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O livro didático de Aquino, Franco e Lopes (1980) iniciam com a pergunta “Quem

conforme a conhecemos na atualidade. Mantendo um diálogo constante com o leitor, instigam-nos a refletir sobre os fatores que contribuíram para que o Homem se fizesse Homem: seria apenas uma questão biológica? Ou certo grau ou potencial de sensibilidade? Ou ainda a capacidade de criar cultura? Para os autores, “[...] a distinção entre o Homem e os animais só começou a existir quando os homens iniciaram a

produção dos seus meios de vida, passo à frente que só foi possível, é claro, em

conseqüência da sua organização corporal.” (AQUINO, FRANCO e LOPES, 1980, p. 52).

Os autores não fazem a citação de um texto de Engels (1976), o qual parece ter influenciado a sua postura teórica, quanto ao papel do trabalho na criação do Homem. O atual estágio das pesquisas no campo da Paleontologia já recoloca a questão de outra forma, não lhe tirando o caráter de reflexão inovadora à época e que, pela análise marxista assumida pelos autores do livro didático, parece estar presente, ressignificado por influência também de outras leituras.

Ao discorrer sobre as diferenças entre homens e animais, os autores identificam semelhanças no fato de que em ambos há transformações e diferenças pela origem destas: no animal, elas se dão na espécie a que pertence e, no Homem, por deliberação, ato racional, querer, bem como pela compreensão de sua própria historicidade. E esta, por sua vez, lhe possibilita dar “[...] respostas aos obstáculos à existência [que] podem ser completamente diferentes de um grupo para o outro.” (AQUINO, FRANCO e LOPES, 1980, p. 54).

A criatividade e a iniciativa são as marcas da humanidade e, por isso, os autores qualificam o Homem como produto e produtor de cultura. Trabalham com o imaginário do aluno/leitor ao descrever o prazer de produzir seus próprios instrumentos. “[Você] já sentiu a emoção de ver um trabalho seu pronto e sendo usado todos os dias? Imagine o

que sentiam nossos ancestrais ao descobrirem todas essas coisas. Ao sentirem que eles estavam construindo o mundo!” (AQUINO, FRANCO e LOPES, 1980, p. 58).

Essa tônica perpassa todo o capítulo. Ao reconhecer a fragilidade física dos seres humanos em relação aos outros animais, identifica na sua atitude criativa e inventiva a partir de sua capacidade de abstração, a força em superar os obstáculos que a Natureza lhes colocava. Trabalhando com as obras de Ostrower (1978)45, Childe

(1971) e Varagnac (1963) constroem sua argumentação, de que “[...] o homem, assim,

faz sua própria cultura. Num certo sentido, pode-se dizer que da fragilidade do homem nasceu a sua própria força.” (AQUINO, FRANCO e LOPES, 1980, 63).

Figura 12 – O Homem se faz Homem

Fonte: História das Sociedades (AQUINO, FRANCO e LOPES, 1980, v. 1, p. 51).

45 A obra de Ostrower consultada é Criatividade e Processos de Criação, publicada pela ed. Vozes em

Observe-se na reprodução acima, que a figura humana está sempre em ação e acompanhada de instrumentos, ou seja, interagindo e modificando a Natureza em seu benefício.

Essa imagem remete à fala de Diniz (2001), para quem as imagens são simbolizações construídas histórica e socialmente, idealizando um campo de significação. Ele afirma que “[...] nas formas visuais que se pretendem objetivas, racionais, metódicas, o imaginário manifesta-se em surdina, explicitando por uma segunda ou várias interpretações além da que se apresenta e é reconhecida como tal.” (DINIZ, 2001, p. 116).

Com esse olhar, a imagem, mais do que mostrar a ação do Homem sobre a Natureza, reforça a idéia de que ele se fez Homem por meio dessa ação.

