Entender a gênese e os caminhos da configuração espacial de uma corporação financeira, a tipologia multifuncional de sua atividade, sua rede de atuação e cooperação que se expressam pela justaposição de múltiplas associações, não constitui tarefa simples. O estabelecimento de suas práticas espaciais e as consequentes territorialidades oriundas são fruto de uma racionalidade que lhe confire o máximo proveito do espaço, por meio de processos que propiciem o alargamento dos caminhos que levam à acumulação e reprodução ampliada de capitais.
Dessa natureza peculiar, surgem diversas práticas e caminhos pontuados pela corporação financeira cuja perspectiva espacial é inerente, tais como a difusão de filiais, à busca por novos mercados, fusões, múltiplas associações com comércio e serviços, dentre outras, práticas que buscam dar suporte à massificação do consumo. Nessa condição, a expansão da corporação financeira acompanhará os movimentos do capital no seu processo de conformação de áreas de dinamismo econômico, ou seja, o conjunto de espaços e lugares selecionados por abrigarem os elementos que propiciem melhor desempenho à acumulação de capitais, um processo que, em última análise, representa uma verdadeira financeirização/creditização do território.
Assim, a corporação financeira em vias de multilocalização das suas atividades ampliará seu espaço de atuação levando em consideração o grau de competência dos lugares na inserção de suas atividades econômicas. Trata-se de uma racionalidade espacial perfeitamente orientada por princípios hierárquicos concernentes à difusão espacial da empresa e aos mecanismos de gestão elencados. Logo, no que tange à sua geograficidade, a corporação financeira, desde aquelas de atuação regional, ou mesmo os grandes bancos nacionais ou globais acompanham, no seu processo de dispersão espacial, os dinamismos econômicos latentes no território nacional, sejam estes industriais, agrícolas ou relacionados à atividade comercial e de prestação de serviços. A efervescência econômica gerada por tais atividades constituem a base para a instituição das múltiplas associações necessárias à reprodução dos capitais dos intermediadores financeiros.
A constituição das espacialidades das corporações Policard e Valecard não foge a essa realidade, cujo ponto de partida e da construção de suas horizontalidades encontra-se fundamentado no mercado local da cidade de Uberlândia. O
desenvolvimento econômico verificado no mencionado centro urbano, sobretudo a partir da década de 1970, caracterizado pela diversificação produtiva nos setores agropecuário, industrial, da ampliação das atividades comerciais e da prestação de serviços constituiu fator indispensável ao estabelecimento das referidas administradoras de cartões eletrônicos de pagamento.
Por conseguinte, a diversificação e a ampliação das atividades econômicas observadas em Uberlândia são resultado das solicitações de sua elite local interessada no alargamento das suas atividades de reprodução de capitais. Para tanto, foi imprescindível a modernização das infraestruturas que caracterizam a mecanização do território, verificada a partir da reestruturação de ferrovias, estradas de rodagem, produção e transmissão de energia elétrica e da constituição de redes de telecomunicações e transmissão de dados. Trata-se da expansão dos sistemas de engenharia importantes para a fluidez do espaço e indispensáveis na ação dos sistemas sociais representados pelos interesses dos distintos agentes envolvidos e suas respectivas necessidades de simultaneidade e velocidade, com destaque para a atuação das corporações multilocalizadas oriundas ou não dos capitais locais.
As transformações econômicas observadas em Uberlândia constituíram fator determinante à consolidação das corporações Policard e Valecard, na medida em que o ampliado mercado uberlandense representou o substrato às primeiras associações com empresas parceiras e ao credenciamento dos primeiros estabelecimentos comerciais aptos a capturar as transações financeiras realizadas a partir dos cartões eletrônicos de pagamento. Nessa condição, as referidas corporações financeiras se beneficiaram do dinamismo econômico verificado em Uberlândia ante a constituição, junto aos atores econômicos sediados neste centro urbano, da base para sua expansão vertical. Essa configuração espacial, marcada como o cerne de uma cooperação mais limitada pela proximidade dos agentes econômicos interagidos pela ordem reticular de Policard e Valecard, representa os espaços de horizontalidades, o palco de vivências próximas, contíguas e de relações profundamente imbricadas no lugar. Percebe-se, nesse contexto de horizontalidades, uma lógica de cooperação que se sustenta e se explica mediante um conjunto de associações localizadas e interdependentes, cuja pujança das atividades econômicas apreciadas em Uberlândia serviu à consolidação inicial das referidas administradoras de cartões.
