“Toda compreensão súbita é finalmente
a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar
é um perder-se a si próprio.” (LISPECTOR, p.16)
O ato de pesquisar, como ato humano, é inconcluso e transitivo. Carece sempre de uma completude, um acrescentar, precisa de indagações e contribuições advindas de olhares distintos e pensares diversos. Ao produzir um texto, o ser humano busca atribuir sentido ao seu entorno, procura significá-lo, registrar a sua leitura desse entorno e passá-la adiante.
Ao longo desta experiência de pesquisa, deparei-me com diversos tipos de textos e procurei interpretá-los. Li textos escritos por pesquisadores e pessoas que participam do movimento social de prostitutas, na fase de construção do referencial teórico. Deparei-me diante de textos visuais, como gestos, sorrisos e simpatia apresentados por pessoas que se dispuseram a conversar comigo durante as situações de entrevista. A própria redação desta dissertação constitui-se em mais um texto, no qual procuro registrar uma interpretação possível da realidade investigada neste trabalho de pesquisa.
Apresento alguns apontamentos que permitiram responder à questão orientadora desta investigação, referente ao levantamento de processos educativos que se dão nas relações estabelecidas entre mulheres que prestam serviços sexuais e sua clientela, sob a ótica dessas mulheres. Primeiramente, teço algumas observações sobre a metodologia de pesquisa adotada, que teve como fio condutor a dialogicidade. A seguir, comento minhas intenções com a realização deste trabalho, qual seja, a de contribuir para o desvelamento da face educativa que também compõe a prática da prostituição e aponto alguns encaminhamentos para a construção do conhecimento sobre processos educativos que se dão em práticas sociais.
6.1 - Observações sobre o caminho trilhado
A etapa da contextualização e experiência em campo serviram-me como fonte de conhecimento, auxiliando-me no processo de levantamento de temas-geradores e na formulação do roteiro de entrevistas. Ao longo do desenvolvimento dessas etapas, busquei apreender unidades significativas referentes à prática da prostituição, por meio do estudo da literatura sobre a temática, estudei documentos sobre a realidade local e materiais que apresentam observações acerca da prostituição exercida em outras localidades. Ao término desse estudo destaquei quatro temas-geradores: 1)na batalha, 2)vulnerabilidades da vida
na noite, 3)negociação e atendimento ao cliente e 4) habilidades pessoais. De acordo com
Freire, a reflexão sobre os temas-geradores pode levar as pessoas a uma percepção cada vez mais nítida das situações-limite que as desafiam em seu cotidiano, bem como pode favorecer o desenvolvimento de respostas elaboradas no sentido de minimizar os problemas percebidos. É nesse sentido, que o autor diz que os temas-geradores se desdobram em outros temas, pois gera novas maneiras de perceber a realidade, que por sua vez, demandará novas tarefas a serem executadas e exigirão novas respostas, novos atos-limite.
Nas conversas realizadas com as mulheres, elas falaram sobre algumas situações que vivenciaram em seu cotidiano e que exigiram respostas, como o desemprego, a falta de recursos financeiros, a exposição a fatores de risco e violência, a discriminação e a não aceitação social, o exercício da sexualidade, a desilusão com os homens, a desigualdade de gênero, etc. Os relatos cedidos por elas não se limitam a apresentar essas situações, neles, também são apontadas diversas possibilidades de respostas e estratégias que são empregadas no sentido de encaminhar, da melhor forma possível, os desafios percebidos. Algumas possibilidades de respostas frente a tais desafios foram percebidas em seus relatos, como a decisão em exercer o trabalho sexual para minimizar as dificuldades resultantes do desemprego, a falta de recursos financeiros; a opção por prestar serviços sexuais em estabelecimentos privados, como casas noturnas, com intuito de diminuir os fatores de violência; ocultar que presta serviços sexuais para não sofrer discriminações e preconceitos; dentre outras.
O diálogo sobre os temas possibilitou que exercitássemos nossa capacidade de
falar, mas também no que estava ouvindo e vendo. As falas foram se complementando, respostas, perguntas, risos, dúvidas, silêncios, entendimentos, juntos se entrelaçando e tecendo uma nova compreensão acerca da realidade que vivenciamos e reinventamos, constantemente, ao pensar e agir sobre ela.
A metodologia adotada contribuiu para o desenvolvimento de uma compreensão sobre como as pessoas aprendem a partir de suas relações, como interagem umas com as outras, como explicitam suas intenções, como lêem o dito e o não dito? A realização das entrevistas me auxiliou a pensar nessas questões, pois assim como na relação estabelecida entre prostituta e cliente, eu também precisei construir um processo de interação com as mulheres entrevistadas e com as demais pessoas que convivem nas casas noturnas. Este processo teve início com a apresentação de nossas intenções em realizar esta pesquisa. Na tentativa de explicitá-las, realizávamos a leitura do que era dito, verbalmente, e do que não era dito, mas revelado por meio de gestos, sorrisos, silêncios e da disponibilidade em conversar. Essa leitura foi se tecendo ao longo dos encontros e, por meio dela, construímos a interpretação dos dados debatido em nossas conversas e que busquei sintetizar nesta dissertação.
