Buscando o aprofundamento, olharemos para os MiT contidos nos “temas económicos e relacionados a gestão do Estado”, observando a presença proporcional de cada um deles, nos dois períodos de campanha analisados, e, sequencialmente, estabelecendo comparações entre os dois períodos. Posteriormente realizaremos o mesmo exercício com os MiT contidos nos “temas morais e socialmente conflituais”.
57 O MaT “temas económicos e relacionados a gestão do Estado” foi dividido em: “política externa”; “desenvolvimento económico”; “infraestrutura e sustentabilidade”; “política social e geração de renda”; “saúde”; “segurança”; “governabilidade e combate à corrupção”; “cultura”; “educação”; e “temas múltiplos” (publicações contendo mais de um tema apreciável dentro do MaT) .
Na primeira volta o número de publicações e suas respectivas presenças proporcionais foram: “política externa” (10 publicações - 17,54%); “desenvolvimento económico”(16 publicações – 28,07%); “infraestrutura e sustentabilidade” (4 publicações – 7,01%); “política social e geração de renda”(5 publicações – 8,77%); “saúde” (1 publicações – 1,75%) ; “segurança” (2 publicações – 3,50%) ; “governabilidade e combate à corrupção” (3 publicações – 5,26%); “cultura” (3 publicações – 3,26%); “educação” (10 publicações – 17,54%); “temas múltiplos” (3 publicações – 5,26%). Os dados sistematizados podem ser observados nos arquivos anexos E e L .
Na segunda volta o número de publicações e suas respectivas presenças proporcionais foram: “política externa” (6 publicações – 9,67%); “desenvolvimento económico”(11 publicações – 17,74%); “infraestrutura e sustentabilidade” (4 publicações – 6,45%); “política social e geração de renda”(2 publicações – 3,22%); “saúde” (2 publicações – 3,22%) ; “segurança” (9 publicações – 14,51%) ; “governabilidade e combate à corrupção” (10 publicações – 16,12%); “cultura” ( 0 publicações – 0%); “educação” (8 publicações – 12,90%); “temas múltiplos” (10 publicações – 16,12%). Os dados sistematizados podem ser observados nos arquivos anexos F e M.
Chama atenção a concentração de publicações, na primeira volta, classificadas como “política externa”, “desenvolvimento económico” e “educação”, sendo estas as únicas categorias que ultrapassaram os 10% de publicações no período e que, somadas, correspondem a mais da metade das publicações condicionadas aos “temas econômicos e relativos a gestão do Estado”, com 63,04% das publicações.
Já na segunda volta, registra-se uma menor concentração nos MiT publicados – ainda que não tenha havido qualquer menção especificamente à política de cultura a esta altura do processo eleitoral – sugerindo assim uma maior diversidade de assuntos compreendidos como “temas econômicos e relativos a gestão do Estado” neste turno, ultrapassando os 10% de publicações nos microtipos “desenvolvimento económico”, “segurança”, “governabilidade e combate à corrupção”, “educação” e “temas múltiplos”, somando entre estes cinco MiT, 77,39% das publicações.
Observando a movimentação da concentração de publicações entre as duas voltas (arquivo anexo N), nota-se uma constância maior nos MiT “desenvolvimento económico” e “educação”, áreas que aparecem com destaque no programa de governo do candidato, como vimos no terceiro capítulo desta dissertação, a primeira como a área mais propositiva e com uma consistência técnica e programática mais sólida, enquanto a segunda revela um agudo discurso propagandístico antiesquerda. Já os demais MiT aparentam ter uma maior mobilidade de acordo com o tempo e o contexto específico de cada etapa da
58 campanha eleitoral, como no caso do microtipo “cultura”, que sequer é referido no programa de governo, mais foi mencionado pelo candidato no Twitter após o incêndio do Museu Nacional do Brasil, ocorrido na noite do dia de dois de setembro de 2018, forçando uma posição pública sobre o assunto.
Ainda que sem a profundidade da ACD, percebe-se que, por mais que a publicação faça referência a temas relacionados com a gestão do Estado e reverberem em alguma medida o estado da economia e por isto esteja classificada no MaT “temas económicos e relacionados a gestão do Estado”, estas, em boa medida, não se distanciam da busca do conflito como estratégia política.
Em “política externa” as publicações, na primeira volta, estão centradas em indicar a suposta relação de apoio entre os governos petistas e os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela, e com outras “ditaduras amigas”, afirmando que cortará relações com estas, além de polarizar com a ONU, afirmando que “já teria retirado o Brasil do conselho do ONU”, por “estarem ao lado de tudo que não presta”; na segunda volta, referem-se, principalmente, a trocar gratulações com líderes mundiais de direita ou extrema-direita, como Matteo Salvani, Vice Primeiro-Ministro da Itália e Ministro do Interior, e o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, além de se comprometer com a extradição, para o Estado italiano, do “terrorista Cesare Battisti, amato dalla sinistra brasiliana”.
Em “política social e geração de renda”, na primeira e segunda voltas, o centro está em afirmar que vai combater supostas fraudes no programa Bolsa-Família – uma marca importante da gestão petista, como vimos no capítulo dois desta dissertação – indicando que “além de manter, poderemos ampliar o Bolsa Família”, e romper com a lógica do programa, “usado pela esquerda como voto de cabresto”. Em “segurança”, nas duas voltas, há uma predileção por afirmar que segurança é prioridade e que “pegará firme” contra os malfeitores, contrapondo-se a políticas de redução da massa carcerária brasileira e de direitos humanos, sugerindo que seus adversários, especialmente do PT, querem soltar e defender bandidos.
Em “educação”, os “conflitos” se concentram na primeira volta, fazendo referência a uma suposta doutrinação ideológica da esquerda, ausência de disciplina e autoridade em sala de aula e menções a desvios na merenda escolar, em referência indireta ao candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, acusado em participar de um esquema de desvio de verbas da merenda escolar do governo de São Paulo.
Já em relação a Saúde e Cultura, os aspectos conflitantes estão relacionados, no primeiro caso, à ideia de que o orçamento na área de saúde só não é suficiente por conta da corrupção e indicações políticas na pasta e que os profissionais do programa “Mais Médicos”, implementado no governo de Dilma Rousseff (PT), teriam uma baixa qualificação. No quesito Cultura, afirma-se que o incêndio do Museu Nacional seria consequência de indicações políticas e má administração pública e que o incentivo para cultura continuará, “mas para bons artistas que agreguem valor, que estão iniciando suas carreiras e não possuem estrutura” e que não permitirá a utilização de dinheiro público em “absurdos como oficinas de masturbação ou "peças" com pessoas cutucando seus orifícios!”.
59 Evidencia-se, no entanto, que as publicações classificadas nos MiT “desenvolvimento económico”, “infraestrutura e sustentabilidade”, “governabilidade e combate a corrupção” e “educação” (na segunda volta) apresentaram, de forma geral, características mais propositivas e analíticas sobre os referidos temas. Já os “temas múltiplos” apresentam uma espécie de resumo do que representa o programa defendido por Bolsonaro, por vezes propositivos, frequentemente conflitantes, ainda que estabeleçam referência direta à gestão do Estado.