O critério adotado neste trabalho a fim de identificar o processo físico de hominização, para Aquino, Franco e Lopes (1980), não ocupa mais de três parágrafos, dando conta dos resultados das pesquisas, da necessidade de mais aprofundamento e dos consensos entre pesquisadores. A importância da descoberta de métodos de datação também é citada como auxiliar importante para os estudos do período. Apesar disso, opera com uma datação extremamente defasada para o Homo sapiens: 25 mil anos, ‘segundo o registro geológico’, deixando entrever que, efetivamente, essas não são questões centrais de suas reflexões.

Os tipos Ramapithecus, Australopithecus, Pithecantrous e Paleontropus são citados em descobertas feitas na África do Sul, Java, Pequim, Alemanha, Quênia e Etiópia. Por essa abordagem fica ainda mais marcada a posição dos autores. Para eles, mais do que características físicas em transformação, o que importa são as características culturais, ou seja: a hominização vai se processando na medida em que

o Homem desenvolve a capacidade de abstrair situações e se comunicar, de fabricar instrumentos, de vagarosamente, dominar a Natureza. Em uma palavra: criar.

Mais do que nos capítulos anteriores, fica bastante evidenciado ao discutir as origens da humanidade, o que Borloz (1990), apontou como sendo o desafio central do professor ao trabalhar os conteúdos de Pré-História: ensinar a lidar com a transitoriedade, isto é, com a historicidade dos conhecimentos, não só porque a História se constrói a cada dia mas, especialmente, porque muitas pesquisas estão em andamento. As técnicas de laboratório e o diálogo entre as diferentes áreas do conhecimento aumentam a cada dia, propiciando novos olhares, novas leituras desse processo de hominização.

Referente às origens da humanidade, os autores apresentam os resultados das pesquisas arqueológicas ordenadas segundo uma concepção - a darwinista, da evolução linear – fazendo o registro de que muito ainda há que caminhar nesse campo. A hipótese de que os humanos modernos surgiram na África e, a partir de lá ocuparam todos os outros ´cantos´ do Planeta, está hoje sendo reavaliada. A idéia da linearidade evolutiva há muito foi descartada. Mas, salvo engano, permanece presente no imaginário do aluno, se considerado o texto didático disponível para estudo. Essa postura crítica, apenas registrada, não significa o avanço em direção a uma alternativa, uma vez que, no desenrolar do texto, mantém a descrição dos estágios evolutivos, como se se tratasse de um processo único, contínuo e progressivo. Como a cultura material é elemento fundamental para a (re)construção desse passado, os aspectos relativos às características físicas de cada hominídeo vão sendo descritos com o máximo de detalhes possíveis, enaltecendo o aparecimento das características cada vez mais próximas às modernas, pertencentes ao “Homo sapiens sapiens”.

Todos os autores fazem o registro de que os dados disponíveis sobre a questão ainda são precários, necessitando de mais pesquisas para oferecer conhecimentos mais seguros. Por outro lado, essa falta de dados não impede o ato de rechaçar as explicações criacionistas. Nesse sentido, é preciso registrar que todo o século XX é riquíssimo em pesquisas e novos dados sobre o tema.

Um bom trabalho, com caráter de panorama das investigações científicas em torno da hominização, é a publicação de um número especial da revista Scientific American Brasil com o tema Novo Olhar sobre a Evolução Humana. O novo olhar anunciado no título está sendo possível graças ao aprofundamento das pesquisas que contam, não só com a continuidade das pesquisas arqueológicas em diversas regiões do Planeta, mas também, e principalmente, com uma parceria importante: os estudos genéticos. Com eles, a árvore genealógica foi redesenhada, ficando muito mais ‘frondosa’ e apontando para a coexistência de várias espécies, tanto na África como na Europa, situação que o Evolucionismo unilinear não suportou, caindo também em descrédito.

A ‘aparente’ oposição ciência X religião é apontada – como não poderia deixar de ser – pela obra de Saroni e Darós (1979). Tendo sido publicada pela F.T.D., uma editora católica, coloca a discussão dessa dicotomia no espaço da sala de aula, exigindo reflexões cuidadosas por parte dos professores, a fim de que, perante as novidades apresentadas pelas ciências, o aluno não opte pela segurança da tradição religiosa construída a partir das relações familiares.

