Como se vê, o foco da pesquisa é investigar o processo de se constituir mulher negra, docente no Ensino Superior. Busco, pois, compreender particularidades dessa experiência, a partir do vivido em suas salas de aula, sala de professores, ambientes de reunião, encontros científicos e outras situações em que elas atuam. Nesta pesquisa, o foco é como mulheres negras vêm se tornando professoras do Ensino Superior. Investigar tal fenômeno só é possível tendo em conta as experiências vividas por mulheres que se
autoclassificam negras (pretas ou pardas28), que reconhecem pertencimento a raízes africanas. Por isso, a Fenomenologia oferece substanciais referências para construir a metodologia deste trabalho. Desse aporte teórico metodológico decorre importante orientação para quem busca compreender processos enquanto ocorrem, não prioriza os resultados de um processo, mas os caminhos percorridos.
Por se tratar de uma investigação ancorada e teorizada na experiência vivida por professoras negras, cabe, neste estudo, destacar com Merleau-Ponty que falar sobre: “[...] uma experiência, é comunicar interiormente com o mundo, com o corpo e com os outros, ser com eles em lugar de estar ao lado deles [...]” (MERLEAU-PONTY, 1945/2011, p. 141).
Nesse sentido, cabe citar Terezinha Petrucia Nóbrega, quando ela adverte que: [...] ao adotar a fenomenologia como referencia metodológica, faz-se necessário incorporar a atitude ancorada na experiência vivida e aberta as aventuras da reflexão. [...] Essa posição não é uma representação mental do mundo, mas envolvimento que permite a experiência, a reflexão, a interpretação, a imputação e a compreensão de sentidos [...] (NÓBREGA, 2010, p. 38).
Nóbrega (2010) auxilia compreender que o conhecimento do mundo não está desligado da experiência vivida e que a atitude fenomenológica permite o reconhecimento de que somos seres inacabados, com múltiplas possibilidades de interpretações. Nesse sentido e para explicar a escolha por inspiração fenomenológica para realizar esta pesquisa, cabe citar Masini (2008), ao afirmar que:
[...] não existe „o‟ método fenomenológico, mas uma atitude. [...]. Qual é essa atitude? É a atitude de abertura do ser humano para compreender o que se mostra (abertura no sentido de estar livre para perceber o que se mostra e não preso a conceitos ou predefinições) (MASINI, 2008, p. 62).
A referida autora aponta uma atitude, um esforço importante e necessário de quem realiza pesquisa inspirada na fenomenologia: suspender, controlar tudo que anteriormente aprendeu sobre o fenômeno que agora se propõe a estudar. É indispensável a atenção constante, o esforço para não deixar “encaixar” o fenômeno agora observado nos conhecimentos que já formulou, nos preconceitos que assimilou, nos autores que oferecem
28 Pretas e pardas conforme as categorias estabelecidas pelo IBGE, a saber: pretos, pardos, indígenas,
referências teórico-metodológicas. Esse importante controle do que já se sabe é indispensável para quem quer observar e compreender significados da vida, a partir de quem a vive.
É mister destacar que esta pesquisa não é em Fenomenologia, falta-me conhecimento e competência para tanto. Esse trabalho é, pois, realizado pelas razões já apontadas com inspiração na Fenomenologia. Para melhor explicar do que trata tal inspiração, Souza, E. L. (2012) estabelece a seguinte analogia entre os atos de inspirar e
expirar: [...] uma pesquisa que se inspira na fenomenologia, ao realizarmos o
movimento de inspiração temos consciência de que não nos
apropriaremos de toda filosofia da fenomenologia (ar), mas podemos
nos pautar em uma postura fenomenológica (oxigênio), assim somando nossas referências à postura fenomenológica, temos uma forma de fazer pesquisa em educação (composto entre oxigênio e carbono), inspirada na fenomenologia (ar) (SOUZA, E. L. 2012, p. 67 - Grifo meu).
A pesquisadora de Ellen Lima Souza completa sua compreensão dizendo que:
[...] é a postura de pesquisadora que se fundamenta nos aportes fenomenológicos, postura essa que implica em familiarizar-se com o fenômeno [...] a fim de poder descrevê-lo e compreender, com maior precisão possível [...] (SOUZA, E. L. 2012, p. 67).
Dito de outra forma, mergulho no fenômeno, observando a realidade vivida por professoras negras em experiências singulares, que elas recompõem e descrevem de diferentes pontos de vistas. No face a face que as conversas prolongadas proporcionaram, nas experiências que as participantes deram a conhecer, desvelaram caminhos e significados que ajudam a compreender as estratégias de que se valem, apoios que têm recebido, para enfrentar racismos, discriminações e a fim de construir suas carreiras não só como realização profissional, mas também compromisso de construção de uma sociedade democrática.
