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Vários autores já se debruçaram sobre o tema Rádio e Política para analisar o fenômeno que existe entre a comunicação e a busca pelo poder. A característica que diferencia o rádio dos outros meios de comunicação é o aspecto de que as mensagens são transmitidas apenas oralmente, através do som, e o receptor pode executar outras atividades, concomitantemente à sua escuta. O rádio pode, portanto, estar presente em muitos lugares, possibilitando várias ações simultâneas e conquistando espaços que a televisão e o jornal impresso não podem preencher. Outra característica é a velocidade do veículo de comunicação.

Os autores que discutem o tema destacam que este meio está sempre à frente dos outros veículos, através de aspectos como seu dinamismo e sua flexibilidade, que possibilitam intervenções, complementando notícias através de novos dados e reportagens mais detalhados, durante a programação.

Considerando a importância do rádio na história política brasileira, é relevante acompanhar o papel que o veículo vem representando no sistema democrático, no fortalecimento do conceito de cidadania, assim como seu uso meramente eleitoreiro. Na análise de Chaia (2001), a política deve se adequar às regras da mídia e, com isso, transforma-se, de certa maneira, em prisioneira dos meios de comunicação. E quando se discute sobre o papel da mídia, deve-se compreender que o uso dos meios de comunicação pelas lideranças políticas sempre esteve presente na história política contemporânea.

Nunes (2000) observa que o rádio foi usado como arma na Primeira Guerra Mundial (de 1914 a 1918). O papel do rádio, desde a sua consolidação a partir dos anos 30 e 40, afirma Hausen (2004), tem sido utilizado das mais diversas formas. Contudo, de acordo com Nunes (2000), o rádio foi usado pela primeira vez para fins políticos nos Estados Unidos. A presidência de Franklin Delano Roosevelt, de 1933 a 1945, foi um “principado radiodifundido” (NUNES, 2000, p. 40). E foi graças ao rádio que o líder norte-americano projetou seu carisma e afirmou sua ascendência diante da nação.

No entanto, segundo Nunes (2000), o rádio já vinha sendo utilizado para transmitir mensagens políticas desde 1920, com o presidente Hardin, com quatrocentos mil aparelhos de rádio em uso. Entretanto, quando Roosevelt se tornou presidente dos Estados Unidos, em 1932, o número de lares providos de aparelhos de rádio já havia dobrado. “Roosevelt reconhece nele, sem demora, um poderoso instrumento para conquistar a opinião pública para sua causa, pela possibilidade de estabelecer com ela uma comunicação direta [...]” (NUNES, 2000, p. 40).

Na década de 30, Nunes (2000) afirma que o rádio passa a constituir também na França como um meio de comunicação política. Passini (2004) ressalta que a iniciativa de usar o rádio com fins políticos também ocorreu com Hitler e Mussolini que usavam o meio para controlar a opinião pública.

Segundo Rodrigues (2008), foi na Alemanha da primeira metade do século XX que o rádio converteu-se no principal divulgador de ideias políticas e valores ideológicos, o que para muitos autores teria destacado o caráter perigoso

da comunicação radiofônica, pois os discursos do Fürer transmitidos pelo rádio tornaram possível dar forma à causa nazista. Durante o III Reich utilizaram o veículo de comunicação tão intensamente, “a ponto de se afirmar que Hitler seria inconcebível sem o rádio” (ORTRIWANO, 1985, p. 59-60).

Ortriwano (1985, p. 60) destaca que o meio de comunicação tinha tanto poder de penetração entre as massas que acabou se unindo à política com objetivos de doutrinação ideológica. “E o rádio conseguiu servir aos interesses políticos com ‘maquiavélica’ eficiência”. Na visão da autora qualquer que seja o regime político em vigor, a informação jamais se constitui em atividade totalmente livre. A interferência política nos meios de comunicação é sempre muito complexa.

De acordo com Rodrigues (2008), o rádio na América Latina chegou juntamente com o populismo na década de 20. Haussen (2001) destaca que foi o próprio Perón quem considerou o rádio como importante meio de governar ao afirmar que:

Os políticos nunca haviam utilizado o rádio para a sua ação. Utilizavam mais os comícios onde as pessoas os viam... A ação da presença e a influência direta do condutor é importante, mas a maior parte das massas já me havia visto e eu, então, lhes falei pelo rádio, que era como se me seguissem vendo. De maneira que eu falava a todos. Quando atuamos num único ato único, nos basta falar a todo o país pelo rádio e não fica nenhum argentino sem conhecer o que terminamos de dizer. Isto era impossível antes, hoje o fazemos em um minuto (HAUSSEN, 2001, p. 70). No Brasil, com a popularização do rádio nos anos 30, veio junto à veiculação de campanhas políticas. Diante das novas possibilidades, o político que utilizou o veículo para consolidar a imagem de estadista junto à população nacional foi Getúlio Vargas, ampliou o número de rádios no país para quase cinquenta.

