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Velocities defined relative to the mean

6. PROBLEMS IN FIELD MEASUREMENTS

6.1. Velocities defined relative to the mean

esquadrias de portas e janelas da casa são de madeira, com solução de treliças muxarabis, trilhos de correr pela face externa das alvenarias e folhas de abrir em madeira e vidro no eixo, o que resulta em vão-luz pleno. A treliça muxarabi é um recurso que remete à arquitetura colonial brasileira, uma herança da cultura árabe,546 que Lina Bo incorporará a seu repertório arquitetônico em projetos futuros como o SESC-Pompeia, 1977 e Capela Santa Maria dos Anjos, 1978. A Casa Valéria Cirel, com seus materiais e vegetação abundante, tem expressão forte, opaca e mimética em relação à paisagem natural, neste sentido, diferente da relação arquitetura-natureza da Casa de Vidro.

29 - Casa Valéria Cirell, detalhe gárgula. Foto: Márcio Reis

Em 2010, constatamos que a proposta da Casa Valéria Cirell sofreu alterações. Ela foi reformada pelo arquiteto Ricardo Ramezoni, quando foram construídas novas suítes onde seriam as dependências de empregada bem como um novo bloco para os alojamentos dos funcionários, e o mezanino deixou de ter a função de dormitório para se transformar em sala de estar. O espelho d’água foi transformado em piscina. O alpendre com cobertura em sapé foi substituído por cobertura de telhas cerâmicas, os pilares em troncos de madeira foram mantidos e o piso foi substituido por deck de madeira regular com aplicação de resina brilhante. Os pisos da escada helicoidal [Fig.30] foram revestidos em carpete 10mm, igual tratamento aplicado no piso do mezanino. O imóvel foi valorizado, com o acréscimo de área e a piscina, e elevado à categoria dos vizinhos de bairro. Apesar dos proprietários ainda julgarem estar mantendo a casa como importante obra da arquitetura, suas

545 Como em algumas taipas executadas com agregados graúdos, especialmente executadas em São Luis, Maranhão.

546 Segundo o Dicionário da arquitetura Brasileira: “Muxarabi: Nome que de uma maneira geral se dá ao anteparo perfurado colocado na frente de uma janela ou

na extremidade de uma saliência abalcoada, com fito de obter sombra e de se poder olhar para o exterior sem se observado. Na quase totalidade das vezes tais anteparos perfurados eram consitutídos de um xadrez de fasquias de madeira [...] Os muxarabis constituem uma das marcantes testemunhas da influência árabe na arquitetura ibérica transplantadas para o Brasil Colonial.” Cf. CORONA, E.; LEMOS, C.A.C. Dicionário da arquitetura brasileira. 2ª. Ed.São Paulo:

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necessidades programáticas descaracterizaram a casa em sua essência de arquitetura pobre. A Casa Valéria Cirell perdeu sua áura547 e é provável que deixe de existir pois o imóvel estava à venda.

30 - Casa Valéria Cirell, detalhe escada Foto Márcio Reis

Em relação ao contexto da arquitetura brasileira, a Casa Valéria Cirell não segue a denominada “grande-arquitetura-oficial-brasileira-moderna”, que adota a técnica construtiva mais avançada, especialmente o uso do concreto armado, cujo exemplo máximo são os edificios da nascente Brasília. A Casa Valéria Cirell, ao contrário, está mais próxima das pesquisas da arquitetura tradicional brasileira de L. Costa, dos anos 1930, quando escreveu “Documentação Necessária”.548 Em 1937, L. Costa propôs, na Vila Monlevade, o uso de pilotis, laje de concreto e vedos de “barro-armado”, este “devidamente aperfeiçoado quanto à nitidez do acabamento, graças ao emprego de madeira aparelhada, além da indispensável caiação”549; e, em 1940, L.Costa projetou o Park Hotel de Friburgo550, utilizando troncos de madeira bruta, pedras e telhado, exemplos de sua prática, que integrou modernidade e tradição brasileira. Em 1978, L.Costa surpreendeu ao retornar às origens, projetando o “risco da casa” em estrutura de troncos de madeira, taipa-de-mão e cobertura de sapé, para o poeta Thiago de Mello: “Finalmente, numa como que volta às origens, dei o risco da casa que, em

547 Aura conforme concepção de Walter Benjamim.

548 COSTA, Lúcio. Lúcio Costa: sobre arquitetura. org. Alberto Xavier, 2ª ed. Porto Alegre: UniRitter Ed., 2007, p. 86. 549 Ibidem, p. 43.

550 Segundo Yves Bruand: ”Estamos, portanto, frente a um perfeito exemplo da aplicação das teorias de Lúcio Costa, partidário convicto de um racionalismo sem

ambiguidades, mas sem rigidez, adaptado ao meio e às cincunstâncias “. Cf. BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva,

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Barreirinhas, no coração da Amazônia, o poeta nativo constrói com zelo e amor”.551 Esta casa projetada pelo representante maior da arquitetura moderna brasileira, poderia estar incluída na linha da “arquitetura marginal”, definida por Joaquim Guedes no seminário IAB-RJ, em 1976-77:

