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A percepção geográfica foi o instrumento usado nesse estudo, a partir do roteiro de entrevistas, que norteou as respostas dos moradores sobre a sua percepção da inserção do turismo das pousadas da Rota Ecológica em suas vidas. Essa percepção nada mais é do que a análise que a comunidade faz da sua interação com as atividades do turismo presentes nos seus lugares onde vivem. Por possuírem características parecidas de formação, ficou evidenciado neste estudo que toda a Rota Ecológica se apresenta de forma parecida na percepção dos entrevistados. Talvez o fato de se apresentarem com traços culturais, ambientais, sociais e econômicos parecidos tenha ocorrido devido tanto à estrutura de colonização, como por seu afastamento das rodovias principais que cortam essa parte do estado de Alagoas, como visto no segundo capítulo deste texto. Entretanto, como já demonstrado em outras partes deste trabalho, a área que forma a Rota Ecológica vem passando por uma mudança significativa com base em uma forma de desenvolvimento turístico singular, associado a uma orientação alternativa de turismo.

A expansão de modelos alternativos de uso do espaço por parte do turismo parece identificar sinais da crise pela qual a sociedade pós-industrial vem passando nos últimos tempos, não aceitando mais modelos universais e em busca das peculiaridades de cada lugar

(ZAOUAL, 2008). Assim, esses lugares vêm promovendo através de seus meios de hospedagem um intercambio intercultural, seja entre visitantes e a comunidade, seja entre os donos das pousadas da Rota Ecológica e a população local, dessa forma assegurando até certo ponto maior durabilidade social e ecológica, como exemplifica pelo morador E5 de São Miguel dos Milagres, quando ele fala sobre sua percepção em relação à interação cultural do turismo na Rota Ecológica: “Gera emprego, renda e conhecimento né? Isso aí...porque tem pessoas que aprende com a cultura de fora né. Gera emprego, renda e conhecimento”.

São lugares ainda considerados calmos pela maior parte dos entrevistados. Além disso, apresentam certa preservação de seus traços culturais, aspectos folclóricos e lendas. Por exemplo, a lenda do Bode do Ponte (Figura 51) representa, para os entrevistados, uma das histórias mais contadas na cidade e tendo sida presenciada segundo boa parte dos moradores especialmente do município de São Miguel dos Milagres, local onde existe a casa associada a essa lenda. Na fala a seguir é possível perceber como os residentes descrevem sua experiência em relação a essa história:

Uma vez eu escutei um grito, ai...eu escutei...eu escutei perto, isso é bem essa história do Bode do Ponte, correu tanto que foi uma miséria [...] a gente veio tudo a pé, quando a gente escutou o grito a gente num [sic] sabia se foi o boi o que foi, só sei que a gente correu o tanto que....esse foi o Bode do Ponte, veio pegar a gente, e ainda existe a casa lá (E6 morador de São Miguel dos Milagres).

Figura 51: Cartaz do documentário da lenda do Bode do Ponte

Fonte: www.obodedoponte.webs.com

É comum os aspectos culturais de uma comunidade, sejam relacionados ao patrimônio imaterial ou material, como histórias folclóricas, danças, culinária, traços arquitetônicos, tornarem-se um atrativo em lugares turísticos, especialmente com a nova tendência em oferecer cultura e tradição nos produtos turísticos atualmente (RODRIGUES, 2006). Na área da Rota Ecológica as pousadas locais oferecem, como um complemento do segmento padrão de sol e mar, também aspectos relacionados à cultura local.

Essa valorização dos aspectos culturais dos destinos turísticos surgiu, em parte, junto com o conceitos de turismo sustentável, em que em um dos seus princípios, de acordo com o documento da EUROPARC (2007), relaciona-se à valorização do patrimônio natural e cultural para sua manutenção como atrativo nos destinos, diferentemente dos produtos culturais que são vendidos por modelos massivos de turismo, que se apresentam mais como uma encenação de uma realidade maquiada do que como uma dimensão cultural genuína dos lugares turísticos, como exemplificado por Archer e Cooper (1998, p.93), no seguinte trecho: “As danças tradicionais e o artesanato artístico cedem lugar a imitações baratas para satisfazer às necessidades do visitantes e para proporcionar ao residente um rendimento com o menor

esforço possível”. As alterações dessa orientação de turismo baseado na valorização das culturas locais, tende a ser positivo, como constatou Bramwell (2003), ao fazer uma análise no Mediterrâneo a respeito do aumento de autoestima dos moradores de Malta após a inserção do turismo cultural neste destino.