Haussen (2004) salienta que o presidente da República, em 1º de maio de 1937, destacava o valor do veículo de comunicação em uma mensagem enviada ao Congresso Nacional anunciando o aumento do número de emissoras no país. Na mensagem, ele aconselhava os estados e municípios a instalarem “aparelhos

rádio-receptadores”, providos de alto-falantes, para facilitar o acesso aos brasileiros.

O perfil do rádio mudou durante a ditadura militar, como analisa Nunes (2000), com a ampliação das rádios FM. E por causa da censura daquele período, as emissoras passaram a veicular programação musical. A informação acabou dando lugar ao entretenimento. Nunes (2000) informa que as concessões na época privilegiaram a legitimação do Governo, beneficiando grupos que tinham boas relações com o regime.

Ao longo da ditadura, as concessões foram um importante instrumento para consolidação dos governos militares. Por um lado, podiam cassar o direito daquelas empresas de radiodifusão que não se adequassem às normas emanadas da caserna (FERRARETO, 2001, p. 179).

Segundo Ferrareto (2001) da ditadura até a Nova República, não houve alteração significativa nesta prática. E exemplifica: Antonio Carlos Magalhães, ocupando o Ministério das Comunicações, foi acusado de usar politicamente a outorga de concessões no período presidencial de José Sarney para conseguir apoio para chegar ao governo baiano. Nesse período, ACM distribuiu 56 emissoras de rádio e sete de televisão. Sendo assim, o político garantiu uma base de sustentação que já contava com a TV Bahia, afiliada da Rede Globo e canal de maior audiência no Estado.

No governo seguinte, aponta Ferrareto (2001), Pedro Collor, irmão do presidente Fernando Collor de Melo, chegou a denunciar um esquema envolvendo de 12 a 14 emissoras de rádio que beneficiariam o empresário Paulo César Farias, o PC, pivô de uma série de irregularidades. A jornalista Elvira Lobato, em uma reportagem na Folha de São Paulo, destacou um exemplo da íntima relação entre política e radiodifusão que foi o resultado de uma pesquisa realizada pelo jornal em 1995. Um em cada seis integrantes do Congresso Nacional possuíam pelo menos uma concessão de rádio ou TV. De acordo com o levantamento, na época, 83 deputados federais, 13 senadores, cinco governadores e dois ministros estavam vinculados diretamente ou por parentes às emissoras de rádio ou de televisão.

Reportagem semelhante publicada no jornal O Estado de São Paulo apresentou dados de setembro de 1996. Conforme o levantamento realizado pelo repórter Gustavo Paul, 104 deputados federais e 25 senadores eram sócios ou proprietários de emissoras de rádio e TV. Além disso, 40% das emissoras de rádio e 27% de televisão tinham políticos como participantes destas empresas.

A nova legislação para o setor, publicada no Diário Oficial, em 26 de dezembro de 1996, avança um pouco neste aspecto, obrigando quem for exercer função pública a se licenciar de cargos na diretoria das emissoras. A grande inovação, no entanto, é o fim do critério político na distribuição dos canais de radiodifusão. Até 1996, cabia ao ministro das Comunicações e ao presidente da República a decisão sobre quem receberia a concessão, o que sempre redundou em troca de favores entre governantes e seus partidários. Desde o final de 96, o processo de escolha do beneficiado pela concessão passa por licitação pública (FERRARETO, 2001, p. 182).

Quanto às rádios AM, de acordo com Rodrigues (2008), só voltaram ao cenário político nacional com a redemocratização do país a partir dos anos 80, com a proposta de prestar serviços à comunidade. As concessões continuavam ainda nas mãos das elites, tanto política quanto econômicas, que utilizavam as concessões para o desenvolvimento dos seus projetos de poder. Portanto, afirma Rodrigues (2008), a voz que deveria ser dada à população, permanece nas mãos dos donos das emissoras, ou então dos profissionais que, a partir da visibilidade que conseguiam com o rádio, levar adiante seus próprios projetos políticos.

