Primeiramente, quanto ao escopo do trabalho, o estudo de caso se ateve a analisar as estratégias de internacionalização da Petrobras e, em particular, o processo de entrada da empresa no mercado de distribuição de derivados através da aquisição dos ativos da Shell no mercado da República do Paraguai, cuja operação começou em primeiro de abril de 2006 e continua de maneira ininterrupta até o momento. Portanto, todos os instrumentos teóricos que suportaram este estudo estiveram com foco na internacionalização da empresa, aplicados à entrada oficial no mercado paraguaio, apesar de que, durante as entrevistas, aspectos estratégicos e geográficos mais amplos tenham sido abordados.
Em segundo lugar, as entrevistas foram com executivos que tiveram relevância no referido caso, porém como todos seguem trabalhando na empresa não é possível saber até que ponto os mesmos estiveram propensos a abrir informações mais sensíveis, ou se se manifestou uma vertente do chamado Social Desirability Bias, aplicado ao mundo corporativo.
4 ESTUDO DE CASO FRAMEWORK, ANÁLISE E RESULTADOS
Esta dissertação se propõe a investigar as estratégias internacionais em geral, e regionais em particular, da Petrobras em processos mercadológicos no âmbito da distribuição de derivados de petróleo. Este estudo entende que a gestão da organização híbrida é orientada por objetivos empresariais como também pelo estado (no seu sentido amplo), pela (geo)política, pelo não-mercado, ao mesmo tempo em que é orientada pelo mercado tradicional, no estabelecimento da sua estratégia regional de distribuição.
No processo de gestão da empresa, os diferentes atores (privados, estatais, mercado, não-mercado, shareholders, stakeholders) e suas nuances se inter-relacionam na busca pelos seus propósitos. Nesse contexto, no momento do estabelecimento das estratégias de gestão dos negócios internacionais, a Petrobras tem, em geral, conseguido equilibrar os interesses de públicos diversos: ora políticos, ora estatais, ora privados; ora nacionais, ora estrangeiros, ora lidando com vizinhos hospedeiros ‘menos favorecidos’, ora com vizinhos hospedeiros ‘mais favorecidos’; ora com um olhar no futuro, ora olhando o passado e o presente; ora considerando a história, ora a geografia e ora as finanças. Esse balanço, esse equilíbrio entre aspectos tão complexos, díspares, assimétricos e ao mesmo tempo necessários e complementares, precisa gerar resultados que legitimem a continuidade da empresa, entregando bons resultados às partes interessadas, nos cenários geográficos onde ela atua.
O Brasil e a América do Sul, em geral, e a Petrobras no Paraguai, em particular, constituem um quadro interessante para a construção de uma perspectiva crítica em estratégia. Organizações híbridas de países emergentes e as relações sul-sul demandam o desenvolvimento de um olhar que integre mercado com não-mercado, e gestão internacional com relações internacionais. Tal proposição vem a contribuir no processo de preenchimento desta lacuna ou até marginalização desta perspectiva pela academia de gestão, inclusive no Brasil. Advoga-se que a organização híbrida e seu inter-relacionamento com o governo é característico de economias emergentes e de tipos de capitalismo de estado, onde a política permeia todos os aspectos da organização, num contexto de crise do capitalismo gerencial. Sugere-se que a expansão regional utilizando diversas dimensões e segmentos da empresa, inclusive a distribuição, sinaliza um propósito do acionista controlador de demarcar sua liderança na América do Sul.
O caráter estatal, embora constantemente criticado por discursos neoliberais e pela própria literatura acadêmica de gestão estratégica, é intrínseco à organização híbrida investigada nessa dissertação. Nas palavras da Presidente Graça Foster: “O governo é o controlador. É o dono da Petrobras. Ponto. A ingerência do governo, como é dita, eu não chamo de ingerência, chamo de gerência” (MARIA..., 2012). Um dos entrevistados, Executivo 1, teceu o seguinte comentário a respeito da participação do governo no controle da empresa que desafia a geo-episteme dominante da área de gestão estratégica:
Eu acredito que, justamente por ser mesmo um país emergente, o governo tenha necessidade de algum nível de exigência, de ter uma interferência nesse mercado estratégico que é o energético, pois o setor se insere num escopo de política econômica, controle de inflação, para evitar concentrações de empresas que pode levar a inflação dos valores dos produtos ou até a configuração de dumping em determinadas situações. País emergente não alcançou ainda um equilibro de mercado, ainda não têm consolidadas as condições mercadológicas, então existe a demanda de o governo participar e regular, de alguma forma. Ou ele regula através da legislação ou ele regula participando diretamente das empresas. No caso da Petrobras, o governo optou por participar como sócio majoritário da empresa (EXECUTIVO 1, 2012).
O governo é o gestor da Petrobras e faz o uso dela como qualquer outro acionista majoritário privado faz uso de sua empresa, buscando atender seus interesses particulares e gerais. Por exemplo: com o título “Lula deve usar a marca Petrobras”, a Folha de São Paulo evidenciou (MARIN, 1996) como o Presidente da República objetivava se beneficiar politicamente do alcance da auto-suficiência de suprimento de petróleo, naquele momento prestes a ser alcançada. Sardenberg (2012), em linha com a afirmação acima, colocou: “A propaganda dos bancos federais, assim como da Petrobras, outras estatais e de ministérios, não oferece propriamente um produto. Seu principal propósito é passar uma imagem positiva do país e, sobretudo, das ações do governo.”
Opinião similar é sustentada por Felipe (2010) quando observa que a empresa, sob o governo Lula, foi retomada como instrumento de política pública, bem como resgatadas e reforçadas as influências políticas na e da Petrobras, em paralelo a um suave enfraquecimento do papel da ANP. O autor afirma que o sucesso empresarial e a imagem da Petrobras, estatal, integrada e verticalizada, passaram a ser exaustivamente usados como símbolo de êxito do projeto econômico brasileiro, em particular a partir de 2003, buscando ser este a referência de avanço e progresso para as Américas e para o mundo. Isso evidencia uma conexão entre as estratégias de gestão internacional da Petrobras com as estratégias de relações internacionais e regionais do seu acionista controlador. Além disso, essa sinalização ficou mais aceita pelo
mundo não somente devido à ascensão de economias emergentes, mas também pelas seguidas crises da ordem neoliberal.
Porém não foi somente no governo Lula que a Petrobras desempenhou um papel geopolítico para o governo. Felipe (2010) comenta que no governo FHC (1995-2002), havia duas vertentes de discussão a respeito da Petrobras: uma que defendia a privatização da empresa e sua divisão em empresas menores (a exemplo do ocorrido nos setores de telecomunicações e elétrico) e outra, vencedora, que considerava a necessidade de a Petrobras se manter estatal para que cumprisse o papel de instrumento do estado brasileiro especialmente no que diz respeito à geopolítica local.
Dessa maneira, em especial nos últimos governos social-democrata e petistas, continua o autor, a Petrobras foi e tem sido elemento decisivo para a reafirmação geopolítica da liderança brasileira na América do Sul, bem como para o alargamento do capitalismo brasileiro para outros países. A campanha da auto-suficiência do petróleo foi usada como elemento geopolítico e estratégico de reafirmação do sucesso do empreendimento estatal nacional, e para reafirmar a capacidade de posicionamento de liderança na região, quando se envolve o tema energia, de maneira geral, e o petróleo, de maneira específica. O estudo de caso em questão, entrada da Petrobras no Paraguai, aborda a conexão entre estes aspectos empresariais e (geo)políticos.