Bounded Dirichlet series
2.2 Vertical limit functions
O enunciado é um contexto discursivo maior do que os apresentados até o momento neste capítulo. Esperamos que os estudos feitos até o momento nos forneçam informações suficientes para uma análise aprofundada e o mais exata possível dentro dos limites da metalinguagem, ou seja dentro dos limites que a fundamentação teórica escolhida nos permita.
As análises de enunciados se mostram as mais complexas até o momento, pois ainda que se tenha um contexto maior, enunciados isolados não fazem relações anafóricas ou catafóricas. Sendo assim, o sentido do enunciado deve acabar em si próprio. No caso de um texto, um enunciado pode parecer descontextualizado, entretanto quando estudado juntamente com o todo do texto, podemos compreender seu sentido e sua participação na construção do sentido do texto.
Passemos agora ao estudo do primeiro enunciado:
(6) Observando o que ainda não existe.
Nesse caso, podemos construir a seguinte AI:
AI de (6): olhar em direção de algo DC neg existir algo para ser visto
É importante observar o uso do ainda nesse enunciado. Esse item lexical parece expressar uma virtualidade, ou seja, algo que pode vir a ser, mais especificamente, de acordo com nosso exemplo, algo que irá existir, mas não existe no momento do enunciado. Então o produtor do enunciado observa algo que não existe.
Outra palavra importante é observando, que demonstra que existe algo concreto para ser visto, uma vez que não observamos sentimentos, por exemplo. Podemos observar demonstrações de sentimentos, mas não existe materialização
concreta para palavras como amor, ódio e indiferença. Devido a isso criamos o encadeamento levando em consideração esses fatores semânticos das palavras ainda e observando.
Criamos, assim, um bloco semântico que possui uma interdependência que expressa a seguinte interdependência: quando se olha em direção a algo concreto, não se vê esse algo. Também é interessante observar que de acordo com as informações dadas pelo enunciado, a observação não está sendo impedida, ou seja, o locutor não tem impedimentos físicos ou psicológicos para não enxergar o que tenta observar.
Façamos a inversão do conector:
AI CON’ de (6): olhar em direção de algo PT neg existir algo para ser visto
Da mesma forma como feito com as palavras e sintagmas paradoxais, a inversão do conector acaba nos levando para o bloco semântico oposto, pois o encadeamento acima, mais uma vez com a utilização do aspecto converso, leva ao encadeamento olhar em direção de algo DC existir algo para ser visto, que é doxal. Sendo assim, a AI de (6) é um paradoxo. O bloco expresso pela inversão do conector expressa a interdependência semântica que diz que se olha em direção de algo, se vê esse algo. Isso é um fato totalmente plausível, ao contrário de (6), que aponta para o lado oposto.
Nos casos de enunciados, a parte vazia da entidade é menor do que um sintagma e também do que uma palavra. Mesmo definindo o que o enunciado quer dizer, temos dificuldade para dar continuidade e criar um enunciado subsequente, pois o paradoxo parece encerrar-se em si. O sentido de um enunciado parece ser completo em si mesmo, sem a necessidade de um complemento. Outros enunciados podem se agrupar a esse e criar um texto, de acordo com a escolha do locutor, mas um enunciado isolado tem seu sentido completo pelo próprio fato de não se relacionar com nenhum outro enunciado.
(7) Economizar é comprar bem
Sua AI é:
AI de (7): utilizar dinheiro DC neg gastar
No caso de (7) queremos chamar atenção para bem. A orientação de economizar nos leva à ideia de não gastar dinheiro e a orientação de comprar tem a orientação oposta, a de gastar dinheiro. Pois bem, o item lexical bem, está fornecendo uma qualidade a comprar, entretanto não lhe tira a ideia de gastar dinheiro. Tanto comprar bem quanto comprar mal implicam em gasto de dinheiro e por isso construímos a AI de (7) da forma acima.
