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7. Resultater

7.3. Veksten i fylkenes samlede innvandrertall

Já entre os séculos XVI e XVIII, a sujeição do mundo natural atendia não só ao funcionamento da produção econômica, como também aparecia no desenvolvimento das ciências (se é que é possível distinguir completamente o desenvolvimento da ciência do desenvolvimento técnicoprodutivo). Entre 1600 e 1700, cientistas como Francis Bacon entendiam que a finalidade da ciência era “devolver ao homem o domínio sobre a criação que ele perdera em parte com o pecado original” (Thomas, 1988, p. 32). A ideia aqui é a de um conhecimento que sirva a uma sujeição mais eficiente, a uma dominação mais potente que se expresse no controle e na máxima utilização da natureza a serviço da vida (capitalista) dos homens. Assim se fez com a botânica – que servia sobretudo à farmacologia – e com a zoologia – que além de embasar estudos anatômicos, fornecia informações sobre a domesticabilidade e a serventia dos animais.

A exemplo da opinião de Bacon, há que se destacar, portanto, o ideal, conscientemente declarado, dos cientistas modernos: o controle do homem sobre a natureza a fim de evitar o encontro com as forças destrutivas dela. Assim, apesar de seus discursos manifestarem uma agressividade iminente contra os outros seres, um “imaginário agressivamente despótico explícito em seu discurso de ‘posse’, ‘conquista’ e ‘domínio’” (Thomas, 1988, p. 35), os cientistas encaravam sua atividade como moralmente valorizada, já que promoviam a civilização e o progresso, além da proteção dos homens diante das forças naturais. Essa reflexão poderia ser desenvolvida segundo duas perspectivas: por um lado, a partir da noção de “razão de autoconservação”, trabalhada em geral pela crítica frankfurtiana e, por outro, por meio da psicanálise, com as noções de “conhecimento

paranóico” e de conhecimento via pulsão oral – no segundo caso relacionando o saber com a devoração e a destruição, e no primeiro caso com o controle.

Mesmo o Marx de O capital, neste caso em concordância com economistas de sua época, afirma o ideal de uso da natureza. Como bem coloca Chiarello a respeito do pensamento marxista,

[a] nova sociedade deve beneficiar unicamente os homens, e é por certo evidente que às custas da natureza. Esta deve ser dominada com gigantescos meios tecnológicos e com gasto mínimo de trabalho e tempo, e servir a todos os homens como substrato material de todos os bens de consumo imagináveis. (Chiarello, 2001, p. 30-31)

Essa noção de que a natureza deve receber tratos tecnológicos não descarta a ideia da dominação da natureza como um exercício de luta. Entretanto, para Marx, essa luta não está fora do desígnio natural. Tudo se passa como se, ao trabalhar a natureza, subjugando-a, recriando-a, o homem nada mais fizesse que levar a cabo o próprio “discurso natural” (Cf. Chiarello, 2001). Isso leva à seguinte proposição de Olgária Matos sobre o pensamento marxista:

A transformação da natureza pelo trabalho humano “naturaliza o homem e humaniza a natureza”. Não há, na teoria de Marx, dualismo entre homem e natureza, natureza e cultura, ciências da natureza e história. (...) A história da natureza é a história das relações que o homem estabelece com essa mesma natureza e, nessa relação, o homem a suprime enquanto dimensão que lhe é exterior, suprimindo, assim, o caráter de estranheza do real. (Matos, 2005, p. 24)

Em Freud, também é possível encontrar uma certa “naturalidade” (ao menos no sentido de algo inexorável) no embate entre homem e natureza. Quando o psicanalista reflete sobre os sofrimentos humanos e evidencia possibilidades de evitá-lo, pensa que a felicidade pode ser mais ou menos alcançada quando o homem se decide a enfrentar o “mundo”. O caminho é “o de tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana” (Freud, 1996 [1930], p.85)31. Aqui, civilização é sinônimo de domínio (ciência) e trabalho (economia capitalista) sobre a natureza.