No que diz respeito à importância dos aspectos culturais para o turismo em uma localidade, este estudo identificou que apesar da orientação turística local ser de natureza alternativa, pouco se tem feito, na visão de alguns entrevistados, em relação à preservação dos aspectos culturais dos três municípios envolvidos no circuito de pousadas da Rota Ecológica, principalmente por falta de ações e incentivos do poder público local que incentiva a cultura local apenas em épocas de apresentações em feiras de maior visibilidade, não dando continuidade aos trabalhos no restante do ano:

Era pastoril dos homens, a gente tinha uma chegança, a gente tinha aqui um pagode, e tudo isso ai foi morrendo por conta do apoio, as liderança não apoia [sic], porque tudo isso a gente sabe que vem um...um apoio, só que não é repassado [...] E1 morador de São Miguel dos Milagres.

Então ele banca tudo só pra poder acontecer, porque como São Miguel dos Milagres é um dos municípios muito visto na Rota Eclógica né, em relação do meio ambiente, então, turista, ai então uma cidade turística então o prefeito não deixa cair,então ele investe por conta disso, mas ai passou aquilo ali... E1 morador de São Miguel dos Milagres.

O que vem ocorrendo nesses lugares, infelizmente é o esquecimento das tradições pelas novas gerações. Este fato vem acontecendo não por causa da chegada das pousadas da Rota Ecológica, mas sim pelo encaminhar natural das sociedades atuais que não valorizam aspectos tradicionais. Tal aspecto está refletido nesse sentido nas vozes abaixo:

Os mais idosos que gostavam disso foram parando por conta da idade né; os novos que vieram não se interessaram, a dar seguimento [...]. E12 morador de Barra de Camaragibe.

Eu acho que não, porque essas pessoas que vem dessas pousada, [sic] é o mais que eles querem no município, é ver as brincadeiras, é ver alguma coisa, mas é o município mesmo é a...eu acho, eu penso assim que seja o povo mesmo as tradição [sic] que mudou [...]. E8 morador de Porto de Pedras.

Complementando essa visão de reconhecimento que certas manifestações culturais locais estão desaparecendo, os entrevistados desejam a preservação de suas tradições, como mencionado pelo entrevistado E3, que é morador e empresário do setor de turismo de São Miguel dos Milagres: “Quero um negocinho [sic] pra fazer a apresentação das coisas importantes no nosso município...”, parecendo reconhecer que as manifestações culturais locais têm algum apelo turístico.

Alguns autores explicam que em muitos lugares ao redor do mundo o turismo pode ser o elemento que irá garantir a manutenção de certas tradições originais que atraem os turistas, obviamente se esta atividade for bem gerenciada e planejada (ARCHER; COOPER, 1998).

Na Rota Ecológica, com base nas falas de quatro dos entrevistados, parte do empresariado local, não só o composto pelas pousadas, mas do restante do trade turístico parece apoiar e desejar dar continuidade a esses aspectos de cunho cultural dos três municípios, inclusive para divulgação e como mais uma forma de atrativo para os turistas que são seus clientes, como se pode deduzir das falas abaixo:

Melhorou mais, porque as vezes as pousada [sic] chama esse pessoal pra fazer os evento[sic] na [sic] pousadas, turista gosta né, turista pergunta, curiosos [sic]. ‘Aqui tem isso, tem aquilo’, mas tem e as vez [sic] aí a quadrilha não cuida tão bem, a quadrilha, pra [sic] dançar num hotel, nas pousadas, sempre monta, eles são chamados. E9 morador de Porto de Pedras

O turista gosta. Não é? O turista gosta. Não sofreu nada sobre isso, e até assim, eles são convidados pra [sic] dançar nessas pousadas, entendeu? E5 morador de São Miguel dos Milagres

Não. Sofreu não, nenhuma alteração não. Sofreu não até porque é...eles preferem a cultura daqui sem nenhuma alteração. E6 moradora de São Miguel dos Milagres. Não, inclusive eles chama [sic] até eles pra [sic] dançar lá, as vezes chama E11 morador do povoado de Barra de Camaragibe pertencente ao município de Passo de Camaragibe

Na percepção desses moradores da área que forma a Rota Ecológica, eles veem como positivo a inserção da cultural local na oferta turística, pois esses empreendimentos têm não só valorizado a cultura local como também têm apoiado projetos para dar continuidade a aspectos culturais locais.

Segundo um entrevistado, uma das pousadas já tentou realizar várias vezes eventos voltados à valorização das manifestações folclóricas e culturais locais, porém até o momento sem sucesso, com a falta de apoio do poder público tem sido identificada como o maior entrave. “A pousada do Toque ainda tentou fazer isso várias vezes. Quando tinha o projeto, ela levava o...a quadrilha pra [sic] incentivar, queria criar quadrilha pra [sic] fazer isso” E2 morador de São Miguel dos Milagres.

Transpareceu na fala de vários entrevistados que, apesar de as pousadas terem uma visão mercadológica, elas ajudam a fortalecer valores e patrimônios culturais das comunidades, estimulando uma participação ativa da população na atividade turística local. Por estarem inseridas na orientação de turismo alternativo, com características similares, por exemplo, às ofertas do slow tourism (HEITMANN; POVEY; ROBINSON, 2011), as pousadas da Rota Ecológica contribuem para a manutenção do folclore local.

Quanto à percepção da população local em relação ao meio ambiente, esse estudo verificou que as pessoas da Rota Ecológica, antes da chegada das pousadas, possuíam pouca ou quase nenhuma preocupação com as questões ambientais. De certo modo, isto pode ter acontecido pelo fato das comunidades dessa área viverem com seus recursos, de haver pouca interferência externa que pudesse causar danos ambientais significativos, e da pouca atuação dos órgãos de meio ambiente em tempos anteriores.

Antes das pousadas, assim questão de meio ambiente nunca teve assim fiscalização nem nada não. E4 morador de São Miguel dos Milagres.

Não existia registro antes de...de poluição. Porque era tudo nativo, não podia nem fazer registro. Hoje, mais ou menos eles cobram. E5 morador de São Miguel dos Milagres.

Olha o meio ambiente era bem digamos o seguinte, bem deserto, digamos o seguinte não tinha nenhum tipo de poluição, tipo na praia, esgotos, no rio de ter isso de ter aquilo, ter o lixo que existe hoje, foi as pousadas? Não, não é que seja as pousadas. E3 morador de São Miguel dos Milagres.

Esses lugares eram pouco habitados e ao longo da linha de praia não havia ocupação massiva tanto de moradores, quanto de estabelecimentos comerciais. Realidade hoje que tem mudado, mesmo que ainda em pequena escala. Com a chegada das pousadas no início dos anos

2000, esses lugares foram e estão sendo pouco a pouco transformados. Turistas começaram a aparecer e trouxeram com eles uma nova visão de mundo e comportamentos para esses destinos, como exemplificado pela fala abaixo:

E...isso em 2002 eu tava [sic] de frente a pousada do Toque, nuns [sic] curral, tem vários curral [sic] lá de frente lá, e eu...eu joguei o plástico. Uma turista foi pegou o plástico, foi lá: ‘Bom dia’ eles são sempre bem educado [sic], bom dia. Eu acho que era, já era boa tarde já, ai ela ‘boa tarde’, boa tarde, ‘quem é o responsável por aqui, você é o dono dali?’ Não. ‘Mas quem é o responsável da obra?’ Não, sou eu, pronto. ‘Olhe o senhor está errado, olhe aqui, esse saco aqui vai levar quinhentos anos pra [sic] acabar’. Foi uma coisa que ela fez comigo e eu nunca esqueci. E agora veio a lembrança, quer dizer, ela reeduca. E5 entrevistado de São Miguel dos Milagres.

Com base nessa fala, percebe-se a influência dos visitantes nas comunidades locais, o que por muitas vezes pode ser positivo – como no caso acima relatado – porém também pode trazer modificações negativas para os destinos turísticos (CRUZ, 2003; KNAFOU, 1996; MOSCARDO; PEARCE, 2002; PANOSSO NETTO, 2010; PEARCE, 2003) trazendo novos comportamentos para o lugar, chocando os residentes locais com algumas atitudes não compatíveis com os modos de vida deles, como no caso analisado por Sirakaya; Sonmez; Teye (2002) em Gana na África em que os residentes ganeses, principalmente de regiões rurais, ficam chocados com os comportamentos de alguns turistas ao verem mulheres usando roupas curtas expondo suas partes íntimas, homens com orelhas furadas, entre outros comportamentos que os ganeses consideram como ‘sujos’ e imorais.

Ainda nas relações com o meio ambiente, ficou claro que o problema ambiental maior, na percepção de alguns entrevistados atualmente não é causado pelas pousadas da Rota Ecológica e sim pelos próprios membros da comunidade, que ainda não possuem educação para tratar de conservação e preservação ambiental, como transparece nas seguintes falas, e pelo poder público, que não cumpre suas obrigações institucionais:

Num [sic] é a pousada, mas é a questão da evolução, da ocupação desenfreada e da falta de estrutura pelo poder público, de canalizar a rede de esgoto, de fazer um reservatório pra todo despejo e dejeto, não tem. E2, morador de São Miguel dos Milagres.

Mas isso eu não vou reclamar do turismo não, eu posso reclamar dos meus conterrâneos. E8, morador de Porto de Pedras.

[...] o lixo é sempre do pessoal da comunidade, [...] as pousadas não têm nada a ver com a poluição. E10, morador de Barra de Camaragibe.

Fica claro através desses depoimentos uma percepção de que as pousadas da Rota ecológica parecem não causar alterações ambientais significativas. Os entrevistados entendem que estes empreendimentos na verdade procuram preservar os recursos naturais locais, não só por questões de filosofia e concepções, mas também como por necessidade de sobrevivência dos seus meios de hospedagem. Esse tipo de entendimento emerge como pode ser visto nas vozes abaixo:

Eles preserva [sic], o pessoal das, eles preserva [sic] , eles não degradam.Não danifica, eles tentam preservar o máximo, a questão dessa ai. E1 morador de São Miguel dos Milagres.

Eu acho que não, eu acho que não, eu acho que eles trouxeram só melhorias né? Sem atrapalhar em nada, sem trazer poluição, sem trazer maltrato no meio ambiente. E3 morador de São Miguel dos Milagres.

Eles têm preservado né, preservando que é justamente trazer os turistas pra eles, porque se não preservar... porque atrai mesmo, o turista é... a paisagem daqui natural né ai se eles não contribuírem pra isso, se destruir ai já era né. É ruim pra [sic] todo mundo. E4, morador de São Miguel dos Milagres.

As pousadas também colaboram para não poluírem. As pousadas, mais a Associação, ONG, Yandê e amigos, aí faz mutirão e limpa as praia [sic]. A escola também [...]. E9 morador de Porto de Pedras.

As pousadas na sua frente são organizadas, têm local de lixo, elas não prejudicam o meio ambiente, nem geram e nem trás. E10 moradora de Barra de Camaragibe. Não, pra aqui mesmo não, não, pra aqui mesmo do meu município num [sic] causou nenhum mal. Eu só vejo que ela só fez o bem. E12 morador de Barra de Camaragibe.

Os moradores visualizam que infelizmente o maior causador de problema ainda é a própria população “... o cidadão comum é irresponsável ...”, como diz o entrevistado E2, morador de São Miguel dos Milagres. Assim como o poder público local que tampouco realiza ações e projetos de saneamento e de preservação e conservação do meio ambiente. Enquanto isso, o ICMBio é quem tem feito este papel de gestor e interlocutor em relação aos problemas ambientais nos municípios da Rota Ecológica. O ICMBio tem realizado ações ambientais

nesses lugares, como limpeza de praias (Figura 52), o estabelecimento de um diálogo com pescadores e pousadeiros da Rota Ecológica, entre outras atividades ligadas às comunidades e questões ambientais destes três municípios. Recentemente, surgiram iniciativas locais ligadas ao meio ambiente e há um reconhecimento da importância da ação do ICMBio, como se vê nas falas que se seguem:

Hoje temos uma associação aqui que a gente cuida da nossa praia, da medida do possível a gente cuida [...]. E3 morador de São Miguel dos Milagres.

Agora pode ser que com o ICMBio agora vai, ficar vai, atuando aqui, pode ser que tenha fiscalização de alguma coisa. E4 morador de São Miguel dos Milagres.

Figura 52: ICMBio em ações de limpeza nas praias de Porto de Pedras

Fonte: Movimento Cidade Verde Facebook

Através do trabalho com o peixe-boi marinho, e da sua interface com o turismo e as comunidades locais, o ICMBio vem proporcionando uma nova realidade para as comunidades receptoras, em relação ao trato com os problemas ambientais.

Um dos entrevistados percebe uma relação direta entre a ação das pousadas e o enfrentamento de alguns problemas ambientais locais. Segundo ele, a própria comunidade se vê mais consciente e educada do que antes da chegada das pousadas, ao se referir aos benefícios da ação das pousadas para o meio ambiente:

Isso aí falta muito, pessoas que veve [sic] nessa área de turismo, chegar na colônia, ‘ói [sic] marca uma reunião, quero falar com o povo do município, vocês mermo [sic] que veve [sic] aqui, que tem as suas casinha [sic] perto, num [sic] jogue o lixo na praia, num [sic] jogue fato de peixe né, ter que preservar a praia que é de vocês mermo [sic], isso aqui...vocês é quem veve [sic] o dia a dia aqui com...na praia de vocês, vocês que são nativo [sic] daqui...’ faltou e ainda falta um pouco isso. E12 morador de Barra de Camaragibe.

Obviamente, é do interesse dos donos das pousadas que os problemas ambientais sejam resolvidos, pois é importante para a manutenção da atratividade turística nesses lugares. Entretanto, sua ação parece estar influenciando a formação de uma consciência relativa à necessidade da conservação ambiental, aspecto que normalmente não está associado ao turismo de massa. As pessoas entrevistadas falam com entusiasmo e orgulho sobre a sua comunidade. Yi-Fu Tuan, em sua obra “Espaço e lugar” (1983, p.194) chama atenção para o fato de nas antigas cidades pequenas, como Atenas e outras polis gregas, as pessoas sentiam orgulho dos seus lugares: “Outro fator que acentuava o sentido de orgulho da cidade era o pequeno número de habitantes. Todas as pessoas se conheciam”. Segundo a visão deste autor, o orgulho dos lugares esteve sempre atrelado ao número de habitantes, lugares menores favorecem a este sentimento. Verifica-se nas falas de quatro entrevistados que residem na Rota Ecológica um certo orgulho pelo seu lugar:

Não sairia daqui pra [sic] canto nenhum. E2 morador de São Miguel dos Milagres. Você quando chegou aqui me procurando pra [sic] dar essa entrevista isso é uma satisfação muito grande, de você levar uma história de vida de um cara que chegou a ser caseiro e hoje é um empresário. Então isso pra eles tenho certeza, é muito importante ele fica muito satisfeito. E3 morador de São Miguel dos Milagres A terra é tão boa que eu voltei, então até hoje estou aqui. E8 morador de Porto de Pedras.

Sou nativo daqui, eu queria ver isso melhorar bastante. Então nesse sentido eu me orgulho de ser camaragibano, filho da Barra, e...vê isso aqui, eu queria ver isso aqui crescer mais. E12 morador de Barra de Camaragibe.

Nota-se que apesar da chegada das pousadas da Rota Ecológica, e dos turistas que nelas se hospedam e circulam pelas comunidades locais, o sentimento de pertencimento ao lugar por parte dos entrevistados parece não ter sido perdido. Esta é uma situação que é diferente do que vem ocorrendo em lugares em que o turismo de massa com o modelo resort foi estabelecido. Por exemplo, em sua tese, Brandão (2013, p.222) constatou que em que nas três praias – Praia do Forte-BA, Porto de Galinhas-PE e Pipa-RN - por ele pesquisadas cerca de “[...] 30% dos entrevistados não se sentem acolhidos em seus lugares na convivência com turistas”.

Outro ponto interessante relacionado à área da Rota Ecológica é que mesmo após a chegada das pousadas e o turismo desencadeado por elas, os laços de cooperação entre os moradores ainda parecem existir: “Eu creio que...é como os clientes mesmo diz assim né, que chega assim aqui e diz: vocês trabalham muito aqui na amizade né, na mão, eu confio em você’, que ainda aqui existe caderneta, ainda...ainda existe caderneta, é na amizade” – entrevistada E6, moradora de São Miguel dos Milagres. A interação entre as pessoas dessas comunidades parece ainda não foi perdida, existindo, assim, de certo modo, uma comunidade, como na concepção de Bauman (2003), que envolve segurança e confiança. Em lugares muito turistificados com base no turismo de massa, os laços de segurança e confiança terminam sendo perdidos, tanto