A tradicional representação da evolução, com o ‘macaco se levantando’ até chegar ao Homem atual, fruto dessa visão evolucionista unilinear, aparece em apenas uma das obras pesquisadas, mas todas elas procuram construir uma árvore genealógica para a humanidade, conforme está apontado com a reprodução das

imagens. Para fortalecer a idéia de o texto estar acompanhando as mais recentes pesquisas, há a publicação de vários trechos de textos científicos, atestando a veracidade das informações. No entanto, nenhuma dessas transcrições aponta para novas hipóteses que contemplam a coexistência de múltiplas espécies, por exemplo, o que colocaria por terra a análise unilinear.

Por fim, está claro que o livro didático, ao adequar os conhecimentos científicos à realidade educacional, o que se convencionou chamar de transposição didática, o faz com certo atraso. Tanto as pesquisas arqueológicas quanto os avanços nas Ciências em geral têm contribuído com alterações significativas acerca desse tema, mas essas não aparecem claramente, merecendo apenas referências evasivas e veladas.

De todos os desafios colocados quando ficou definido o teor desta pesquisa, certamente essa é a questão mais delicada, que mais envolve explicitar uma postura ideológica, pois que, qualquer que seja a posição adotada pelo professor em sala de aula, haverá sempre polêmica. A descrição das características físicas de cada um dos hominídeos pode não causar mais nenhum incômodo. No entanto, quais delas, exatamente, constituem ou definem um hominídeo? Qual a responsabilidade que nós, homens modernos, temos para com o futuro de nossa espécie e com a do Planeta?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O futuro é algo que jamais existiu antes. E quando o número de possibilidades concretas aumenta,

os futuros possíveis são mais numerosos e ficam mais perto de nós, porque o presente conflitivo

é um terreno fértil.

Milton Santos46

Debruçar-se sobre o livro didático, sua historicidade, suas intenções e representações é, e continuará sendo uma tarefa importante, especialmente para educadores. Identificar os conceitos e preconceitos construídos a partir das apropriações feitas às ciências pelos autores dos livros didáticos, num intrincado mar de interesses que passam pela economia (pois que livro é mercadoria), política (é carregado de ideologia e deve atender à legislação educacional) e pedagogia (na linguagem, nos conteúdos, ilustrações e exercícios que propõe), torna-se um desafio poucas vezes encarado pela comunidade que produz e consome o livro didático.

46 SEABRA, Odete, CARVALHO, Mônica e LEITE, José Corrêa. Território e Sociedade: entrevista com

No presente trabalho, ao propor a análise do livro didático de História, em seu conteúdo de Pré-História, o recorte feito possibilitou um olhar mais atento sobre três variáveis: o tempo histórico, o espaço geográfico e as origens da humanidade, em obras produzidas e adotadas/consumidas nas décadas de 1970 e 1980, permitindo as seguintes considerações:

O tempo de produção e utilização das obras analisadas é um tempo de sombras, silêncios e resistências. Nesse período, para controlar e normatizar a elaboração de livros didáticos, foram criadas algumas instâncias nas estruturas de poder, a fim de garantir tanto os detalhes técnicos da fabricação dos livros como a linha teórico-metodológica das obras destinadas a fins educacionais. O objetivo confesso era proporcionar acessibilidade a toda população estudantil, incluir os recém migrantes das regiões rurais e padronizar currículos, conteúdos e metodologias de acordo com a legislação vigente. Em poucas palavras: homogeneizar o conhecimento escolar.

Essa homogeneização, no entanto, só pode ser controlada em parte, porque o texto, uma vez publicado e alcançado pelo leitor, será sempre reinterpretado, alterando a mensagem original do escritor. Mesmo no mundo escolar, em que o professor é encarregado de mediar a relação aluno - conhecimento, esse movimento de ressignificação acontece. E poderá ser mais rico, quanto mais aberto estiver o professor a lidar com os saberes do aluno, a ciência e o mundo escolar.