Contudo, apesar dessa variedade de discursos em que se pode apreender a ciência comprometida com uma justificativa para a dominação, seria um tanto apressado afirmar que ela inaugura um discurso de dominação – um discurso cuja fundamentação é construída pelo

31 É também verdade que, no mesmo texto, Freud chegará a ponderar sobre o fato de que o desenvolvimento

científico, como produtor de civilização, não deixa de promover nos homens a neurose e o sofrimento. Mais que isso, ele será capaz de entrever a angústia e a ansiedade derivadas da consciência de que o desenvolvimento tecnológico e o subsequente domínio sobre a natureza permitem à humanidade “se exterminarem uns aos outros, até o último homem” (Freud, 1996 [1930], p. 147).

desejo de dominar forças potencialmente perigosas, pela ânsia de controlar os eventos naturais frente ao medo da desintegração do eu, da dor e da morte. Em última instância, trata-se do zelo pela comunidade humana.

De fato o mito, muito antes da razão inaugurada pela filosofia cartesiana e pela ciência moderna, procurou promover, a sua maneira, um controle da natureza. Olgária Matos, seguindo as análises frankfurtianas da Odisseia, num texto bastante rico, aponta como a ciência, assim como o mito, “encontr[a] suas raízes nas mesmas necessidades básicas: sobrevivência, autoconservação e medo (Angst)” (Matos, 1987, p. 141). Mito e ciência têm, nesse sentido, uma origem comum.

O discurso mítico é um artifício que procura, ao antropomorfizar a natureza, controlá-la e submetê-la às narrativas míticas, que amenizam o temor ao inserir na narrativa a gênese dos fenômenos. O desconhecido, o radicalmente outro, fonte das mais angustiantes preocupações, esteve sempre presente na relação com a natureza, cujo caos o mito procurava ordenar. Ordenar para prever e controlar. O mito pretendia, assim como a ciência, uma espécie de saber32 que administrava o medo frente ao desconhecido e ameaçador.

Mas há uma diferença em suas modalidades de enfrentamento do medo. A diferença é que no mito o homem assume seu assombro diante da natureza e estabelece um diálogo com ela, com as forças sobrenaturais. No mito, os elementos da natureza são como um espelho das paixões e sentimentos humanos: “O sobrenatural, espíritos e demônios, são imagens espelhadas dos homens que se permitem estar assustados pelos fenômenos naturais” (Matos, 1987, p. 147). O controle, portanto, é materializado apenas na narrativa mítica, e por isso, de certa maneira, restringe-se ao interior dos próprios indivíduos. Já a ciência procura, ao instaurar-se sobre uma razão técnica, instrumentalizadora – que pressupõe o desencantamento do mundo e o esgotamento do animismo – substituir o diálogo pelo método

de intervenção, ou seja, aliar saber e fazer (técnica). Para isso, o homem separa de si mesmo

sua natureza, renunciando às paixões para entrar no universo da cultura33 (onde o que foi

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Freud chama a atenção para o lugar do mito tanto em Totem e tabu (1912) quanto em O futuro de uma ilusão (1927). O psicanalista observa que o mito se funda no desamparo a que o sujeito está submetido tanto diante da natureza externa, das forças naturais que promovem os fenômenos naturais, quanto da natureza interna, essa instância “outra” que constitui o inconsciente e abarca o mundo pulsional.

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Novamente Matos resgata a análise que Adorno e Horkheimer empreendem na Dialética do esclarecimento a respeito da viagem de Ulisses, narrada por Homero. Ulisses renuncia ao gozo de suas paixões controlando-as (pede que o amarrem ao mastro). Só assim pode dar início ao nascimento da civilização. Descartes, no século XVII, aprimora o sujeito do conhecimento ao separar razão e subjetividade. O sujeito da ciência é desprovido de psicologia. O conhecimento verdadeiro fica assim sustentado só e somente quando a natureza interna tiver sido dominada. O mundo desencantado faz par com o homem desapaixonado (apático, sem pathos).

recalcado tende a voltar nas diversas modalidades de mal-estar). Com isso, a dominação da natureza abre caminho para sua exploração.

