4 Simulation and verification
4.2 Verification of the results
De acordo com Wehmeyer e Obremski (2010), a deficiência intelectual é definida, a priori, com base nos déficits de desempenho; isso ocorre porque o diagnóstico e classificação da deficiência intelectual considera, principalmente, a ligação entre a inteligência e a adoção de um modelo funcional, ilustrados pela AAIDD e pela OMS. Seguindo essa orientação, pode-se concluir que o conceito de inteligência é relevante para o estudo da deficiência intelectual e fundamental para conhecer a compatibilidade entre as capacidades de um indivíduo e o contexto em que ele vive, interage, aprende, trabalha etc.
Se a inteligencia é imprescindível para o processo de desenvolvimento, é preciso perceber suas características, por isso faz-se necessário entender suas
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propriedades. Para isso, apoiamo-nos no modelo de inteligência definido por Carroll (1993), pois seus resultados foram constatados após uma minuciosa e complexa pesquisa que fortalece dados substanciais para a compreensão das limitações funcionais das pessoas com deficiência intelectual a partir de suas perspectivas e de sua capacidade.
Carroll fornece, essencialmente, uma taxonomia de habilidades cognitivas suscetíveis de serem afetadas por deficiências na função cerebral. Em sua investigação, o autor identificou oito componentes principais ou de primeira ordem que interferem diretamente na atitude cognitiva, baseando-se nas principais áreas relacionadas à capacidade cognitiva humana. São elas: linguagem, raciocínio, memória e aprendizagem, percepção visual, recepção auditiva, produção de ideias, velocidade cognitiva e conhecimento e desempenho.
Para cada uma dessas áreas de habilidades cognitivas em seres humanos há uma vasta documentação descritiva, não necessariamente no campo de investigação voltado para pessoas com deficiência intelectual. Em seu estudo, Carrol procurou entender a natureza das habilidades cognitivas; e nós, agora, faremos um rápido resumo das principais características de cada domínio para ilustrar como deficiências localizadas no cérebro podem afetar o funcionamento cognitivo de pessoas com deficiência intelectual.
Linguagem e Recepção auditiva
Certamente essas duas áreas são as que mais influenciam no desenvolvimento cognitivo dos sujeitos. Entre as características identificadas nestes domínios, há fatores relacionados ao desenvolvimento da linguagem, à compreensão da linguagem verbal, à compreensão de leitura e decodificação, ao conhecimento do léxico, bem como aos fatores relacionados à velocidade após a conclusão da capacidade ortográfica, codificação fonética, sensibilidade à estrutura gramatical, à capacidade de falar em uma língua estrangeira e os níveis de competências linguísticas, de adotar estilos da linguagem falada e escrita. De acordo com Carroll, estes fatores correspondem a habilidades de comunicação mais gerais, que, muitas vezes, incluem a acuidade auditiva e produção de fala, com ou sem a participação de leitura e escrita. Essas competências incluem a capacidade de imitação verbal e gestual, a capacidade de comunicação interativa e aplicações relativamente simples de produção da fala.
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As limitações referentes ao desenvolvimento da linguagem são comumente detectadas em pessoas com deficiência intelectual, uma vez que os principais fatores medidos por testes de inteligência tradicionais referem-se ao desenvolvimento da linguagem, às habilidades de compreensão verbal e à velocidade de leitura.
Wehmeyer e Obremski (2010) esclarecem que algumas pessoas com deficiência intelectual têm problemas significativos no domínio da recepção auditiva, incluindo localização e discriminação de sons. Em outros casos, contrariamente, pode acontecer um efeito oposto, como, por exemplo, o que se pode verificar em pessoas que têm síndrome de Williams. Normalmente estes sujeitos têm deficiências cognitivas que causam deficiência intelectual, mas um percentual significativo dessa população possui uma “afinação perfeita”, ou seja, são capazes de identificar, nomear e produzir com perfeição as notas musicais, em geral, sem qualquer formação. Portanto, é importante não generalizar os efeitos de comprometimentos cerebrais em todas as áreas de operação.
Raciocínio e Produção de ideias
Carroll observou que os fatores no campo de argumento são fundamentais para o que se entende por inteligência, por isso são particularmente relevantes para a deficiência intelectual. O autor enumerou variáveis de raciocínio condensadas em três fatores de primeira ordem, cada um acompanhado por vários subtipos. Os fatores de primeira ordem são fatores relacionados ao raciocínio sequencial, indutivo e quantitativo.
