9 Oppsummering og vurderinger
9.6 Vellykket - så langt
Neste trabalho, consideramos como visão funcionalista a abordagem que contempla dados de língua em uso, buscando explicações para as escolhas que os falantes fazem quando dão preferência a uma forma linguística e não a outra. Identificar as motivações para tais escolhas e explicar o que é que move o funcionamento da língua, fazendo os usuários se comunicarem é, basicamente, o que determina o caráter funcionalista de um estudo. Nesse sentido, realizamos, na sequência, uma síntese do tratamento que autores alinhados a essa maneira de ver a língua/gramática destinam à conjunção.
Neves (2000) dedica um capítulo da sua Gramática de Usos do Português ao termo junção, noção a partir da qual situa as conjunções. A abordagem gramatical realizada pela autora é por ela definida a partir dos seguintes princípios:
1) a gramática se estende a processos que atingem o nível do texto, avaliando como produção discursiva, ficando incluídas, na raiz, as determinações da interação;
2) os fatos de gramática se estabelecem em uma componibilidade que integra sintaxe, semântica e pragmática;
3) os fatos gramaticais são avaliados em ligação com as funções da linguagem. (p.70)
Ao referir-se às conjunções coordenadoras, mais especificamente às adversativas, a autora (op.cit., p. 602) afirma que os coordenadores, funcionando como sequenciadores, põem em realce o valor gramatical a serviço da dimensão textual:
Possuindo efeito de progressão textual, um elemento como mas, por exemplo, se distingue de elementos de significados semelhantes, como
todavia e no entanto, que constituem, em si mesmos, satélites adverbiais, e
que, além disso, têm caráter fórico, fazendo retomada de alguma porção anterior do texto (= apesar disso).
No interior do mesmo capítulo que define a junção, Neves (op. cit.) trata das construções adversativas, especificando e explicando a coordenação com mas. Em sua definição, a autora afirma que a conjunção coordenativa mas marca uma relação de desigualdade entre os segmentos coordenados, colocando o segundo segmento de algum modo diferente do primeiro. Para ela, os segmentos coordenados por mas podem ser: sintagmas, orações e enunciados. Ao apontar o valor semântico do mas, a autora (op. cit.) apresenta a relação de desigualdade como sendo utilizada para a organização da informação e para a estruturação da argumentação.
A visão de Neves se diferencia da de Perini (2009) quanto ao conceito de conjunção; para esse autor, a noção de conjunção se aplica apenas às “conjunções subordinativas” da gramática tradicional. Como coordenadores fixos, ele apresenta e, mas e ou. Em sua gramática descritiva, Perini (op. cit.) denomina o mas de coordenador e afirma que tal item só coordena dois elementos, nunca mais de dois e só pode aparecer no início de uma oração. Ao apresentar o estudo do porém, o autor afirma que esse item, assim como entretanto, no entanto, contudo, não obstante, todavia, senão, assim, por isso, etc., apresenta características distintas do e, do ou e do mas. Dentre essas diferenças, uma se destaca: o porém pode aparecer em várias posições no interior da oração. “A possibilidade de movimentação na oração aproxima porém de certos itens usualmente analisados como ‘advérbios’[...]” (p. 146). Assim, Perini chega à seguinte constatação: “Esse fato, juntamente com a observação de que coordenadas podem ocorrer sem coordenador, permite levantar a hipótese de que itens como porém não seriam em absoluto coordenadores, mas advérbios da classe de consequentemente.” (p. 146)
Levando essa análise de Perini para uma base funcionalista, o mas estaria em um processo avançado de gramaticalização, ocupando uma posição mais fixa na estrutura da oração. Enquanto isso, o porém ainda estaria em um processo inicial de gramaticalização, posto que suas características de advérbio ainda estariam concorrendo com a forma mais fixa de conjunção.
Castilho e Elias (2012) tratam as coordenadas adversativas como contrajuntivas afirmando que o que é dito na segunda sentença contraria as expectativas geradas pela primeira. A conjunção adversativa mais frequente para os autores é o mas, que se deriva do advérbio latino magis, tendo, mais adiante, mudado para mais (usado para somar elementos num conjunto e estabelecer comparações). Do advérbio mais surgiria então a conjunção mas, usada ainda hoje para indicar a soma de constituintes sentenciais. (p. 354) Segundo os referidos autores, o mas, em um segundo momento, começou a ser usado como advérbio,
passando a negar as expectativas criadas pela sentença anterior, vindo a exercer a função de conjunção adversativa que conhecemos hoje (p. 355). Os autores (op. cit.) reconhecem como outras conjunções adversativas: contudo, todavia e entretanto.
Bagno (2013) separa partes de sua gramática para falar de vários temas e vertentes dos estudos linguísticos atuais. Envolve, inclusive, estudos de gramaticalização. Ao tratar das conjunções, o autor principia a explicação pela conjunção mas, afirmando: “A única conjunção coordenativa adversativa é mas. Os demais itens tradicionalmente listados nessa categoria – porém, contudo, no entanto, entretanto, todavia – não são conjunções, são advérbios”. (p. 242).
Podemos perceber que a maioria das gramáticas tradicionais da língua portuguesa ainda apresentam uma abordagem preocupada com a prescrição congelada de regras fixas, sem levar em conta as mudanças ocorridas na língua com o passar do tempo e até mesmo as mudanças internas à gramática. O curioso é que alguns autores, como Almeida (1962), Melo (1978), Rocha Lima (1979), Azeredo (1990), dentre outros, observam essas mudanças, mas não as contemplam em suas obras.
Por outro lado, temos alguns autores, como Neves (2000), Castilho e Elias (2012), Bagno (2013), dentre outros, que já se mostram preocupados com o processo de mudança que a língua sofre através do uso. Esses mesmos autores utilizam, em suas gramáticas, a teoria funcionalista e o processo de gramaticalização como abordamos nessa passagem de nosso capítulo.