Vimos que a reflexão impura apreende a temporalidade ek-stática do Para-si como uma duração acabada, como uma duração “Em-si”.78 Sartre, em O ser e o nada, não mais acusa a reflexão impura de ultrapassar o caráter instantâneo da reflexão pura (pois, como verificamos esta não só apreende a consciência temporalizada como não é um olhar intemporal sobre essa consciência), mas a acusa de degradar essa temporalidade original na temporalidade psíquica. Essa projeção do refletido no em-si, verificada na constituição do psíquico, como dizíamos, surge de uma disposição ontológica da consciência de apreender a si mesma em uma totalidade, e no caso da reflexão impura, de apreender a si mesma como totalidade Em-si. O psíquico revela o modo pela qual o Para-si se apreende “objetivamente” (como Em-si) no mundo. O que deve ser questionado agora é o estatuto desse constituído: as unidades psíquicas e sua síntese na temporalidade psíquica são apenas uma “miragem” constituída pela consciência ou tem uma existência objetiva? O desenvolvimento dessa questão deve esclarecer a relação do psíquico como a existência irrefletida
Uma tese que determinará o Psíquico (os estados, as ações, as qualidades e por fim o próprio Ego) como uma existência ilusória poderia apoiar-se em várias passagens da obra sartriana, em especial naquelas em que Sartre descreve o psíquico como uma existência ideal
77 Essa identificação da temporalidade original da consciência com uma duração psíquica efetuada por Bergson
já era objeto de crítica por Sartre em Diário de uma guerra estranha.
78 A reflexão impura constitui a vida psíquica com o objetivo de superar exatamente o caráter ek-stático da
existência do Para-si, caráter que media a relação deste com o mundo. Para isso, ela é cúmplice de uma “mistificação” que faz dessa consciência um objeto Em-si.
ou virtual. [EN, p. 218, 206] O psíquico, enquanto “projeção transcendente”, o Ego, enquanto “falsa representação da consciência”, enquanto “unidade forjada”, teriam uma existência evanescente, seriam uma espécie de miragem surgida por ocasião da reflexão impura. Logo que a consciência voltasse ao estado irrefletido ou se purificasse essa miragem se dissiparia. [EN, p. 217] Assim, com uma existência apenas ilusória, imagem degradada da consciência, o psíquico, sustentado apenas por um ato reflexivo impuro, seria radicalmente apartado da existência irrefletida da consciência. Mas, esse objeto que surge por conta da reflexão impura cessa de existir quando o movimento reflexivo cessa a “projeção” e a consciência retorna ao irrefletido? Devemos investigar essa existência do psíquico.
O Para-si se serve das vivências refletidas para constituir essa existência psíquica, que por fim, será unificada no Ego. Assim, a consciência unifica uma série de vivências em um “noema”, o Ego. Para Sartre, o Ego, ele próprio, não está na origem dessas vivências e nem sustenta a síntese que as unificará. Isso significa que, para Sartre, a matéria que constitui o Ego não tem ligação direta com o próprio Ego: ela é independente do objeto que visamos através dela. O Ego é visado por meio das vivências refletidas, mas quando procuramos, através de uma reflexão purificada ou por algum método que retome essa vivência em sua existência irrefletida, o Ego deixa de aparecer. Assim, essas vivências não necessitam de forma alguma do Ego para existir.
Ao contrário da percepção externa, onde, por exemplo, a vivência de tal cor verde necessita da aparição do gramado para existir, a matéria consciente que forma o Ego é
originalmente independente deste último. A reflexão pura atesta isso, já que, segundo Sartre, é possível um retorno à existência original dessa vivência79, sem passar pelo Ego.
É claro, podemos tentar isolar o verde do gramado, visando-o não como verde deste gramado, mas como um tom específico de verde, etc. Mas essa abstração não tem o mesmo caráter da separação efetuada pela reflexão pura entre as vivências e o Ego: essas vivências tinham, segundo Sartre, enquanto irrefletidas, uma existência independente da aparição do Ego. Ora, o verde individual do gramado não existe anteriormente à aparição do gramado.
A transcendência do Ego em Sartre não somente revela que esse Ego não participa da consciência, mas que podemos separar rigorosamente a matéria pela qual visamos o Ego do próprio Ego. Então, parece confirmada a tese do caráter fictício do Ego. Mas vejamos melhor.