Temos a clara impressão de um paradoxo, que se confirma com a inversão do conector:
AI CON’ de (7): utilizar dinheiro PT neg gastar
A inversão nos leva a um bloco semântico cuja interdependência aponta que utilizar dinheiro corresponde a gastar dinheiro, o que faz com que o encadeamento seja doxal. Para que se chegue mais claramente a essa interdependência semântica, basta, outra vez, usar o aspecto converso de acordo com o quadrado argumentativo proposto por Carel e Ducrot, que mostrará utilizar dinheiro DC gastar. Na AI de (7) temos uma interdependência que mostra que utilizar dinheiro não é gastar e isso se mostra um paradoxo, por ser o exato oposto do encadeamento doxal que encontramos ao inverter o conector de (7).
Mais uma vez, temos orientações opostas dentro de uma entidade. Nas palavras paradoxais, a oposição se encontrava mais intrinsecamente, ou seja, nos segmentos da argumentação interna, no caso do sintagma, temos a oposição entre o sujeito da frase e o seu predicado. Isso não mostra que todos os enunciados paradoxais se comportem dessa forma, apenas queremos chamar a atenção para o
fato de que orientações opostas estão presentes também nessa entidade em estudo.
Outra vez percebemos que o sentido do enunciado se encerra em si próprio, ou seja, sua parte vazia parece ser mínima, pois não tem a necessidade de um complemento que agregue informações para a completude do sentido, entretanto, mais uma vez, desejamos frisar que esse enunciado, apesar de ter seu sentido completo, pode também fazer parte de um sentido maior, ou seja, um texto mais complexo, ou uma alguma outra forma de expressão que pode também utilizar linguagens diferentes da linguagem verbal, como imagens ou sons.
Nosso próximo objeto de estudo é mais peculiar do que os apresentados até o momento. Vamos a ele:
(8) Gritando meu silêncio na voz calada.
Antes da construção da AI, vamos estudá-lo do ponto de vista das orientações que suas palavras dão ao discurso. A palavra Gritando expressa a utilização de som, não necessariamente um som ordenado, como uma palavra, mas mesmo assim um som. O mesmo acontece com voz, que também direciona para a utilização de sons. Por outro lado, silêncio direciona para a supressão de sons, em relação com Gritando, e calada atribui uma qualidade que orienta para a supressão de sons em relação à voz.
Encadeamentos que expressam a orientação dessas palavras podem ser apresentados da seguinte forma:
grito DC produção de sons
silêncio DC neg produção de sons
calada DC neg produção de sons
Notamos que a orientação das palavras, quando disposta em forma de encadeamento, lembra o formato de um encadeamento que expressa argumentação externa à direita, ou seja, um segmento sendo a continuação de um segmento inicial.
Uma argumentação interna possível para (8) seria:
AI de (8): produção de sons pelo falante DC neg recepção de sons pelo ouvinte
Com a inversão do conector teremos:
AI CON’ de (8): produção de sons pelo falante PT neg recepção de sons pelo ouvinte
O bloco semântico da inversão de conector mostra uma argumentação interna que aponta para o fato de que quando se tem uma produção de som por uma pessoa, também se tem a recepção desse som por outra, o que é o oposto do que acontece na AI de (8), que mostra que, ao acontecer essa produção, não acontece a recepção.
Mais uma vez vemos que o enunciado paradoxal contém orientações opostas. Nesse caso, vemos que a oposição acontece entre as palavras presentes no enunciado: parte do enunciado leva à conclusão de produção de sons e a outra parte leva à conclusão de que não se produziu sons. Essa oposição de orientação parece se confirmar como um traço presente no paradoxo, e também como um traço constituinte.
Passemos agora à última análise deste capítulo. Estudaremos um conjunto de enunciados. Isso nos leva mais adiante nos estudos do paradoxo feito nesse trecho do trabalho e também serve como porta para o capítulo seguinte, em que trataremos
de análises de textos mais longos, uma crônica e a letra de uma música. O objeto é o seguinte:
(9) E é só você que tem / A cura do meu vício / De insistir nessa saudade / Que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi
O trecho acima é parte de uma letra escrita por Renato Russo, na música Índios. Entendemos que para a análise desse objeto é necessário apresentar essa sequência de enunciados, pois é somente com esse pequeno conjunto que o sentido se completa.