A realização de entrevistas coletivas foi uma opção metodológica coerente com esse trabalho, as mulheres sentiram-se à vontade para falar de suas vidas e não se inibiram com a presença de outras participantes. Inicialmente, eu planejara entrevistas individuais, pois imaginava que algumas mulheres não se sentiriam à vontade para expor suas opiniões frente às demais colegas de trabalho. Não foi isso que aconteceu, ao contrário, uma participante complementava a fala da outra, seja para concordar ou discordar do que era dito. Além disso, as entrevistas coletivas também se mostraram como um recurso metodológico que permitiu maior interatividade entre mim e as mulheres participantes da pesquisa, possibilitando a construção de um “pensar junto” na direção da realidade analisada, além da troca de experiências. Essa metodologia se faz pertinente para esse trabalho, na medida em que se pretende desvelar a faceta educativa que permeia essa prática social, e através das entrevistas coletivas, foi possível criar um espaço onde as participantes puderam explicitar e socializar seus saberes de experiência, além de conhecer o ponto de vista, histórias e vivências das outras colegas de trabalho.
6.2 – Possíveis contribuições e encaminhamentos
Almejo que os resultados deste trabalho sejam utilizados como um fio a mais na elaboração dessa trama – o ato de pesquisar - tecido criado e recriado permanentemente, por meio de pensares diversos. Com esta investigação almejo contribuir para a construção de um novo olhar acerca da prática da prostituição, qual seja o de percebê-la como um fenômeno composto por diversas facetas, dentre elas, a face educativa. Emprego o termo “novo olhar” para reafirmar a necessidade de desenvolver um olhar sobre essa prática, fundamentado em saberes de experiência e em conhecimentos construídos, dialogicamente, com pessoas que atuam nela. Rompendo, dessa forma, com a visão fundada em concepções prévias que, muitas vezes, são carregadas de estereótipos e potencializam a violência e a discriminação vivenciada por pessoas que prestam serviços sexuais.
Com base nos relatos cedidos pelas mulheres com quem conversei, é possível constatar que a disseminação de estereótipos e idéias pré-concebidas sobre a vida na noite, bem como acerca das prostitutas, interferem diretamente na qualidade de vida dessas mulheres, pois além de potencializar a violência e a discriminação vivenciada por elas, também faz com que, na maioria das vezes, elas tenham de residir distante de seus filhos e familiares a fim de evitar que eles também sejam alvo do preconceito associado à figura da prostituta.
Para construir um novo olhar sobre a prostituição, fundamentado em saberes de experiência, é preciso dar continuidade a investigações que visam a identificar as maneiras como os diferentes sujeitos, que convivem na noite, percebem essa prática. As investigações sobre prostituição têm-se focado na figura da prostituta, neste estudo, procurei focalizar os processos educativos que se dão nas relações entre prostituta e cliente, tendo como referência a percepção dessas mulheres sobre tais processos. Com esse recorte, busquei apreender e desvelar dimensões educativas que caracterizam a prostituição. Assim como em diversas práticas sociais, no convívio na noite, prostitutas, clientes e mediadores, como gerente, segurança, taxistas e outras pessoas, desenvolvem processos educativos em suas relações traçadas no sentido de superar os desafios que lhes são apresentados cotidianamente. O desenvolvimento de pesquisas voltadas para o estudo de diferentes processos relacionais estabelecidos nas casas noturnas, favoreceria o desvelamento da face
educativa da prática da prostituição, auxiliando-nos a compreender como essas pessoas se educam por meio de suas relações, que sentidos atribuem aos processos educativos originados nessa prática, com que intenção eles se dão?
O presente trabalho revelou dimensões educativas acerca de como as pessoas aprendem, ao tomarem parte de uma prática social; como vão se fazendo, ao realizarem o seu fazer; como desenvolvem suas formas de pensar e atuar frente a realidade percebida. Segundo Freire (1993), “Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática
social de que tomamos parte(p.79).”
As mulheres disseram que nada sabiam sobre a vida na noite e sobre os clientes, antes de exercerem o trabalho sexual. A partir da convivência na noite e da observação foram “pegando o jeito” e aprendendo a trabalhar. É por meio do olhar que se dão os primeiros ensinamentos sobre a vida na noite, é olhando as outras mulheres na realização dos seus fazeres e observando o modo de agir dos clientes que as mulheres vão adquirindo informações e conhecimentos para elaborarem o seu próprio fazer, suas próprias estratégias para abordar e atrair a clientela.