O mito procura dar sentido a algo sem sentido e encadeá-lo a uma cadeia de outros sentidos (a narrativa). Os fenômenos naturais, assim como a natureza interna – os instintos, as paixões e o próprio corpo, que trabalha involuntariamente e morre – são fontes inesgotáveis de angústias, ansiedades e ameaças34. A magia, nesse contexto, consiste numa pseudotécnica de domínio e controle das forças naturais. Pode ser considerada um primórdio das técnicas que viriam a ser desenvolvidas como fruto da ciência e da razão instrumental.

Um impulso para o domínio da natureza já estava então movendo as engrenagens do mito, e mais tarde moveria o empreendimento científico. Se o mito já indicava a causa motivacional para um discurso de domínio, a ciência cartesiana, como aponta Matos (1987), apenas encontrou outro modo de resolver um impasse generalizável a qualquer organização humana no mundo natural. Contudo, acrescentaria Matos, embora muitos possam assegurar que a ciência tenha mais sucesso com seu método, ela não conseguiu bloquear toda fonte de medo, que parece transbordar de tantos lados na modernidade35. Quando a ciência procura radicalizar o controle do outro, não mais conferindo vontade e anima à natureza, mas formalizando-a, quantificando-a e destituindo-a, portanto, de qualquer dimensão espiritual, algo ainda permanece desconhecido, indescritível e insimbolizável. Ou seja, embora a razão instrumental aposte na possibilidade de “vencer o medo quando nada mais houver de ignoto, de estranho” (Matos, 1987, p. 142), ainda escapa da realidade um real que provoca o que Matos chama de melancolia.

Diante da comparação entre mito e ciência, podemos levantar duas questões a serem repensadas. A primeira é sobre a pertinência de investigar algo comum a ambos36, algo que

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Em O mal-estar na civilização (1930), Freud sustentará também essas duas fontes de ameaça para os seres humanos: a natureza externa, ou o poder superior dela, e a natureza interna, ou a fragilidade de nossos corpos. Acrescentará, contudo, uma terceira: o outro semelhante, ou melhor, a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos entre homens. A essa terceira fonte de sofrimentos, Freud atribui um sentimento especial de desconforto, uma revolta contra si mesmos: como é possível algo que nós mesmos criamos ser tão desagradável (censura)?

35 Ver nota nº 32, acima. Além de Freud (1996 [1930]), Ulrich Beck (2008) e Cristopher Lasch (1986) já

chamaram a atenção para a dimensão e para as implicações desse medo. O primeiro, por meio da noção de “sociedade de risco”, e o segundo, da de “mínimo eu”.

36 Seria interessante explorar melhor a distinção e a semelhança entre mito e ciência. Isso porque daí parece

emergir uma interpretação bastante fértil do imaginário contemporâneo. Lacan já apontara os problemas, assim como a escola de Frankfurt, de um entranhamento da lógica científica (encarnação do Iluminismo) na lógica das relações sociais. O que Lacan denominou discurso da ciência, de mãos dadas com o discurso do capitalismo, parece ser um conceito bastante frutífero na medida em que esclarece o substrato extra-ideológico da realidade atual. Nesse sentido, mito e inconsciente voltam a se dar as mãos, como defendeu Lévi-Strauss em “A eficácia simbólica” (2008 [1958]). Encontrar, portanto, as diferenças e semelhanças entre a racionalidade mítica e a racionalidade científica pode ajudar a esclarecer a modernidade nas suas faces manifesta e latente.

poderia ser encontrado num estrato, psíquico ou não, compartilhado por diversas civilizações, independentemente de sua posição geográfica e temporal. Dever-se-ia perguntar, sobretudo, pelo que estaria para além (ou aquém) das relações produtivas de uma determinada sociedade. Outra questão, no sentido inverso, seria sobre as implicações específicas dos empreendimentos científico e capitalista de lidar com o mundo natural. Nesse sentido, trata-se de investigar as particularidades das consequências encontradas pelas civilizações modernas, sustentadas no ideal tecnocientífico e na configuração produtiva da sociedade capitalista.