Dizer que o Ego é constituído ao invés de constituinte, que é sintetizado e não poder sintético não quer dizer que sua existência se resume a uma ficção. A transcendência do Ego,
como lembra Coorebyter não quer dizer a “evanescência do Ego”. [COOREBYTER, p. 386]
Há mesmo uma intuição do “Ego”. É claro, essa intuição não é segundo Sartre, nem apodíctica, nem adequada: o Ego é um existente transcendente submetido às mesmas dúvidas do objeto da percepção externa. A realidade do Ego é fundada na existência do Para-si, no entanto, sua existência não é dada como a existência do Para-si, pois não partilha da mesma adequação. O Ego, para Sartre, tem uma existência “no” mundo, ou melhor, o “Ego” é a face objetiva da relação do Para-si com o mundo”. [EN, p. 210]
Em O ser e o nada, não é a permanência do Ego para além da instantaneidade da vivência que determina (como em A transcendência do Ego) a sua transcendência. Se a
79 Em Sartre, essa tese da ligação da vivência do verde com a aparição do gramado é reforçada pela rejeição à
tese husserliana da “hilé”. Há, para Sartre, um ser do fenômeno que sustenta a aparição do objeto na percepção externa, ao contrário de Husserl, para o qual este é visado através de uma matéria subjetiva.
apreensão do psíquico revela também uma duração, essa duração não é propriamente constituída pela reflexão impura, mas trata-se da temporalidade original do Para-si degradado no Em-si.
“Não poderíamos chamar de ilusão esta duração psíquica constituída pela fluência concreta de organizações autônomas, ou seja, em suma, pela sucessão de fatos psíquicos, fatos de consciência: é sua realidade, com efeito, que constitui o objeto da psicologia; praticamente, é ao nível do fato psíquico que se estabelecem as relações concretas entre os homens, reivindicações, ciúmes, rancores, sugestões, lutas, astúcias, etc”. [EN, p. 205]
A questão que nos importa é a seguinte: essa existência simplesmente se dissolve findada a reflexão impura? Devemos questionar as relações do irrefletido com o psíquico.
Há uma tese, contida em O ser e o nada, que representa um avanço em relação à A
transcendência do Ego. “(...) depois da ação de Pedro e do ressentimento que me causou,
meu ódio sobrevive como uma realidade atual, ainda que, neste momento, meu pensamento esteja ocupado com a outra coisa”. [EN, p. 209] Essa passagem é significativa, pois revela uma existência fenomenal do psíquico para além do ato reflexivo que o visa. O objeto psíquico não é um fenômeno evanescente: constituído pela reflexão ele não limita sua existência ao instante do ato reflexivo. O objeto constituído não deixa de estar no horizonte da consciência (enquanto objeto e não enquanto elemento imanente) quando a consciência deixa de visá-lo.
Devido à nova teoria da temporalidade, desenvolvida em O ser e o nada, as sínteses efetuadas no passado não se dissolvem com a aparição de uma nova vivência. O presente não abole o passado: não se trata do surgimento de um novo instante que dissipa o instante passado e com ele as sínteses efetuadas nesse instante. Uma das conseqüências dessa nova
teoria da temporalidade é que o objeto psíquico permanecerá no horizonte da consciência, o que permite que, a qualquer momento, um outro ato reflexivo o presentifique.
Se o objeto psíquico, enquanto transcendência, resiste ao desaparecimento das vivências que lhe serviam de matéria, no entanto, isso não quer dizer que ele continue aparecendo findada a reflexão. O psíquico não participa da esfera transcendental: o objeto psíquico é transcendente, por isso não aparece à consciência sem ser visado. Se o psíquico sobrevive enquanto “realidade atual” após a reflexão, essa realidade necessita de um outro ato reflexivo para que ela apareça novamente. O ódio por Pedro espera por um ato para que ele torne a aparecer: tão logo uma vivência repulsiva de Pedro se efetue, há a possibilidade de um ato reflexivo impuro sintetizar essa vivência no objeto psíquico “ódio por Pedro”, fazendo esse reaparecer. O Ego e o psíquico em geral não são miragens, eles têm uma existência, mas essa existência não é “na” consciência, mas “para” a consciência. Assim, o psíquico não é uma miragem, mas como já afirmamos, “a face objetiva da relação entre o Para-si e o mundo”. É claro, o psíquico é sustentado pela consciência: é a consciência que está engajada em sustentar esse objeto, e principalmente, de aprender-se nele. Afirmar que o psíquico não é uma ilusão, que é uma realidade, não quer dizer que ele se imponha frente à consciência.
