3. RESULTS AND DISCUSSION
3.2 M OISTURE CONTENT WITH VENTILATED AIR CAVITY
3.2.1. Ventilated air cavity
Seria ademais interessante tratar de reconhecer, com Bakhtin, quais outras características, além do aspecto fundamental de responsividade, situam o enunciado nesse plano metalingüístico em que a comunicação discursiva “acontece” (ao contrário da palavra e da sentença que apenas “estruturam”, inexpressivamente, um sistema “lingüístico”). E em especial, as características que são relevantes para a prática da tradução.
A principal delas, ligada ao que Bakhtin chama de “elemento expressivo” do enunciado é sua a “entonação expressiva”. “A entonação expressiva é um traço constitutivo do enunciado, um dos meios de expressão da relação emocionalmente valorativa do falante com o objeto de sua fala21.” (Bakhtin, 2003c, pp. 289, 290). E
muito embora
a entonação expressiva perten[ça] aqui ao enunciado e não à palavra [...],
ainda assim é muito difícil abrir mão da convicção de que [ademais] cada palavra
da língua tem ou pode ter por si mesma ‘um tom emocional’, ‘um colorido
emocional’, ‘um elemento axiológico’, uma ‘auréola estilística’, etc. e, por conseguinte, uma entonação específica enquanto palavra. (id., p, 291).
Ou, de forma mais dialógica, “as palavras podem entrar no nosso discurso a partir de enunciações individuais alheias, mantendo em menor ou maior grau os tons
e ecos dessas enunciações individuais”. (id., p. 293, grifos meus).
Compare-se ademais as duas citações que apresentamos a seguir. Uma é a ilustração que Rosenzweig dá para o entendimento da “organização do ritmo” da colometria que já mencionamos no Cap.2 (sec. 8, pp. 57-58) e discutiremos mais adiante no Cap. 6. A outra é uma citação de Volochínov que os editores russos de “Gêneros do Discurso” julgaram importante incluir numa nota à noção de “entonação do enunciado” constante do texto de Bakhtin:
Rosenzweig:
21 Note-se aqui um aspecto fundamental que diferencia o enunciado da sentença, o metalingüístico do
lingüístico, mas que de tão básico que chega a passar despercebido. Trata-se do fato de que sempre
existem relações entre o enunciado e o autor da enunciação. São elas que operacionalizam essas
“correias de transmissão entre a linguagem e a história” que são os enunciados, segundo Bakhtin (id., p. 268). No caso da citação acima estamos no campo específico da “relação emocionalmente valorativa”.
O aparente ‘cantado’ [singsong] no estudo do Talmud, i. e., a definição [setting]
musical da sentença ao ser lida, define o seu [de sentença] entendimento lógico; da mesma forma Hermann Cohen ‘definia’ sentenças difíceis de Platão e Kant ao lê-las em voz alta. (Rosenzweig, 1925, in Buber e Rosenzweig, 1994, p. 44, grifos meus).
Volochínov:
A entonação está sempre na fronteira do verbal e do não verbal, do dito e
do não dito. na entonação, a palavra contata imediatamente com a vida.
[...] É precisamente este ‘tom’ (entonação) que faz a música (sentido geral,
significado geral) de todo o enunciado. (Volochínov, apud Bakhtin, 2003, “Notas
[dos editores]” p. 449, itálicos de Volochínov, negritos meus).
Tudo isso ajuda a elucidar o que está ocorrendo quando no nível micro da tradução dialógica se dá atenção à “repetição” (de palavras na técnica das Leitwörter). Ou à “entonação” e “acentuação” (de palavras e frases “lineadas” na técnica da colometria), e mesmo à “conotação” (em ambas Leitwörter e colometria). Isso porque essas são noções (p. ex., entonação, acentuação) que surgem tanto na discussão das técnicas de tradução de Buber e Rosenzweig (vide sec. 6 acima e Cap 2, sec. 8, pp. 56-57), quanto no reconhecimento, por Bakhtin, das características metalingüísticas que fazem do enunciado o instrumento da concatenação língua-vida.
Com isso se vislumbra o vínculo construtivo que há entre essas técnicas que operam no “nível micro da tradução dialógica” (Cap. 2, seção 5, p. 49), e o “nível meso”22 do metalingüístico. Enunciados metalingüísticos cuja característica maior é
a responsividade é que devem, bem mais do que as meras sentenças lingüísticas, compor o “produto final”. Assim, o enunciado bakhtiniano ficará preservado na “vida” da enunciação traduzida sempre que essas técnicas são aplicadas de forma bem sucedida23.
Finalmente, e sobretudo, com isso se desvenda o que está fazendo—no nível metalingüístico de Bakhtin, o nível da “língua na vida”—o tradutor dialógico bem sucedido (no caso, Buber e Rosenzweig).
Está traduzindo a enunciação.