Pesquisas fundamentadas em aportes fenomenológicos fazem reflexão no sentido de que a construção de cada um está vinculada à construção do mundo. Trata-se de um processo inacabado. Sobre isso Gonçalves Junior et. al. (2003) explicam que:
Na perspectiva fenomenológica, entende-se o ser existindo no mundo a partir dos existenciais básicos: afetividade, compreensão e expressão, que estão sempre numa mesma dimensão de importância, sendo equiprimordiais, pois são fundantes da constituição do ser; são modos do
abertura para a experiência [...] (GONÇALVES JUNIOR et. al, 2003, p.4 - Grifo do autor).
Luiz Gonçalves Junior e colegas dizem que a atitude fenomenológica propõe o “ir à coisa mesma”, ou seja, “[...] àqueles que experienciam em seu mundo-vida o fenômeno interrogado e podem falar sobre ele” (GONÇALVES JUNIOR, et. al., 2003, p.77-78). Por isso, os referidos autores salientam que tal postura teórico-metodológica que melhor ajuda a observar um fenômeno, sem analisá-lo aleatoriamente, ao contrário, respeitando a experiência vivida, descreve, sem preconceitos, as realidades para além das aparências.
Os já citados autores dizem que investigação realizada em “atitude fenomenológica”29 se preocupa com as compreensões e o modo de existir-aí, num tempo, num espaço em que a consciência enquanto liberdade se constrói.
A consciência faz parte do corpo inteiro que é constituído pelo corpo físico e pela consciência. Gonçalves Junior auxilia nessa compreensão quando cita Merleau-Ponty (1945), referindo-se que o corpo:
[...] olha todas as coisas e que também é capaz de olhar a si, que se vê vidente, toca-se tateante [...]. Corpo que se move não pela reunião de partes e na ignorância de si, mas irradiando de um si, captado no pano de fundo do mundo, com a coesão de uma coisa; de um anexo ou um prolongamento dele mesmo, incrustadas na sua carne, pois o corpo é o lugar de todo o diálogo que envolve o eu e o mundo (GONÇALVES JUNIOR et. al., 2003, p.11 apud MERLEAU PONTY, 1945, p. 269).
As pessoas pensam, abeirando-se daquilo/ou daquelas experiências que lhes são próprias, em seu tempo de existência. Buscando inspiração na Fenomenologia, aceita- se o convite do retorno à coisa mesma, refletindo sobre e com o mundo, realidades que não são monolíticas, imutáveis privilégios de alguns “iluminados”.
Cabe aqui dizer que os enunciados filosóficos da Fenomenologia, questionam o fazer ciência somente numa lógica que valoriza antes de mais nada a razão. Na perspectiva da Fenomenologia, o que se busca conhecer se revela nas experiências vividas, peculiares a diferentes pessoas e contextos.
Neste ponto, faço breve parêntese para lembrar que a ciência produzida em muitas civilizações foi usurpada, por alguns pensadores oriundos do continente europeu,
que, muitas vezes, por meio dessa “apropriação indébita”, diga-se assim, tenta-se explicar experiências originadas em outras realidades. É nesse ponto de vista que faz sentido a crítica do escritor e jornalista afro-brasileiro Afonso Henrique de Lima Barreto (1881- 1922), quando ele afirma: “[...] senti que a ciência não é assim um cochicho de Deus aos homens da Europa sobre a misteriosa organização do mundo” (BARRETO, 1956, p. 48).
Retomando, as perspectivas da Fenomenologia, embora geradas na Europa, admitem perspectivas e meios científicos que se apoiem em visões de mundo não europeias, sem, entretanto, distanciarem-se do rigor necessário às produções científicas.
Este trabalho, adotando postura científica baseada na Fenomenologia, em procedimentos teórico-metodológicos próprios de pesquisa qualitativa, busca aportes teóricos em teorias da educação com aportes de africanidades, em estudos afro-brasileiros.
É importante, pois, relembrar que, na perspectiva teórico-metodológica adotada nessa pesquisa,
- o conhecimento está em permanente construção, fazendo-se necessário que a pesquisadora “suspenda o que já sabe”, para reconhecer e compreender as elaborações/produções das participantes desta pesquisa;
- a pesquisadora, durante as conversas prolongadas, crie clima para que as participantes investiguem suas próprias experiências com espontaneidade, sem se sentirem constrangidas por um tempo externamente determinado para formular suas respostas, apresentar suas experiências, tampouco constrangidas a responder perguntas pontuais, tendo assim a liberdade de investigar sua própria experiência;
- as participantes em conversas prolongadas construam, exponham significados de se constituírem como mulheres negras professoras na Educação Superior.