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Dewey define dois critérios fundamentais para uma determinada sociedade que se proponha efetivar a democracia: o compartilhamento de interesses e a livre e ampla interação entre seus membros133 já que “a educação variará de acordo com a qualidade da vida que predominar no grupo” (DEWEY, 1959b, p. 87). Por qualidade de vida, compreendemos qualidade das experiências educativas, o que significa a capacidade dessas experiências em promover mais educação, o que se faz pela coerência das relações entre o que é praticado socialmente e a sua valorização social.

Somente com tais critérios em referência é que pode existir e se estabelecer uma sociedade de fato democrática pois, segundo Dewey, democracia significa a possibilidade de participação inteligente de todos os membros de uma sociedade na resolução dos problemas comuns a ela, de forma livre e interativa por todos os membros dos grupos que a constituem134.

Na obra Democracia e educação Dewey realiza ao mesmo tempo o esclarecimento do significado e dos elementos constitutivos da democracia bem como a possibilidade de efetivação desta pela participação inteligente - e não apenas participação - de todos os seres humanos numa sociedade democrática. Por isso

[...] A explicação superficial é que um governo que se funda no sufrágio popular não pode ser eficiente se aqueles que o elegem e lhe obedecem não forem convenientemente educados. Uma vez que a sociedade democrática repudia o princípio da autoridade externa, deve dar-lhe como substitutos a aceitação e o interesse voluntários, e unicamente a educação pode criá-los. Mas há uma explicação mais profunda. Uma democracia é mais do que uma forma de governo: é, principalmente, uma forma de vida associada, de experiência conjunta e mutuamente comunicada [...] (Ibidem, p. 93).

Diferentemente das comunidades que contradizem seus valores sociais com práticas opostas aos mesmos, por exemplo, aquelas que desejam impor a democracia como prática (como praticado pelos EUA a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com o financiamento de ditaduras que defendiam a liberdade e a democracia fora dos

132 Cf. 1959b, pp. 254-304. 133 Cf. Ibidem.

102 territórios estadunidenses), em Dewey a identificação dos dois critérios fundamentais - interesse comum e livre interação - a uma sociedade democrática se relaciona com o fato de que a educação pressupõe vida em grupo (vida comunitária, vida em sociedade), compartilhamento de informações (comunicação), experiências entre seus membros (interação e continuidade) e valorização de determinados hábitos socialmente construídos (estabelecidos por esses mesmos caminhos de comunidade, comunicação, interação e continuidade social).

Em outras palavras, em Dewey vida associada onde todos se comunicam livremente e participam igualmente das questões inerentes ao grupo fundamenta a defesa da democracia como ideia, como teoria e crença pois fundamenta-se na prática, na vivencia dessa ideia.

Portanto, não há para Dewey a separação entre a prática de determinado comportamento e sua valorização a fim de que o mesmo se estabeleça efetivamente numa sociedade (consolidação de um hábito e não apenas sua valorização teórica). Prática e teoria como resultantes da construção de valores numa sociedade democrática não devem se separar ou se contrariarem, mas se construírem juntas através da livre interação de seus membros que, na resolução inteligente de seus problemas compartilham de interesses e constroem a sociedade, conservando-a e transformando- a135.

O autor apresenta os critérios do comum compartilhamento de interesses e da livre interação como referências da prática de vida democrática e de construção dos valores da democracia, para que dessa forma uma determinada sociedade que se proponha democrática se realize exatamente por práticas democráticas, que por sua vez valorizem e consolidem o conceito e a prática efetiva da democracia.

Com esses dois critérios apresentados, Dewey segue aprofundando-se no esclarecimento de uma sociedade democrática medindo o quão intensos podem ser os interesses compartilhados e as interações entre os seus membros. Após alguns exemplos, o autor indica que quanto mais claros e numerosos interesses comuns e interações livres existirem entre os constituidores de um dado grupo social, mais democráticas serão suas práticas e consequentemente seus valores. Assim

[...] Para terem numerosos valores comuns todos os membros da sociedade devem dispor de oportunidades iguais para aquele mútuo dar e receber [...] a experiência de cada uma das partes perde em significação quando não existe o livre entrelaçamento das várias atividades da vida. Uma separação entre a classe privilegiada e a classe

135 Cf. DEWEY, 1959b.

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submetida impede a endosmose social. [...] A falta do livre e razoável intercâmbio que promana de vários interesses compartidos desequilibra o livre jogo dos estímulos intelectuais. Variedade de estímulos significa novidade e novidade significa desafio e provocação à pesquisa e pensamento. Quanto mais as atividades se restringem a umas tantas linhas definidas - como sucede quando as divisões de classes impedem a mútua comunicação das experiências - mais tendem a se converter em rotina para a classe de condição menos favorecida, e a se tornar caprichosas, impulsivas e sem objetivos para a classe em boa situação material [...] (DEWEY, 1959b, pp. 90-91).

Desta maneira o autor vai ampliando a sua percepção de que, como dito, nossa sociedade ocidental não é de fato democrática e essa democracia poderá ser conquistada a partir do mais intenso compartilhamento de interesses de um grupo social, por sua vez estimulados pela livre interação entre seus membros. Nesse aberto intercâmbio sociocultural está, por exemplo, a origem dos momentos históricos humanos de maior avanço técnico-científico, já que “toda a época de expansão na história da humanidade coincidiu com a atuação de fatores que tenderam a eliminar o afastamento entre povos e classes que dantes viviam isolados” (Ibidem, p. 92).

É no entendimento de que grande parte dos avanços intelectuais, tecnológicos e materiais feitos pelas sociedades humanas ao longo de sua história surgem com o aumento das livres interações, dos interesses compartilhados e com a diminuição drástica dos isolamentos sociais que Dewey destaca o grande avanço necessário para que a ciência se torne muito mais eficiente: “A principal oportunidade para a eficácia da ciência será a descoberta das relações do homem com seu trabalho [..] para que o trabalhador ponha o seu interesse inteligente naquilo que estiver fazendo” (Ibidem, p. 91).

Ou seja, ditos os dois critérios basilares de uma sociedade democrática, necessita-se promover a participação inteligente de todos os seus membros pois, de acordo com Dewey, isso possibilita a resolução de problemas comuns a partir da reflexão desses, promovendo de fato o compartilhamento de interesses comuns e a livre interação.

Fica claro que para o autor uma eficaz democracia exige, além da participação livre de todos os membros e de sua também aberta e liberta comunicação, a participação reflexiva e não apenas reprodutora e mecânica dos seus membros. Isso porque o indivíduo deve compreender a importância de sua atuação individual e exclusiva em benefício da sociedade, e, por conseguinte, de si mesmo e da natureza.

Democracia para Dewey significa, portanto, compartilhamento de interesses e livre participação psicológico-social pelo uso da inteligência. Ligada ao seu significado político, a concepção de democracia em Dewey é ampliada pelo autor, através do

104 reconhecimento desta na natureza, pelo instrumento democrático que a possibilita (a inteligência) e pela sua origem na dependência cooperativa da sociedade e do ser humano136.