No que diz respeito aos conteúdos específicos da Pré-História, não se percebeu interferência da conjuntura política sobre a sua produção e veiculação no texto didático. Arruda (1976), logo na introdução do seu livro, abre bem o leque teórico, colocando sob o prisma temporal as diferentes escolas historiográficas. Saroni e Darós (1979) privilegiam o legado cultural de cada uma das sociedades enquanto Aquino, Franco e Lopes (1980), utilizam o arcabouço teórico marxista com desenvoltura. Foi possível

observar como cada um dos livros analisados, usando como referência primeira a História Metódica, procurou ressignificar datas, períodos e conceitos, omitindo ou acrescentando informações, bem como destacando aspectos que fortalecem a opção teórica dos autores.

Um registro importante a fazer diz respeito ao material imagético utilizado. A reprodução de quadros, mapas e imagens de objetos foi bastante utilizada em Arruda (1976) e Saroni e Darós (1980), mas pouco explorada nos textos. De modo geral, parecem apenas ilustrar, e não instigar também a reflexão do leitor. Uma imagem, seja ela uma pintura em parede de caverna, um mapa ou um gráfico reproduzindo o processo de hominização está impregnada de sentidos. Foi produzida com uma intenção e o leitor pode lhe dar outra, como de resto também o texto escrito, se Chartier (1990), for levado em consideração.

A importância da Pré-História em sala de aula?

Para além do texto didático, há muitos discursos a (re)construir. Se, por um lado é preciso socializar as descobertas científicas, por outro, essa socialização via material didático se faz com alguma demora. Apontar a necessidade de mais pesquisas para dar mais segurança ao discurso científico e não dizer de como o que já existe foi construído é também desconsiderar a ciência. Esse é um tema privilegiado entre todas as áreas do conhecimento, pois dá a conhecer o longo trajeto que a humanidade já trilhou para chegar onde está. E também para respeitar todas as dores e alegrias, avanços e recuos, vergonhas e orgulhos, já vividos. Não é pouco o tempo e nem poucas foram as experiências que devem ser valorizadas. Exercitar a tolerância aos diferentes é um desafio, um futuro possível, como pediu Santos (1997), na epígrafe.

E para concluir provisoriamente, fica uma certeza, dentre tantas situações provisórias: a de que esses foram os primeiros passos num terreno extremamente fértil

de possibilidades para a investigação acadêmica. Do ponto de vista bibliográfico, ficou claro que o campo da Pré-História prescinde de mais trabalhos de sínteses regionais, de calibração de dados, de eventos em que se promova a apresentação e o debate de novos resultados de pesquisas, além de mais espaço nos currículos da graduação, especialmente nas licenciaturas. Do ponto de vista do trabalho docente, as reflexões sobre o discurso do texto didático apontaram a necessidade de uma mediação mais intensa do professor, aproximando do aluno, um conteúdo tão distante e, paradoxalmente, tão próximo do seu cotidiano. Este é ´o´ momento para incorporar essa discussão, seja na academia, na escola ou na(s) cidade(s): discute-se tão acaloradamente, por exemplo, a antigüidade do Homem na América, seus roteiros de entrada no continente e suas origens. Em termos regionais, o complexo estuarino da Baía da Babitonga, no litoral norte de Santa Catarina, apresenta uma das mais ricas regiões do País em ocupação pré-colonial, especialmente as chamadas sociedades sambaquianas.

O envolvimento da(s) universidade(s) em parceria com as instituições de pesquisa e preservação do patrimônio histórico e pré-colonial, certamente significarão um avanço, não só para a ciência, mas, principalmente, para uma prática social mais engajada. Conhecer essas realidades culturalmente tão diferentes certamente contribuirá para o exercício da plena Democracia que pressupõe, entre outras coisas, o acesso à informação. Agora, resta aguardar, com grande expectativa, as novas significações que serão dadas a essas reflexões.

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