As articulações possibilitadas às empresas Valecard e Policard no diversificado mercado uberlandense fomentaram a base da configuração de sua expansão vertical pelo
território brasileiro, marcada pela difusão geográfica de filiais que buscam adaptar-se aos diferentes contextos locais e regionais, a fim de um melhor aproveitamento dos mercados edificados nesses espaços longínquos do centro de tomada de decisões das corporações em tela. É possível perceber a crescente expansão das escalas geográficas de operação caracterizada pela busca de espaços privilegiados pela natureza das associações impetradas que denotam a organização de espaços ordenados por verticalidades, cuja demanda e solicitações encontram-se concentradas em local distante.
Logo, a hierarquização dos lugares mais ou menos aptos aos processos de reprodução de capitais erigidos pelas corporações multilocalizadas Policard e Valecard é notória. Atesta-se, portanto, o estabelecimento de uma divisão territorial do trabalho a cargo do ordenamento das mencionadas empresas, embasado na articulação reticular entre empresas conveniadas, comércio credenciado, usuários dos cartões eletrônicos e filiais administrativas, ante a sua segmentação pelo espaço, unidos por meio dos fluxos informacionais e das demandas particularistas de Policard e Valecard, um movimento assinalado por uma ordem hierárquica entre os lugares e os atores vinculados à sua trama reticular.
No processo hierárquico de seleção dos espaços de atuação exercido por uma corporação financeira, torna-se imprescindível que possíveis gargalos e limitações espaciais sejam transpostos, sendo necessária a difusão espacial de suas atividades, a implantação dos fixos referentes às redes de transporte e telecomunicações, numa condição em que o próprio estabelecimento das redes financeiras implica controle e acesso privilegiados sobre as infraestruturas reticulares espaciais. Ante essa realidade, é iminente a necessidade de o capital acelerar a circulação, em que a relativização da distância sugere um conjunto de práticas de apropriação e gestão do território, cujo foco envolve a eliminação das barreiras que emperram a fluidez e a mobilidade do capital. Portanto, faz-se necessária a instalação de um conjunto de normas favoráveis e institucionalizadas legalmente à expansão dos intermediadores financeiros que regule de maneira organizada e unificada a sua atuação.
Nesse contexto, no processo de financeirização do território nacional, percebe-se o implemento de sistemas técnicos e normativos que buscaram a unificação dos fazeres financeiros no país. As normas que possibilitaram a concretização de um processo de dispersão-concentradora dos agentes financeiros tinham por finalidade a unificação dos fazeres creditícios a partir do estabelecimento de solidariedades organizacionais sobre
as práticas financeiras, um sistema de normas e de técnicas uníssonas que operasse de forma vertical sobre todo o território. Em última análise, o mencionado processo de concentração-dispersão, que retrata a própria construção da creditização do território nacional, representa os esforços voltados para a integração nacional por meio das técnicas financeiras, fruto das solicitações oriundas dos grandes capitais nacionais e multinacionais que atuam no segmento financeiro nacional.
