1.3.1 Diálogo como formador de identidade
Segundo Paulo Freire “o diálogo pertence à natureza do ser humano” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 14). É a capacidade de nos relacionarmos, de comunicar, de interagir, o que nos torna humanos. Mas, não pode existir o diálogo se não existe outra pessoa com a qual dialogar. É, então, graças à existência do outro com o qual dialogamos que nós existimos como humanos. Como afirma Mikhail Bakhtin (2010, p. 292): “Somente na comunicação, na interação do homem com o homem revela-se o ‘homem no homem’ para outros ou para si mesmo”.
Portanto, é no diálogo que nos tornamos sujeitos. É na interação com o outro que formamos e negociamos nossa identidade e, ao mesmo tempo, os outros se tornam sujeitos graças à interação conosco (ALEJOS, 2006; BUBNOVA, 2006).
Para Kogan e Tubino (2001, p. 58) existe uma identidade primária que é o “potencial humano universal” e identidades secundárias, tais como “etnicidade, gênero ou raça”. Mas, segundo os autores, existe um vínculo muito estreito entre ambas. Portanto, continuam, o respeito pela identidade primária (humanidade) passa inevitavelmente pelo respeito das identidades secundárias, ou seja, pelas diferenças, que são construções culturais.
Nossa identidade é formada por múltiplos elementos dinâmicos que vamos adquirindo na vida, enquanto outros desaparecem, cobram protagonismo ou ficam em um segundo plano. Segundo Amin Maalouf (2007, p. 18-19), “todas as experiências e sentidos que damos aos diferentes aspectos da nossa vida (religião, língua, atividade laboral, etc.) configuram nossa identidade. Mas esta muda no tempo, de acordo com nossas próprias vivências”. Nesse sentido, existiria uma identidade comum e imutável nos seres humanos que é, justamente, sua condição humana, e existiriam identidades secundárias ou elementos da identidade flexíveis e mutáveis, que se modificam e se configuram através do diálogo com o outro.
Para poder realizar o diálogo, particularmente no contexto intercultural, por um lado é importante nos conhecermos, termos consciência dos nossos códigos culturais (RODRIGO, 1997, p. 17), e por outro, é no contato com o outro, com aquele que é diferente de nós, que formamos nossas identidades. Para isso devemos estar dispostos a mudar nossos pressupostos na relação dialógica e ter a vontade de, neste contato “nos re-conhecermos” para “re-construir nossas identidades” (RODRIGO, 1997, p. 19).
1.3.2 Conhecendo o outro no diálogo. Encontro de sujeitos
Para que exista o diálogo não é suficiente a interação de duas ou mais pessoas. Se uma delas possui uma atitude autoritária sobre a outra, então o diálogo desaparece, porque está se retirando a condição de sujeito daquela pessoa. Para que exista diálogo, portanto, deve existir respeito, confiança e cooperação (SCHWARZIN; WALS, 2012, p. 16). Já que o diálogo se refere à “interação de dois ou mais logos, cada um deles com seus próprios valores, volições e posicionamentos” (ALEJOS, 2006, p. 49), posso não concordar com o outro, posso inclusive
ter uma opinião diametralmente contrária à do outro ou considerar que o discurso do outro é errado. A diferença de pensamentos é fundamental tanto para o diálogo quanto para a formação da sociedade (FIORIN, 2010, p. 118). Se todos concordam com todos, não existe troca de ideias e, portanto, não existe diálogo.
Porém, uma condição básica para que o diálogo possa ser realizado é ter a consciência de que todas as pessoas têm direito de dizer as palavras e de que ninguém tem o direito de pronunciar o mundo pelo outro. Se existe esta consciência, então pode existir uma troca entre sujeitos. Uma troca sobre o mundo, uma troca com o mundo. Em palavras de Freire (2005, p. 91), “Porque é encontro de homens que pronunciam o mundo, não deve ser doação do pronunciar de uns a outros”.
Não devemos, portanto, entender o diálogo só como uma troca de ideias e conceitos. O diálogo é um “intercâmbio de experiências autênticas de vida” (AVILA; MARTINEZ, 2009, p. 12) que é racional e emocional. “A atitude do diálogo envolve a totalidade da pessoa, pois não dialogam só os intelectos, também dialogam as sensibilidades, os afetos e os silêncios” (TUBINO, 2003b, p. 174). Este elemento é particularmente relevante na busca por um diálogo intercultural.
Para isto, devemos procurar gerar um reconhecimento do outro, o que implica compreensão do outro, e a capacidade de ver o mundo com os olhos do outro. Isto requer tanto um esforço racional quanto afetivo, conduzido pela empatia, a qual não pode existir com aquilo que a priori menosprezamos (KOGAN; TUBINO, 2001, p. 59).
O conhecimento do outro está relacionado, para começar, com aceitar que nossa imagem dos outros e das outras culturas é condicionada por nossos próprios princípios culturais, nossos critérios. Isto é, percebemos o outro desde nossos pressupostos. O fato de aceitar que temos pressupostos nas nossas vidas permitirá que possamos nos abrir ao diálogo, à atitude de escuta. Dito de outra forma, quando não conhecemos algo, ou alguém, nossa tendência natural é nos guiarmos por estereótipos que constituem uma simplificação da realidade (RODRIGO, 1997, p. 17). É muito fácil que, tanto o pressuposto quanto o estereótipo se transformem em preconceitos e, inclusive, constituam princípios para a discriminação, que é uma atitude que pode ser percebida como contrária à interculturalidade.
1.3.3 Diálogo intercultural
A princípio, o diálogo intercultural só se diferencia de qualquer outro diálogo porque é realizado por pessoas de culturas diferentes. Porém, este fato faz com que devamos levar uma série de considerações para que a experiência de diálogo não seja frustrante. Para começar, como afirma Miquel Rodrigo (1997, p. 14), “é necessário estarmos preparados para possíveis mal-entendidos. […] Uma comunicação é eficaz quando se chega em um nível de compreensão aceitável para os interlocutores”. Quando não compartilhamos estruturas básicas para a comunicação, como língua ou valores, as condições desta comunicação podem ser muito duras. Por isso, é útil levar em conta alguns princípios, desenvolvidos por Escofier e apresentados por Rodrigo (1997, p. 19), que podem nos ajudar para que este diálogo seja mais eficiente:
1. Nada é imutável. Ao se iniciar um diálogo, deve-se estar potencialmente aberto à mudança. 2. Não existem posições universais. Tudo pode ser criticado. 3. Deve-se aprender a aceitar o conflito e a possibilidade de que se magoem os sentimentos. 4. Há certa perversidade na história que têm nos ensinado. Nossas identidades têm se formado em oposição à dos outros. 5. Nada está fechado. Qualquer tema pode sempre reabrir-se.
Neste diálogo é importante ser crítico tanto com a posição do outro quanto com a nossa própria. Neste sentido, devemos levar em conta as relações de poder que se estabelecem nos contatos interculturais. Porque não pode se estabelecer um diálogo verdadeiro em situações de intransigência ou de discriminação. Situações, estas, profundamente arraigadas em nossa sociedade (RODRIGO, 1997; TUBINO, 2008).