No sistema comercial de exploração da radiodifusão os canais são concessões do Estado a empresas privadas. “Uma das formas de pressão e de controle é a própria organização do sistema de telecomunicações” (CAPARELLI, 1982, p. 6). Portanto, destaca Ortriwano (1985), é impossível a qualquer emissora de radiodifusão desvincular-se da tutela estatal, já que sua existência depende, além de consentimento prévio, de um “título precário”. Caparelli (1986) ressalta ainda que o arsenal de controle do Estado vai da concessão de licença para exploração a título precário à censura econômica:

Os governos em muitos países se transformaram em clientes número um das emissoras comerciais, porque é através delas que veiculam a propaganda política, buscando obter um consenso e

legitimidade, não só através da força, mas também da manipulação da opinião (CAPARELLI, 1986, p. 78).

Nesse contexto, Ortriwano (1985) explica que o Estado pode estabelecer diferentes níveis de censura aos veículos, procurando sua hegemonia comportamental com relação à política adotada.

Para Passini (2004), as emissoras de audiência popular têm em comum o tipo de linguagem empregada e o tipo de programação - em geral assistencialista e com forte participação do ouvinte. Estas emissoras são, também, terreno fértil para comunicadores que extrapolam os limites do comunicar e informar, passando, através das ondas radiofônicas, a resolver os problemas da população. Com isso é comum, segundo Passini (2004), o radialista adquirir este status, tamanha é sua identificação com o grande público, que o enxerga como uma ponte entre os necessitados e o poder público.

Costa (1992) ressalta que o papel que antes era exercido pelo Estado, agora cabe ao conselheiro, amigo, defensor da justiça e dos pobres. O autor atribui isso ao descrédito nas instituições governamentais, que ganhou força na década de 80. No rádio, as palavras constroem diferentes apelos e dão mais densidade para o discurso. Os apelos e a densidade do discurso justificam o fato do rádio ser o meio de comunicação que melhor reflete a relação entre mídia e política. A mensagem radiofônica é resultado de um conjunto de técnicas e operações complexas que implicam o conhecimento da força das palavras e a utilização de recursos técnicos.

Chaia (2001) salienta que um possível fator de perda da credibilidade do rádio é a relação que este meio estabeleceu com a política nas últimas décadas. Essa relação vem da participação de comunicadores em eleições e de políticos que adquiriram emissoras, privilegiando seus interesses.

Nunes (2000) afirma que os radialistas preenchem os espaços que o Estado e suas instituições não conseguem ocupar, principalmente em relação às necessidades os ouvintes que são atendidas, em certa medida, por esses radialistas que exercem grande força carismática sobre seu público, acumulando o que o autor chama de “capital pessoal”.

Rodrigues (2008) exemplifica o tema analisando o fato do radialista que passa a tomar para si a tarefa de denunciar o “buraco na rua” e esse “buraco” se torna pretexto para que o radialista possa entrar em ação como defensor do público que o investiu daquele poder. Portanto, esse comunicador encarna um perfil heróico e passar a ser o político ideal para numerosos ouvintes, já que sabe lidar com a emoção e, na maioria das vezes, alguém que desenvolve o discurso da proximidade com os dramas da vida cotidiana, entrando todos os dias na casa, no carro ou no trabalho do seu ouvinte – se transformando em um membro da família.

O comunicador é um companheiro fiel que está presente no café da manhã, no almoço ou no jantar da família. Segundo Rodrigues (2008, p. 5):

O radialista faz com que o indivíduo comum se sinta cidadão de fato, já que medeia as relações deste com o poder público. Desta maneira, o comunicador de rádio cria elos com a população. Se em seu trabalho no rádio ele já se apresenta como porta-voz de fato dos indivíduos, porque não fazê-lo de direito?

Enquanto Rodrigues (2008) chama o comunicador de “defensor do público”, Nunes (2000) classifica como “delegado do ouvinte”. No caso da relação entre política e comunicação radiofônica, trabalha-se com a hipótese de que o grande desafio frequentemente ocorreria quando esse “delegado do ouvinte” assumisse efetivamente um cargo político. Sendo assim, esse comunicador, agora político, passaria a ter a imagem positiva de radialista, mas associada com a imagem negativa do Estado do qual ele se tornou representante.

Mais do que nunca a proximidade com o público que o elegeu seria essencial para que ele sentisse que o radialista, uma vez político, continuasse sendo aquele ‘delegado’ que o povo respeita, admira e confia... Poder-se-ia supor que aquele radialista político que se transformasse em político e não atendesse às expectativas populares perderia o mandato e a condição de ‘delegado do ouvinte (NUNES, 2000, p. 44).

