o desempenho dos negócios. 9 ed. Porto Alegre: Bookman, 2000

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