Os fatores de raciocínio sequencial englobam elementos que incidem sobre “a capacidade de raciocinar e tirar conclusões a partir de condições e pressupostos de dados” (p. 234). Esses componentes incluem manipulação de símbolos, analogias verbais e silogismos, raciocínio verbal, raciocínio dedutivo e lógico, problemas de correspondência, conclusão de frases e proposições falsas.
Fatores relacionados ao raciocínio indutivo exigem que o sujeito seja capaz de examinar classes de materiais e perceber uma característica comum entre elas, como elementos relacionados com a formação de conceitos, classificação verbal, formas de harmonização, raciocínio lógico, raciocínio espacial, indução de regras e semelhanças.
Os fatores de raciocínio quantitativo exigem raciocínio baseado em propriedades matemáticas, como o raciocínio aritmético e resolução de problemas. Carroll também propôs um quarto tipo de fatores de raciocínio que ele chamou de “fatores
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de raciocínio piagetianos”, porque continham tarefas de raciocínio elaboradas e estudadas por Piaget e seus colaboradores. Elas abrangem operatividade, conservação e competências de representação, metarrepresentação e metacognição.
A produção de ideias, um fator adicional de primeira ordem, é semelhante ao domínio do raciocínio. Segundo Carroll, o campo da capacidade cognitiva de ideias refere-se à capacidade dos indivíduos para gerar ideias e se comunicar utilizando a linguagem ou outros meios. Eles geralmente dizem respeito a fatores de fluência e criatividade. Os fatores de primeira ordem nesta área incluem fluência vocabular (capacidade de produzir palavras rapidamente para preenchem exigências específicas) fluência ideativa (capacidade de fazer emergir muitas ideias numa situação relativamente livre de restrições), fluência associativa (capacidade de produzir palavras a partir de uma área restrita de significado), fluência expressionista (capacidade de abandonar uma estrutura já organizada para criar outra), originalidade (capacidade de produzir respostas inteligentes) fluência figural (capacidade de produzir desenhos e esboços originais) e fluência na estruturação (capacidade de fornecer detalhes para completar um dado esboço ou esqueleto de alguma forma).
Como a deficiência intelectual é definida pelo funcionamento intelectual significativamente inferior à média, deve-se considerar que, ao medir fatores relacionados à inteligência, é óbvio que as pessoas com deficiência intelectual apresentarão indícios de distúrbios no raciocínio e na produção de ideias.
Memória e aprendizagem
Os fatores de primeira ordem dessa taxonomia incluem elementos relacionados à extensão de memória, ou seja, à memória associativa, à recuperação da memória livre, à memória visual e capacidade de aprendizagem. Fatores relacionados às tarefas de extensão de memória incluem apresentação visual e memorização de espaço, figuras e frases. A memória também está relacionadas às ideias e envolve conteúdos apresentados na forma escrita, visual ou auditiva, bem como a memória proveniente da interação social. Fatores relacionados à memória visual incluem imagens de memória, figuras geométricas, e memória cartográfica. Fatores relacionados à capacidade de aprendizagem incluem áreas como a retenção e recuperação de informação, erro na produção de informação, e relembrança de informações aprendidas. Além disso, Carroll
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reuniu alguns fatores classificados como fatores primos, que incluem elementos relacionados à memória de eventos, à discriminação verbal e memória relacionada à capacidade de agrupar.
Mesmo que as limitações das funções de memória e de aprendizagem sejam uma característica das pessoas com deficiência intelectual, não se deve generalizar, porque os resultados desse estudo fazem alusão a muitos exemplos de pessoas com deficiência intelectual que têm habilidades mnemônicas que superam habilidades de pessoas sem deficiência intelectual.
Percepção visual
Carroll identificou os principais fatores e funções deste domínio: fatores relacionados à visualização e às relações espaciais, cuja função é combinar estímulos visuais diferentes para formar um todo significativo; fatores relacionados à flexibilidade para o encerramento, com a função de manipular, visualmente, vários objetos ou formas, como nas tarefas com figuras ocultas; fatores relacionados à integração da percepção sequencial, cuja função é integrar imagens sequenciais; fatores relacionados à exploração espacial, com a função de garantir velocidade para explorar um campo visual; fatores relacionados à velocidade perceptiva, associados à velocidade com a qual o sujeito descobre as imagens ou estímulos que ele procura e fatores relacionados à visualização, ou seja, à capacidade de imaginar ou visualizar uma sequência de execução ou ação para confirmar uma estimativa pela percepção da ilusão e alternância de percepção. Estes fatores estão relacionados à capacidade de “buscar o campo de visão para compreender a forma, a configuração e a posição dos objectos percebidos para criar representações mentais” (p. 304).