Nunes (2000) estuda o “fenômeno da delegação do poder" aos radialistas que sensibilizam ouvintes com programas populares que atendem às suas solicitações. A autora, em seu trabalho "Rádio e Política: do microfone ao palanque - os radialistas políticos em Fortaleza (1982-1996)" procura demonstrar

a utilização política do rádio na "participação de radialistas na política, mais precisamente à emergência de líderes políticos através do rádio AM com a participação popular”.

Outro exemplo desta vinculação entre mídia e políticos, pode ser encontrado na pesquisa de Silva (2000), que analisou quatro comunicadores sociais de rádio que se elegeram para a Assembléia Legislativa de São Paulo (1986-1990). Os deputados estaduais foram eleitos por sua participação em programas de rádio: Afanázio Jazadji, Erci Ayala, Fernando Silveira e Oswaldo Bettio. Segundo o autor:

[...] essas figuras públicas tornam-se a todo instante o alvo certo para alguns partidos políticos e entidades que encontram neles uma vantagem sobre os demais candidatos: são nomes conhecidos porque o rádio favorece a formação do capital eleitoral e, portanto, tem maior facilidade de serem trabalhados. “Por 'ancorarem' programas com determinada audiência, eles se credenciam a participar das eleições sem muitas vezes terem vínculos político-ideológico (SILVA, 2000, p. 11-12).

No decorrer da história política brasileira temos vários exemplos de como o rádio foi utilizado como palanque eleitoral, ou durante os mandatos dos governantes, desde Getúlio Vargas. Vários autores citam desde o caso de Adhemar de Barros que quando era interventor do Estado de São Paulo, durante o Estado Novo (1937-45), criou um programa (1938), com alcance estadual, e que tinha o nome sugestivo de "Palestras ao Pé do Fogo". O presidente José Sarney (1985-89) readaptou este título e implantou um programa denominado "Conversas ao Pé do Rádio". Também os governadores Orestes Quércia e Antonio Fleury Filho lançaram programas de rádio para o Estado de São Paulo.

Neste cenário, Perosa (1995) destaca “A Hora do Brasil”, criada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), em 22 de julho de 1935, e tinha como objetivo divulgar os programas governamentais e as palavras de Getúlio Vargas. A transmissão do programa passou a ser obrigatória em 1937 e era veiculado das 18h45 às 19h30. Em 06 de setembro de 1946 o presidente Eurico Gaspar Dutra preocupado com a não aceitação do programa, altera o nome para “Voz do Brasil”.

A resistência à obrigatoriedade da transmissão da “Voz do Brasil” sempre foi grande, principalmente pelos proprietários das emissoras de rádio, que exigiam a sua extinção. Mesmo durante o regime militar a ABERT (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão) pressionava o governo para que não fossem obrigados a transmitir este programa.

Chaia (2001) comenta que no caso brasileiro, a primeira característica dos meios de comunicação refere-se ao fato de que estes continuamente serviram como moeda de troca, isto é, utilizados politicamente, uma vez que a concessão de estações de rádio e televisão é prerrogativa do Estado.

Particularmente nos meios de comunicação, observa-se a tendência autoritária de monopolizar por parte do Estado, representado pelo Poder Executivo Federal, através de dispositivos contidos nas legislações - como no caso das concessões de rádio e televisão que nascem com prerrogativas circunscritas a esse poder (SEGURADO, 1996, p. 12).

Além disso, afirma Chaia (2001), a mídia brasileira sempre esteve nas mãos de famílias: os Mesquita (Grupo Estado), os Frias (Grupo Folha), os Saad (Rede Bandeirantes) e os Marinho (Rede Globo). Há também a presença das Igrejas evangélicas que disputam e controlam os meios de comunicação, como Edir Macedo - bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da rede Record e de concessões de centenas de rádios e afiliadas de televisão espalhadas pelo Brasil.

Entre os prós e contras dessa relação entre o radialista e o político, Nunes (2000, p. 48) conclui que:

Quando o ouvinte se transforma em eleitor, e o radialista se transforma de ‘delegado do ouvinte’ em ‘delegado do poder’, há um distanciamento na relação entre ouvinte e radialista, agora transformados em eleitor e político. A perda da intimidade, da possibilidade de interlocução traz prejuízos graves à continuidade da relação de troca e de cumplicidade que o rádio possibilitava entre ouvinte e radialista.

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