A conversa também pode ser interpretada como outro componente educativo presente nas relações entre as pessoas, que convivem na noite. Segundo relatos das mulheres, é pelas conversas que elas aprendem a conhecer e a relacionar-se com a clientela, e desenvolvem habilidades como saber ouvir, falar e extrair informações. A conversa torna- se uma prática fundamental, no exercício, do trabalho sexual, pois é por meio dela que as pessoas extraem e repassam informações, valores e conhecimentos sobre os clientes, a vida na noite, bem como sobre seu próprio fazer.
Aprender a falar e aconselhar os clientes são outras dimensões educativas presentes nessa prática. As mulheres revelaram que para aconselhar o cliente, é preciso saber ouvi-lo, estar atenta aos seus problemas, seu estilo e gostos pessoais.
Na tentativa de responder ao questionamento que orientou esta pesquisa, posso dizer que a análise dos relatos concedidos pelas mulheres permite observar que ao conviverem na noite, tanto clientes como mulheres que prestam serviços sexuais desenvolvem habilidades e saberes de experiência resultantes de processos educativos vivenciados nessa prática, tais como saber ouvir, ter paciência, desenvolver a simpatia e a expressão gestual, continuar lutando, aprender com a experiência dos outros, dedicar atenção, saber conversar e
aconselhar as pessoas. Esses conhecimentos não são utilizados apenas na vida na noite, mas em outras práticas que compõem a vida dessas pessoas.
Na medida em que se relacionam, prostituta e cliente procuram ler as experiências vivenciadas no seio desta prática, atribuem significados a suas vivências e assim produzem cultura. A cultura é entendida, segundo observações de Freire (1975), como um acrescentamento que o ser humano faz ao mundo em que está e com quem está, é sua aquisição sistemática da experiência humana. Essa aquisição se dá gradativamente, a partir da incorporação de saberes, valores, atitudes e conhecimentos desenvolvidos pelos seres humanos por meio de suas relações estabelecidas no mundo e com o mundo.
Os processos educativos desenvolvidos nas relações entre mulheres que prestam serviços sexuais e sua clientela geram saberes de experiência que não são usados apenas na noite, mas perpassam outras esferas da vida dessas mulheres, bem como de seus clientes. O sexo, nem sempre, é o alvo das relações estabelecidas entre as mulheres da noite e sua clientela. Por vezes, para além da esfera sexual, cria-se o vínculo afetivo entre essas pessoas, que desejam evitar a fugacidade das relações e procuram além de mostrar-se, conhecer um ao outro. Buscam compreender os sentidos envoltos nas experiências que vivenciam cotidianamente e, assim, aprendem a ler as intenções do outro, as diferentes linguagens empregadas para se expressar, como sorriso, gestos, dança etc. Aprendem a verbalizar seus desejos e fantasias, a desmitificar assuntos que são considerados tabus e, dessa forma, auxiliam na desconstrução de mitos relativos à sexualidade. Alguns mitos dificultam a vivência da sexualidade, como os papéis socialmente construídos sobre o masculino e feminino, que influenciam tanto o homem como a mulher em suas formas de relacionarem-se. O homem, ainda, sente a necessidade de ser durão e acredita que não deve revelar suas inseguranças, sob pena de comprometer sua masculinidade. Já a mulher, embora tenha conquistado o direito de vivenciar sua sexualidade antes do casamento, ainda sente dificuldade em experimentar novas práticas sexuais e realizar suas fantasias, pois tem receio do julgamento social e de ser associada à figura da puta.
A prostituta e o cliente, ao se relacionarem podem romper os limites dessa construção social, pois na noite, esses papéis podem ser desmitificados. Ofuscados pela noite, é possível romper com estereótipos construídos socialmente e as pessoas podem conversar sobre suas inseguranças, medos, fantasias e desejos sem temer o julgamento
moral. Para que isso se torne possível é preciso estar disposto a aprender com o outro, ter sensibilidade para ler não o que acontece, mas o que nos acontece quando nos relacionando com o outro, enfim, é preciso estar aberto ao diálogo.
Conhecer e desvelar saberes de experiência produzidos por pessoas, em suas diferentes práticas sociais, são tarefas inconclusas que devem ser realizadas, permanentemente, por pesquisadores, educadores e estudiosos da área de Educação. Esses saberes construídos, fora da escola, não podem e não devem permanecer fora dela. Precisamos conhecer esses saberes de experiência e aprender a relacioná-los aos saberes escolares, de forma a criar uma prática educativa dialógica, capaz de gerar um processo contínuo de aquisição de cultura que fortaleça os seres humanos em sua busca por ser
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