Kapittel 4 - Kinesiske selskapers operasjonelle lisens
4.4 Vestlig kondisjonalitet
82 Embora o romance epistolar tenha atingido seu auge no século XVIII, a forma já era conhecida desde a Antiguidade, com obras como as Heróides, de Ovídio – obra que, por sinal, irá inspirar traduções e adaptações no Século das Luzes (ROUSSET, 1962). De acordo com Jean Rousset, a Idade Média também viu surgir alguns romances epistolares, mas a história da forma só começa no século XVII, com romances como Astrée, de Honoré d’Urfé, e Clélie, de Madeleine de Scudéry, que trazem cartas inseridas na narrativa. O marco é o ano de 1669, com a publicação de Lettres à Babet, de Boursault, e das Cartas portuguesas, de Mariana Alcoforado, quando a carta finalmente se impõe como forma narrativa. O final do século XVII vê ainda a publicação de várias adaptações da correspondência de Heloísa e Abelardo, de autoria de Bussy-Rabutin e outros. A literatura epistolar é, portanto, contemporânea da constituição do romance moderno, entre o final do século XVII e o início do século XIX, e tem como autores principais nomes como: Richardson, Smollet, Goethe, Foscolo, Montesquieu, Crébillon fils, Rousseau, Restif, Laclos, Mme de Staël, Senancour, Gautier e Balzac – este autor do último romance epistolar, em 1840, Memórias de duas jovens esposas (Mémoires de deux jeunes mariées).
O ambiente literário nunca é sem relação com o contexto histórico do momento. Assim, a cultura da carta ganhou um novo impulso com o surgimento dos primeiros serviços postais, por volta de 1650 (HUMBERT, 2000). Segundo Humbert, outros elementos também influíram na multiplicação das cartas, tais como: a difusão da educação, a atração crescente dos salões literários e uma vida política mais estável. A necessidade de se corresponder levou à elaboração das chamadas secrétaires (secretárias), manuais epistolares muito populares a partir do século XVII (CALAS, 2007). Ainda de acordo com Frédéric Calas (p. 11), foi por meio das secretárias, que as cartas passaram do domínio público ao literário: “A circulação das cartas privadas e das cartas modelo preside à constituição e ao nascimento do romance epistolar. Por deslocamento, por empréstimo, por enxerto, certas seções de secretárias da Corte vão dar origem a apêndices autônomos em torno da carta amorosa e galante”. É nesse contexto que vemos, no século XVII, a correspondência particular de Madame de Sévigné se transformar em obra literária.
Calas (p. 13) define o romance epistolar como um gênero híbrido, “[...] uma forma condicionada historicamente, que deve sua existência à conjunção de uma forma de expressão, a carta, e de um gênero literário em mutação permanente ao final do século XVII, o romance”. Entretanto, é importante precisar as fronteiras do gênero, lembrando que o
83 romance epistolar não é carta na narrativa ou narrativa em forma de carta – pode-se falar, portanto, de graus de epistolaridade de uma obra. Para Calas (p. 23), uma das especificidades da narração epistolar é justamente a continuidade discursiva: “Um romance por meio de cartas é um romance no qual a ação se faz pelas cartas e não apenas um romance onde as cartas servem de quadro para a narrativa da ação”. Ora, a carta é um instrumento e um ato de comunicação que, como a fala, tem como um de seus objetivos agir sobre o outro, provocando uma resposta e/ou uma reação. Portanto, para existir, o romance epistolar deve apresentar cartas destinadas a outro personagem, diferentemente da biografia e das memórias, que podem ser redigidas sem se endereçar especificamente a ninguém. Calas (p. 43) define o romance epistolar da maneira seguinte:
O que confere a um romance a forma epistolar é o fato que a narração seja inteiramente delegada ao (s) personagem (ns) correspondente (s). [...] O romance por cartas supõe, quanto a ele, a superposição dessas duas instâncias (narrado e narrante) e sua fusão no presente da enunciação. É preciso também que as cartas formem uma continuidade permitindo à ação se desenvolver ou se construir, seja dando nascimento a uma confidência epistolar, seja liberando uma ação das quais as cartas serão o motor e o suporte. Em um romance epistolar a ação deve ter lugar na escrita. Essa adequação pressupõe o apagamento do narrador. A narração é então direta e distribuída a cada personagem desde que ele torna-se correspondente.
Mas nem todos os romances epistolares são iguais, e eles podem ser classificados de acordo com o número de vozes que colocam em ação. Essa diferenciação foi mais diacrônica que sincrônica, com a passagem das obras mais simples (voz solista) às mais complexas (múltiplas vozes), o que não significa necessariamente uma mudança qualitativa (ROUSSET, 1962). De acordo com a tipologia elaborada por Jean Rousset, a voz solista surgiu em primeiro lugar, com apenas uma pessoa escrevendo, frequentemente para apenas um destinatário. Nesse caso, há duas situações: quando há e quando não há resposta do destinatário – um exemplo do primeiro caso é As cartas portuguesas, em que a religiosa escreve, mas não recebe as respostas do seu amante. A segunda situação é a mais freqüente: o destinatário é atingido, mas suas respostas são invisíveis para o leitor – é o que se passa em Os sofrimentos do jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774, Goethe), no qual o moço apaixonado se corresponde com um amigo, cujas cartas não aparecem, mas cujas respostas são confirmadas pelos escritos do protagonista. O segundo tipo de romance é o mais raro: o dueto epistolar explícito. O terceiro tipo, a obra sinfônica, com a orquestração de mensagens de vários correspondentes foi a grande invenção do século XVIII. É a esse tipo que pertence As ligações perigosas, como precisa Calas (p. 38):
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A obra de Laclos propõe o esquema de troca de cartas mais complexo que existe, pois cada correspondente principal entretém várias correspondências, cada personagem está em relação com pelo menos três outros [...] A complexidade das fórmulas, a imbricação das redes atingem nesse romance seu paroxismo [...] Armadilhas são armadas em permanência no deciframento do sentido: ordem das cartas, cartas ocultas, cartas roubadas, carta anônima, carta rasgada, carta ditada por um terceiro.
De acordo com esse autor, o romance epistolar, juntamente com a novela histórica e o romance de memórias foram as três formas literárias que imperaram no século XVIII. Os dois últimos vão se voltar para a história, enquanto que o primeiro vai apostar na subjetividade. Essas novas fórmulas representaram uma reação às críticas sofridas pelo romance no século XVIII, quando o gênero foi acusado de estragar o gosto, de corromper os hábitos e de apresentar narrativas inverossímeis. Criticado e perseguido, o romance torna-se mais realista para fugir das críticas. Daí, o hábito de os escritores afirmarem que suas histórias tinham fontes reais e escreverem prefácios realçando o valor moral de suas obras (MAY, 1963). A regra de Horácio (2005, p. 65) parecia ser seguida à risca: “Os poetas desejam ou ser úteis, ou deleitar, ou dizer coisas ao mesmo tempo agradáveis e proveitosas para a vida”. A obra de Laclos não foge a essa e a outras regras do romance epistolar; vejamos quais são elas e como se relacionam com o ponto de vista nessas narrativas.