22 Vide nota 20 acima. Já aqui o movimento é bottom-up, do “nível micro” ao “nível meso”. Assim,
tudo se “resolve” no (ou se reduz e se resume ao) nível metalingüístico da enunciação bakhtiniana.
23 Além da “entonação expressiva” que discutimos acima, outras características do enunciado bakhtiniano
poderiam ser utilizadas para uma maior explicitação do que ocorre na tradução dialógica. Dentre elas podemos citar o “direcionamento” e o “endereçamento” do enunciado. A condução seria bastante similar à do caso da “entonação” acima apresentado: o reconhecimento de técnicas de tradução que buscam preservar determinada característica do enunciado na língua de chegada.
9. EM CONCLUSÃO
Bakhtin e Rosenzweig estão, portanto, por tudo o que vimos, bem mais próximos do que normalmente se reconhece e esse é um fato que merece ser aqui bastante ressaltado.
Para o que nos ocupa, essa proximidade autorizou-nos a utilização do ferramental teórico de Bakhtin para o entendimento de Rosenzweig. Isso permitiu-nos o passo do teológico ao (meta)lingüístico, “dessacralizando” a noção de uma “Revelação” que, presente no texto de partida, precisa ser preservada no texto de chegada: aquilo que, no texto, faz da sentença um enunciado (bakhtiniano)—sua respondibilidade, sua entonação expressiva e outras características que Bakhtin define e descreve—, é o que, na tradução, deve-se tratar de preservar.
A forma como as técnicas de tradução de Buber-Rosenzweig efetivam a preservação dessa “enunciação” foram, neste capítulo, apenas delineadas e serão objeto de uma consideração mais detalhada nos capítulos 5 e 6, onde poremos Rosenzweig em diálogos de inter-iluminação com Benjamin e Meschonnic, respectivamente.
Antes disso, porém, devemos no próximo capítulo considerar o speech thinking / pensamento gramático de Rosenzweig e o linguistic turn em que essa filosofia se insere. À parte o aprofundamento no speech thinking, isso nos permitirá promover uma segunda—e necessária—dessacralização: a da própria noção de sagrado.
CAPÍtULO 4
lINGUISTIC rETUrN
...pode-se então imaginar um artista simplesmente por um ano? Não seria uma contradição lógica (alguns diriam gramatical), como no exemplo citado por Stanley Cavell a propósito do julgamento estético, em que repete a pergunta de Wittgenstein: ‘Será possível sentir um anseio ou um amor ardente durante o espaço de um segundo, seja qual for o que antecede ou o que se segue a este instante?’.
Rosalind Krauss, 1990, grifos meus. (trad. Anne Marie Davée, 2002)
1. INtRODUçÃO
O presente capítulo examina a tradição na qual a filosofia de Rosenzweig se insere e aprofunda a análise do speech-thinking, considerando em especial a forma como opera o “pensamento gramático” e fazendo um confronto entre a visão de realidade desse pensamento e a do pensamento lógico-racional do mainstream da filosofia.
Isso nos propiciará a necessária dessacralização da noção de “sagrado” (vide Cap. 2 p. 58) que será trazida para o nível do lingüístico, assim como o fizemos no capítulo anterior para a noção teológica de “Revelação”. Além disso, a noção básica da filosofia da linguagem de Rosenzweig, a “palavra que obtém resposta”, será derivada a partir do pensamento gramático em A Estrela. Finalmente, a dicotomia “divino- humano versus inter-humano” que no Cap. 1 reconhecemos na obra de Rosenzweig, será neste capítulo desfeita a partir do próprio Rosenzweig.
As seções 2 e 3 examinam a origem e os percalços de uma tradição que após viger na Antigüidade permaneceu subterrânea por vinte e cinco séculos, e segundo a qual a fala tem precedência sobre o pensamento. A partir daí, e do texto de o “Novo Pensamento” de Rosenzweig, a seção 4 trata de reconhecer a onipresença, nos tempos atuais, de uma pouco percebida noção de “sagrado” que é despida do teológico e opera no nível do lingüístico. A seção 5 inicia então o confronto entre o speech thinking e o mainstream da filosofia, examinando algo que é, sob a ótica do mainstream, um paradoxo irresolvido: a canonicidade do Cântico dos Cânticos.
Para Rosenzweig, bem ao contrário, o Cântico é central e indispensável na Bíblia. Para ele o Cântico é “o livro focal da Revelação”, como vai descrito na seção 6, que, no entanto, ainda não desvenda as razões de Rosenzweig. No caminho desse desvendamento, a seção 7 examina alguns dos trechos mais centrais e dialógicos de A
Estrela da Redenção, nos quais o pensamento gramático é aplicado por Rosenzweig.
Dentre eles está o da derivação da noção central de sua filosofia da linguagem: palavra
Cântico. Sua argumentação inclui o desfazimento da dicotomia “comunicação divino- humana versus inter-humana” que nos incomoda desde o Cap. 1. A seção 9 resume as conclusões deste capítulo e envia ao próximo.