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Na Serra Geral do Planalto Central de Goiás e sul do Tocantins habitam os Kalungas, grupo cujo território compreende os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre. Uma população estimada em mais de 5.000 pessoas vivem em quatro principais núcleos conhecidos por Contenda, Vão de Almas, Vão do Moleque e Ribeirão dos Bois. Esses núcleos, por sua vez, se subdividem em comunidades somadas em mais de 50.

A grande importância mineralógica, umas das marcas dessa microrregião e que se estende a outras áreas do Estado de Goiás, foi desencadeadora do processo de povoamento dos atuais municípios que compõem a microrregião e, por conseguinte, a ocupação do atual território Kalunga.

A historiografia conta que no primeiro século da colonização do Brasil já eram organizadas expedições ou bandeiras oficiais na Bahia – então centro da colonização – que percorreram parte do território do atual estado goiano em busca de metais preciosos; ou mesmo, entradas organizadas por empresas comerciais particulares para a captura de índios. A partir de 1590 tem-se o registro de 16 bandeiras originárias de São Paulo, principalmente da capitania de São Vicente, rumo ao território goiano, dedicando-se à exploração do interior e à busca de metais preciosos. Concomitantemente, haviam expedições organizadas pelos jesuítas vindos do Pará de encontro às populações indígenas com os quais estruturavam seus aldeamentos (Palacin, 1994).

Em 1722 que se iniciou propriamente a conquista e povoamento - ou a colonização despovoadora, em referência ao genocídio das populações autóctones - do território goiano (Quadros, 2005). A bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, se dirige ao território goiano na busca de metais preciosos logo após as descobertas de ouro em Minas Gerais e no Mato Grosso em 1690 e 1718, respectivamente. A bandeira de Anhanguera, três anos depois de sua entrada, encontra ouro nas cabeceiras do rio Vermelho – atual cidade de Goiás – e estabelece os primeiros núcleos populacionais, arraiais ou vilas, nas proximidades das minas de ouro encontradas (Palacin, 2001).

O êxito na busca pelo ouro empreendida por Anhanguera inspirou tantas mais bandeiras vicentinas em direção às Minas dos Goyases para a localização de outros rios auríferos e em formações rochosas. Os centros mineradores (Mapa 2) se instalaram inicialmente no sul da capitania e foram ampliados para o norte com a criação das Minas do Tocantins, alcançando as áreas do complexo cristalino da Chapada dos Veadeiros até proximidades do rio Tocantins, a nordeste da Capitania.

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Mapa 2 – Estados de Goiás e Tocantins: fatores de urbanização Fonte: Jatobá, 2002

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As entradas traziam consigo um número considerável de escravos africanos Sudaneses e Bantus14 – estes, os Angolas, Congos e Benguelles; e aqueles, Yorubás,

Haussás e Minas - aportados na Bahia e Rio de Janeiro com a função de abrir as rotas, trabalhar nas minas e lavouras, e no transporte de cargas (Salles, 1992).

A bandeira era uma expedição organizada militarmente, e também uma espécie de sociedade comercial. Cada um dos participantes entrava com uma parcela de capital, que consistia ordinariamente em certo número de escravos (...) ao se divulgar a riqueza das minas recém descobertas, ocorria, sem cessar, gente de todas as partes do país. Pelos registros da capitação, sabemos que, dez anos depois, em 1736, já havia nas minas de Goiás 10.263 escravos negros. (Palacin, 2001, p. 10)

Uma vez localizadas as minas de ouro, as entradas foram substituídas por um efetivo povoamento centrado na extração mineral, atividade na qual a população de escravos africanos teve um papel central. O trabalho escravo na lavra do ouro de aluvião consistia em retirar e lavar o cascalho aurífero, uma forma rudimentar da lavra do ouro e a mais praticada em todo o Goiás, já que a mineração das formações rochosas – pouco encontradas na região - era mais cara e tecnicamente mais difícil (Palacin, 2001).

A preocupação com a lavoura no inicio da mineração era menos importante já que os mineiros15 pretendiam enriquecer ali e retornar para o litoral. Contudo, o aumento

populacional e a crise alimentar impeliram a formação de sítios de lavouras nas imediações dos centros mineradores. A ocupação de terras se fazia até então pela concessão de sesmarias, mas era comum que lavradores independentes se apoderassem de terras à margem da lei. O interesse no povoamento das minas gerou condescendência por parte do governo colonial quanto à posse, sendo a lavoura também um fator de fixação do homem na região (Salles, 1992).

O período áureo da atividade mineradora no Goiás foi intenso e breve, a decadência da atividade veio entre os anos de 1779 e 1822, reforçando assim o sistema agrícola e iniciando o processo de ruralização precário centrado nas atividades de agricultura. Algumas vilas e arraiais desapareceram e grande parte da população migrou dos povoados para as roças e fazendas. A produção de alimentos era basicamente de subsistência, pois não havia uma agricultura de mercado na região. As grandes fazendas foram se consolidar com o

14Os estudos antropológicos e históricos realizados por Baiocchi (1999) sinalizam para a descendência Bantu de

grande parte da população Kalunga.

15 Segundo Brandão (1977), a sociedade mineradora e escravocrata se constituía em torno de um eixo básico:

os senhores, mineiros e brancos; e o escravo, minerador e negro. Circundava esse eixo de domínio grupos de comerciantes – traficantes de escravos e abastecedores de bens de consumo - e funcionários da Coroa. Ser mineiro significava ter a posse de mais de um escravo a seu serviço para o trabalho da lavra de ouro nas áreas concedidas a particulares. Era desejo de todos os brancos e mestiços incluir-se na categoria de mineiros.

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desenvolvimento da pecuária, introduzida amplamente no Estado em meados do século XIX, ocupando grandes áreas rurais despovoadas e realocando o trabalho escravo para os fins da atividade pastoril (Brandão, 1977).