“[...] Acho que o panorama da arquitetura erudita, no Brasil, hoje, é baixo [...] Por outro lado, existe uma obra importante que vem crescendo no Brasil, mas que tem toda a característica de obra marginal. É obra marginal, quase obra maldita, dado a excessiva importância do peso histórico oficial que tem a chamada grande-arquitetura-oficial-brasileira-

moderna. Como este é o caminho o resto é marginal.”552

Em relação ao contexto da Arquitetura Paulista, a Casa Valéria Cirell pode ser considerada divergente em relação a obras projetos contemporâneos como a Casa Castor Delgado Perez, de R.Levi, Roberto C. Cesar e Luis R.C.Franco, com pátio interno integrando jardim à sala de estar e volumes em cor branca contrastando “com a da vegetação e com a parede de tijolos furados”553. Na

Casa Valéria Cirell, o jardim está integrado à construção através da vegetação que nasce nos sulcos das paredes externas. Também em relação à casa Cunha Lima, de J. Guedes, considerada obra inicial da tendência Brutalista554, premiada na VIII Bienal Internacional de São Paulo de 1965555, e um

paradigma conforme análise de Mônica Junqueira de Camargo: “Guedes propôs, numa atitude

orgânica, um conceito estrutural inovador para o concreto aparente em residências, que acabou por se constituir num paradigma para sucessivas gerações de arquitetos”556, com panos de alvenaria

revestidos e demarcados com juntas de dilatação para enfatizar a separação da estrutura de concreto aparente. Na Casa Valéria Cirell, ao contrário da Casa Cunha Lima, as alvenarias e os pilares de concreto são revestidos sem distinção. Em relação à Casa dos Triângulos, de J. Artigas, exemplar que “participa de uma série de construções similares em que o arquiteto demonstra sua versatilidade”557, diz

o próprio autor que seria: “a contribuição que eu pude dar para a história da forma na nossa arquitetura, foi com essa casa”558, e que, segundo Lina Bo, “não é ‘vistosa’, nem se impõe por uma aparência de

modernidade”559 a Casa Valéria Cirell se difere desta, no que diz respeito à “harmônica continuidade de

551 COSTA, op. cit. p. 20 e p. 229.

552GUEDES, Joaquim. Depoimento. In. MAGALHÃES, S.F. Arquitetura brasileira após Brasília. Rio de Janeiro: Edição IAB-RJ, 1977, p. 213.(grifo nosso) 553 CORONA, E.; LEMOS, C.; XAVIER, A. Arquitetura moderna paulistana. São Paulo: Pini, 1983, p. 49.

554 Segundo R. Zein, as s obras inaugurais da Escola Paulista Bratailista são: Igreja de Vila Madalena, 1956, de Joaquim Guedes, projeto vencedor do concurso em 1955; Clube Atlético Paulistano, 1958, de Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Genaro e a Casa Cunha Lima, 1958, de Joaquim Guedes, Premiada na categoria habitação individual da VIII Bienal Internacional de São Paulo, de 1965. Conforme site www.arquiteturabrutalista.com.br, visitado em 07/04/2012. 555 Sobre a obra de Joaquim Guedes ver: CAMARGO, Mônica Junqueira de. Joaquim Guedes. São Paulo: Cosac Naify Edições, 2000.

556 CAMARGO, Mônica Junqueira de. Joaquim Guedes. São Paulo, Cosac & Naify Edições, 2000, p. 20. 557 CORONA, E.; LEMOS, C.; XAVIER, op. cit. p. 47.

558 ARTIGAS, João Batista Vilanova. Vilanova Artigas: arquitetos brasileiros. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi: Fundação Vilanova Artigas, 1997, p. 78. 559 BARDI, Lina Bo. Casas de Vilanova Artigas. Revista Habitat, São Paulo, n°.1, out.dez., p.2-16, 1950.

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espaço” a qual seria obtida por “meios límpidos, claríssimos” de “tão pouca intimidade”560, pois ao contrário casa de J.Artigas, há um contraste explícito entre o exterior opaco e o interior claro, e a intimidade é proporcionada tanto pela luz coada que penetra das treliças muxarabi, que inibem visuais do exterior, quanto pela luz zenital da claraboia da sala.

Lina Bo analisou a obra de J.Artigas no primeiro número Revista Habitat, quando afirmou: “uma moral de vida sugerida pelas casas de Artigas, uma moral que definimos como severa, e esta é a base de sua arquitetura. A Casa de Artigas quebra todos os espelhos do salão burguês”561.Neste sentido, havia o desejo do arquiteto em “reeducar” a burguesia.

A Casa Valéria Cirell foi concebida com autonomia crítica em relação ao status quo da arquitetura moderna brasileira de então, representada pela produção arquitetônica envolvida com o projeto nacional-desenvolvimentaista do governo J.K. Mas ao mesmo tempo, incorpora questões existencialistas da arquitetura internacional, do TEAM X, no sentido do arquiteto projetar não “para um homem genérico e ideal, senão para um homem concreto, individual com todas suas carências”562, bem

como buscar na arquitetura popular “fontes de inspiração que mostram a debilidade do paradigma da

máquina”563. A Casa Valéria Cirell, também pode ser considerada “antagônica ou divergente” em relação à nascente Escola Paulista Brutalista564 pois, ao contrário da “moral severa” das casas de J. Artigas, possui uma moral sincrética, de síntese entre duas culturas arquitetônicas - moderna e vernacular, essência da arquitetura de Lina Bo.

560 Ibidem, ibidem.

561 Ibidem, Ibidem.

562 MONTANER, Josep Maria. Depois do movimento moderno: arquitetura da segunda metade do século XX. Bardelona: Ed.Gustavo Gilli, 2009, p. 18. 563 Ibidem, p.56.

564 Segundo R.Zein o aparecimento de uma nova geração paulista, que “inicia profissionalmente no cenário brasileiro, propondo obras de cunho brutalista, dá-

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