Velocidade cognitiva
Questões relacionadas com as habilidades cognitivas da velocidade são particularmente relevantes para pessoas com deficiência intelectual. Os fatores de primeira ordem deste domínio incluem a taxa de resposta aos testes, o tempo de reação e a facilidade com os números. Carroll identificou muitos fatores nas áreas de raciocínio, linguagem e produção de ideias, assim como na velocidade cognitiva. A falta de velocidade para a manipulação de processamento cognitivos é a principal característica
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que define a deficiência. O “atraso mental”, utilizado durante muito tempo para pontuar a velocidade cognitiva, significa literalmente “lentidão mental”.
Conhecimento e desempenho
O último domínio cognitívo identificado por Carroll é o do conhecimento e desempenho. Esta área de competências inclui fatores de primeira ordem como o desempenho em geral, informação e conhecimento verbal, informação e conhecimento em matemática e ciências, conhecimento técnico e mecânico (conhecimento pessoal e interação social). Até certo ponto, os domínios anteriores (raciocínio, velocidade cognitiva, memória e aprendizagem) têm um efeito direto sobre o conhecimento e o desempenho de pessoas com deficiência intelectual, mas esses fatores representam as áreas em que o desempenho é frequentemente avaliado para determinar a deficiência intelectual.
A análise da taxonomia de Carroll oportuniza uma forma mais compreensiva de apresentar a amplitude das limitações funcionais que o prejuízo cognitivo pode causar, todavia é preciso lembrar que a deficiência intelectual não é mais vista como um mero conjunto de limitações nos tipos de habilidades cognitivas descritos nesta seção, mas como a compatibilidade entre a capacidade do indivíduo nessas áreas e o contexto em que deve agir. A literatura na área evidencia, através da adaptação e reabilitação, da educação, da tecnologia e dos suportes, que as pessoas com deficiência intelectual podem melhorar o seu funcionamento social e cognitivo. É isso que defendemos e abordamos nesta pesquisa.
Queremos deixar claro que todos os autores que utilizamos para fundamentar este capítulo são relevantes pelas considerações acerca de especificidades por eles apresentadas e, embora, muitas vezes, apresentem teorias com perspectivas completamente diferentes, a exemplo de Vygotsky e de Piaget, nos dão suporte científico para compreender particularidades originadas em diferentes esferas, como a social e a biológica, a cognitiva e a extracognitiva e, ainda, sobre os conceitos de individual e coletivo, interno (estágios de desenvolvimento) e externo (na interação com o objeto, com o meio e com o outro), por meio dos percursos convencionais e dos não convencionais. Sem dúvida, essas teorias impulsionam reflexões complexas, mas neste contexto se complementam, principalmente porque Piaget, assim como Vygotsky,
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evidencia a importância da interação com o outro e com o grupo, característica recorrente nesta pesquisa. O alcance das contribuições teóricas nos permitiu realizar reflexões distintas sobre as diversas perspectivas de uma mesma situação. Essas contribuições nos dão suporte teórico para abordar, por exemplo, o letramento digital de sujeitos com deficiência intelectual com base em aspectos do desenvolvimento e da interação. Trataremos detalhadamente sobre o letramento digital no próximo capítulo.
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3 DESVENDANDO O LETRAMENTO
Novas formas de pensar e de conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática. As relações entre homens, o trabalho, a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Escrita, leitura, visão, audição, criação, aprendizagem são capturados por uma informática cada vez mais avançada (LÉVY, 2004, p.27).
Nesta pesquisa, usaremos muito os termos ‘letramento’ e ‘letramento digital’, pois nossa tese estrutura-se a partir desta prática em ambiente virtual, portanto é indispensável falar sobre a origem dos estudos acerca de letramento, sobre as práticas de letramentos, sobre os eventos de letramento, sobre agência de letramento e letramentos (no plural) e sobre o letramento no contexto da deficiência intelectual para apresentar perspectivas acerca destes conceitos e dialogar com o aporte teórico enquanto componente de sustentação na construção deste trabalho.