Em realidade, as corporações financeiras Valecard e Policard foram capazes de usufruir dessa padronização normativa e técnica na consolidação dos seus serviços e na ampliação das suas escalas geográficas de atuação, valendo-se da instalação de uma série de aparatos técnicos convertidos em funções financeiras. Tal processo caracteriza a evolução técnico-informacional erigira pelas demandas do grande capital que atua no setor financeiro nas escalas nacional e multinacional. No contexto da ocorrência de grandes conglomerados financeiros de origem nacional e multinacional, é possível verificar marcante tendência de monopolização e da concentração espacial das sedes das grandes corporações financeiras que atuam no Sistema Financeiro Nacional. Tal concentração das atividades financeiras é demasiado intensa no segmento dos meios eletrônicos de pagamento, seja no que tange às bandeiras multinacionais, que dominam amplamente o mercado, na atividade de emissão dos cartões eletrônicos, a cargo dos grandes bancos nacionais e à atividade de credenciamento dos estabelecimentos comerciais, fortemente concentrada em dois atores vinculados aos grandes bancos nacionais.
Ante o quadro de concentração oligopolista dos atores que atuam no setor financeiro nacional, sobretudo no que diz respeito aos cartões eletrônicos de pagamento e do agrupamento espacial do comando na região metropolitana de São Paulo, que corresponde ao grande centro da gestão territorial das finanças nacionais, confirma-se a consolidação da atuação dos intermediadores financeiros Policard e Valecard. Os serviços diferenciados, as associações erigidas e as possibilidades elencadas pelas mencionadas administradoras de cartões eletrônicos de pagamento são os fatores responsáveis pela sua ascensão e sua difusão espacial, embora atuem em um setor caracterizado pela forte concentração das atividades sob a ação de atores hegemônicos nacionais e globais. Com uma estrutura de serviços que busca associar as necessidades de empregadores e a fidelização de clientela ao comércio credenciado, realizada por meio de um mecanismo voltado exclusivamente ao consumo, as corporações Valecard e Policard, oriundas dos capitais sediados em Uberlândia, foram capazes não só de se
firmarem no concentrado mercado dos meios eletrônicos de pagamento, mas ampliarem as escalas geográficas de atuação.
Uberlândia, como centro competente a absorver os impulsos não só de capitais nacionais, mas também de corporações multinacionais, manteve-se fortemente articulada com a economia paulista e apta ao desenvolvimento de novas formas de organização das atividades produtivas, tornando-se um ponto de confluência de verticalidades mediante o recebimento de demandas distantes, criadoras de uma interdependência hierárquica entre os lugares. Não obstante os atores econômicos locais por meio do seu fortalecimento horizontal e do entrelaçamento de solidariedades orgânicas caracterizadas pela proximidade de uma produção limitada, constituíram as forças geradoras de corporações que, oriundas desta solidariedade imediata, foram capazes de construir espaços de verticalidades a partir da expansão de suas escalas geográficas de atuação. Estas, a exemplo de Policard e Valecard, foram capazes de articular solidariedades do tipo organizacional em lugares distantes, como uma demanda privada vinda de um centro longínquo.
Nessa óptica, é possível perceber a ocorrência de corporações multilocalizadas aptas a engendrar uma estrutura espacial calcada na intersecção de horizontalidades e verticalidades, possibilitada pela ampliação das interações espaciais, cuja base do processo de expansão espacial parte de centros intermediários da rede urbana nacional. Estas se tornaram competentes para consubstanciarem verticalidades cuja atuação atinge os limites fronteiriços do território brasileiro. Ademais, confirma-se a condição de que as grandes cidades médias são capazes de configurar centros da gestão do território, verificados por meio da criação e do controle da organização de vasto território, função determinada a partir do incremento das verticalidades de corporações multilocalizadas.
A pujança das atividades econômicas e a polarização verificadas em Uberlândia, por meio das corporações multilocalizadas, com destaque àquelas oriundas dos capitais locais, reflete bem esta realidade. Na condição de uma grande cidade média como um ponto de justaposição entre horizontalidades e verticalidades, cuja área de influência é notadamente, verificada a partir do suprimento dos serviços exigidos por ela própria e pelo seu entorno, cumpre aqui questionar a medida que a hinterlândia de um centro urbano possa ser redesenhada com base na configuração das verticalidades de corporações multilocalizadas oriundas dos capitais locais e da força dos circuitos horizontais.
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