Chamamos atenção para a palavra saudade e para o último enunciado do objeto. Como feito em (8), trataremos primeiramente das orientações mais marcadas nesse trecho. A palavra saudade orienta para uma lembrança de algo que foi experimentado de forma agradável, de forma a deixar marcado positivamente na memória do locutor. Podemos dizer que saudade expressa algo que já foi vivido, algo passado.
Por outro lado, o último enunciado, De tudo que eu ainda não vi, orienta para um algo ainda não acontecido. Como visto na análise de (6), a palavra ainda orienta para um acontecimento prestes a se realizar, no entanto não realizado. Dessa forma diremos que esse enunciado orienta para um fato que pode vir a acontecer, um fato futuro.
Nesse caso a oposição de orientações não ocorre entre segmentos de um mesmo encadeamento ou palavras presentes dentro de um sintagma ou enunciado, mas sim entre uma palavra e um enunciado dentro de um objeto um pouco maior. Vejamos como podemos expressar essa orientação em forma de argumentações externas:
saudade DC experiência agradável no passado
Podemos também construir o encadeamento de saudade da seguinte forma:
saudade DC vivido
Dessa forma criaremos a AI do objeto da seguinte forma:
AI de (9): lembrança agradável DC neg vivida
Percebemos de forma clara a oposição de orientações também dentro do encadeamento criado acima. Essa AI nos leva a um bloco semântico em que a interdependência ocorre de forma a mostrar que uma lembrança não é vivida. Tentemos agora a inversão do conector:
AI CON’ de (9): lembrança agradável PT neg vivida
O encadeamento resultante se encontra no bloco oposto ao da AI de (9), pois, ao fazermos a relação discursiva conversa, chegaremos ao encadeamento que expressa lembrança agradável DC vivida. Sendo assim a interdependência semântica mostra que as lembranças foram vividas, ou seja, que algo que foi experimentando se tornou uma lembrança, o que é um fato doxal, ao passo que a interdependência do bloco resultante da AI de (9) é um acontecimento paradoxal.
Esses objetos selecionados, e divididos entre categorias que vão desde palavras até enunciados, passando por sintagmas, corroboram com a ideia de que o paradoxo se apresenta de forma diferente em cada situação, mas tendo presente em si o traço das orientações opostas.
Quanto à noção benvenistiana de signo vazio, se confirmou aqui o que foi proposto na fundamentação teórica. Uma palavra possui uma parte vazia maior do que um conjunto de palavras, sintagma ou enunciado, sendo assim, orienta para
uma maior quantidade de possibilidades de continuação. Entretanto o que foi visto nesse capítulo mostra que o paradoxo acaba não fazendo uma orientação clara, pois existe um conflito de orientações. Vimos que uma das características do paradoxo é a existência, em sua composição intrínseca, de duas orientações, em que cada uma delas leva para uma direção oposta. O interlocutor não saberá qual das duas orientações deve seguir para a compreensão do enunciado. Sendo assim, o paradoxo pode se caracterizar como a presença de duas orientações opostas dentro de uma mesma entidade lexical.
Também é importante para a sequência do nosso estudo deixar claro que analisamos os objetos até o momento utilizando seu sentido estrutural, pois nos faltava um contexto maior. Palavras, sintagmas e enunciados possuem um contexto menor do que um texto, devido a isso puderam ser analisado de forma isolada. Vamos chamar os paradoxos apresentados aqui de paradoxos estruturais, ou seja, seu sentido é completo enquanto objetos isolados, mas não orientam para uma continuação. Queremos estudar no capítulo seguinte a existência de paradoxos que não dependam da estrutura, mas de seu contexto discursivo maior. Para isso selecionamos dois objetos de estudo que serão apresentados a seguir.
3 Análise de paradoxos em textos
Neste capítulo pretendemos levar adiante nossas reflexões sobre o paradoxo, de acordo com os estudos de Ducrot. Queremos estudar o paradoxo de uma nova forma, através da análise de objetos maiores, mais complexos. Para isso, utilizamos dois objetos construídos de forma distinta: uma música, e uma crônica jornalística. Não queremos aqui restringir os estudos a apenas essas duas formas de texto. Escolhemos arbitrariamente esses dois objetos devido à crença de que podem corroborar com as reflexões propostas. Vejamos agora as análises: