As atividades vivenciais planejadas pelo pesquisador coletivo foram pensadas para alcançar os alunos do 4º ano do Ensino Fundamental. Essa é uma etapa da vida deles para imersão no mundo da leitura, para grandes descobertas e novas aprendizagens nas viradas de páginas do cotidiano dessas crianças. A EC 05 tem uma biblioteca e os professores tem incentivado o hábito pela leitura, de forma que a escola disponibiliza e empresta livros aos pequenos leitores.
Quando o pesquisador coletivo propôs criar uma trilha às margens do Ribeirão Sobradinho, naquele momento foi pensado criar um circuito que implicasse o grupo com as espécies de árvores presentes no percurso escolhido. Era interesse do grupo saber além do nome popular da espécie de árvore identificada, mas saber, também, o nome regional, o nome científico, a relevância nutricional, o interesse medicinal e o aspecto cultural.
Os alunos haviam estudado o bioma Cerrado, conhecido a sub-bacia do Ribeirão Sobradinho, recolhido lixo e realizado plantio de mudas de árvores num local onde funcionava um lixão. O coletivo da pesquisa queria intensificar a perspectiva de pertencimento em relação à sub-bacia, dessa forma a trilha seria um contato territorial próximo da escola e com grande potencial pedagógico nas discussões sobre ecologia, ecossistemas e biodiversidade.
O grupo pesquisador implicado e interessado pedagogicamente em constituir pontes entre a escola e a realidade da vida do Ribeirão, foi ao encontro de parcerias nas áreas fronteiriças que pudessem cooperar com a criação da trilha, visitando diversas chácaras
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próximas da escola. Foram visitados oito espaços rurais e, em todos, realizado a discussão sobre a criação da trilha, de forma que todos se solidarizaram com a proposta.
Para a criação da trilha, foram envolvidas diretamente três dessas chácaras, com enormes contribuições. Vale destacar que o pesquisador coletivo batizou aquela trilha com o nome de Biblioteca Viva do Cerrado. Uma chacareira determinou livre acesso da EC 05 por todo o espaço da propriedade, isso foi crucial, pois o acesso à Biblioteca ficou definido pelo portão de entrada da chácara.
Os integrantes do coletivo traçaram o circuito da Biblioteca, uma quase elipse, totalizando um trajeto de 680 metros. A cada 50 metros foi colocada uma pequena placa de madeira identificando a posição, de forma que essas placas ajudaram na identificação das espécies de árvores ao longo da Biblioteca. O desenho permitia inicialmente caminhar pela mata pouco densa, mas, à medida que a caminhada avançava, a densidade vegetal aumentava, pura mata fechada quando, de repente, se avistava claridade, era a chegada à margem do Ribeirão Sobradinho (Figuras 72 a 77).
Outro chacareiro das imediações teve um papel importante na identificação das espécies de árvores dispersas ao longo da Biblioteca. Ele foi ao local com o pesquisador para conhecer o percurso, identificando dezenas de espécies: Mata cachorro, Pau pombo, Pindaíba do brejo, Preguiça, Sapoti do Cerrado, Pau pombo, Jamelão, Angélica, Cedro do Cerrado,
Figura 72: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 73: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 74: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 75: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 76: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 77: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
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Macaúba, Almecega, Samambaia Açú, Copaíba, Sangra D’água, Falso jaborandi, Ingá, Milho de grilo, Cipó Malpigi, Embaúba da Mata, Calisteni, Loro Spixiana, Mandiocão do campo.
O próximo encontro de planejamento coletivo serviu para preparar as placas das árvores. A proposta era tratar cada espécie identificada como se fosse um livro. Assim, o grupo cuidou de registrar na placa o nome da árvore (popular, regional e científico), quais animais que se alimentam daquela espécie e as possíveis propriedades medicinais. Então, quando a comunidade visitar a Biblioteca, vai encontrar um conjunto já identificado, de forma que o trabalho para identificar outras espécies vai prosseguir (Figuras 78 a 83).
O trabalho agora era o de organizar a visita dos alunos à Biblioteca. Eles ficaram tomados de muita emoção ao saber que retornariam mais uma vez à sub-bacia, que atravessariam a ponte de 20 metros de comprimento e, a maioria, iria adentrar uma mata fechada pela primeira vez na vida. Eles foram contagiados por pura imaginação, ficaram contando os dias e as horas para conhecer a biblioteca.
O grupo partiu em direção aos 600 metros que separam a EC 5 da ponte do Ribeirão. Após chegar à ponte, o grupo caminhou mais 250 metros até o portão da chácara que dá acesso à biblioteca (Figura 72). Ao chegar à entrada da Biblioteca, foi organizada uma grande roda para orientações e, na sequência, muitas fotos, anotações e observações daquele local que encantou bastante os alunos pela variedade de espécies de todos os tamanhos, cores e beleza sem parâmetros, na visão deles e, em contrapartida, totalmente diferente do outro lado do Ribeirão tomado pelo desmatamento. A perspectiva para os alunos que estudam no 4º ano do Ensino Fundamental era como se estivessem adentrando uma enorme floresta, que no seu interior existiam espécies da fauna escondidos na mata. Essa fantasia que é própria dessa idade contribui para agitar o corpo da criança, explodindo os sentimentos, a imaginação, e enriquecendo a capacidade criadora. Nessa perspectiva, Para Vigotski (2009, p. 23), a imaginação origina-se exatamente do acúmulo de experiência, quanto mais rica é a experiência, mais rica deve ser também a imaginação:
A conclusão pedagógica a que se pode chegar com base nisso consiste na afirmação da necessidade de ampliar a experiência da criança, caso se queira criar bases suficientemente sólidas para a sua atividade de criação. Quanto mais a criança viu, ouviu e vivenciou, mais ela sabe e assimilou; quanto maior a quantidade de elementos da realidade de que ela dispõe em sua experiência – sendo as demais circunstâncias as mesmas -, mais significativa e produtiva será a atividade de sua imaginação.
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O grupo foi adentrando a mata guiado pela novidade, deslumbrado com a paisagem e o canto dos pássaros. Aos poucos foram observando e encontrando as árvores identificadas por aquele chacareiro, cujas placas revelavam as características das espécies (Figuras 81a 83). Quando consideramos que o papel que fabrica livros vem das árvores, que as árvores identificadas têm placas cheias de informações a respeito de suas propriedades sociais, culturais, nutricionais e medicinais, cada uma dessas árvores incorporou funções de um livro. Então, dessa forma, essas árvores são livros que fazem livros vivos.
Figura 78: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 79: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão,
27/09/2017.
Figura 80: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão,
27/09/2017.
Figura 81: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 82: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão, 27/09/2017.
Figura 83: biblioteca viva do cerrado, Ribeirão,
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