Mas, se é o mesmo ódio por Pedro que apareceu na semana passada que aparece agora, sem que eu tenha odiado Pedro durante a semana que passou, onde sobrevive esse ódio? Esse objeto permanecia no horizonte da consciência, enquanto transcendência, à espera de um ato reflexivo que o atualizasse. Esse horizonte que sustenta a existência do psíquico quando ele não é visado é análogo ao horizonte que possibilita qualquer outra experiência objetivante. A consciência desse horizonte é que possibilitará a objetivação: ela é imanente ao ato intencional. Sem esse horizonte toda determinação seria impossível: o
horizonte é uma característica da intencionalidade operante. Esse horizonte não aparece quando o objeto ao qual ele se refere não é visado, no entanto, ele permanece como a possibilidade permanente de se visar esse objeto. A aparição do psíquico na reflexão atual exige uma familiaridade com o mundo psíquico. O psíquico é “pré-conhecido”, ele revela- se como “já estando aí” (é claro, esse mundo psíquico é constituído). Se o ato atual da reflexão impura exige no seu horizonte esse mundo psíquico, porém, esse mundo psíquico só se torna presente pelo ato que o atualiza. Nesse sentido, ele exige uma atitude que o recupera. Husserl exemplifica essa referência do objeto ao seu horizonte na atitude do aritmético:
“O mundo dos números, ele também, é para mim, ele constitui precisamente o campo dos objetos onde se exerce a atividade do aritmético; durante essa atividade, qualquer número ou construção numérica estarão no foco do meu olhar, cercados por um horizonte parcialmente determinado, parcialmente indeterminado. (...) O mundo aritmético não é para mim senão quando eu o viso e pelo tempo em que eu sustente a atitude de aritmético”. [IDÉIAS, p. 92]80
A tese sartriana da autonomia do irrefletido, descrita já em A transcendência do Ego por conta da crítica ao Ego material, afirma que, ao se manter no estado irrefletido, o psíquico (ou seu pólo, o Ego) não aparece. Mas essa tese não significa que o psíquico não se mantenha, enquanto transcendência, no horizonte da consciência, pronto para ser recuperado. Do mesmo modo que posso relembrar meu passado, ao refletir sobre este, posso sempre reencontrar (reflexivamente) uma síntese psíquica prévia. É claro, reencontro pela reflexão
80 Além dessa referência do ato reflexivo impuro a um horizonte de determinações prévias, há ainda uma
referência a um horizonte intersubjetivo:o Ego, por exemplo, é constituído referindo-se a constituição de outros Egos, tal como a determinação do objeto transcendente se refere a uma gama de significações comunitárias. O objeto psíquico pode ser constituído se referindo a essas outras constituições do psíquico e pode ser constituído exatamente para mediar as relações intersubjetivas.
atual, que faz desse passado o passado de um Eu, mas essa reflexão atual se insere dentro de um movimento reflexivo que faz com que haja uma continuidade da vida psíquica. Se toda consciência remete ao passado, com a reflexão não é diferente, a reflexão atual é ligada à reflexão passada que sustentava a vida psíquica. É claro, essa ligação só é possível porque, irrefletidamente, a consciência atual é seu passado (pois o movimento temporalizante é sustentado pela estrutura pré-reflexiva). É a própria síntese temporal irrefletida que liga o passado e o presente na consciência que permite a reflexão impura sintetizar esse passado como o passado de um Eu. Permite, ao conservar, no seu horizonte, a síntese transcendente do psíquico, e permite ainda que haja continuidade entre a reflexão passada e a reflexão atual.
Se a transcendência do Ego significa que, enquanto a consciência se mantiver no estado irrefletido, o mundo psíquico e, por conseguinte, o Ego não aparece81, no entanto, ao efetuar essa reflexão impura a consciência encontra algo que lhe é familiar e não uma existência surgida a cada vez “do nada”; concluímos: o psíquico possui uma realidade.82
Poder-se-ia objetar que, se a reflexão impura recupera uma existência psíquica resultada de processos reflexivos constituintes anteriores, em última instância, teria de haver uma reflexão impura primeira que constituiria o psíquico sem referência a nenhuma estrutura psíquica anterior, ou seja, haveria uma constituição primeira do psíquico que não remeteria a nenhuma síntese passada. Mas essa é uma objeção metafísica, do mesmo modo que a questão “como pode surgir uma consciência de onde não há consciência”. Se todo ato que visa uma transcendência exige um horizonte prévio, não é possível uma regressão a um grau zero de determinação: o mais novo objeto já surge dentro de um horizonte prévio de
81 Pois o Ego não é “da” consciência.
determinações, sem o qual ele não poderia ser um objeto. Com a existência psíquica acontece o mesmo: a reflexão impura sempre encontra uma constituição anterior, de que ela é cúmplice ao atualizar esse objeto.
A reflexão e, por conseguinte, o psíquico, parece surgir juntamente com o surgimento da consciência, pois, apesar da estrutura do cogito pré-reflexivo ser fundante da reflexão e assim logicamente anterior, não podemos conceber uma consciência que não possa efetuar a reflexão. É claro, isso não significa que a psicologia não tenha a possibilidade de procurar remontar o próprio processo de constituição de uma existência psíquica (referindo-se, na psicanálise existencial, ao projeto de valor desse sujeito), através de uma reconstituição do movimento efetuado na reflexão. Mas, essa reconstituição não encontrará o ponto inicial da vida psíquica.
A noção de psíquico será enriquecida (em O ser e o nada) com o surgimento do problema do outro e o esclarecimento do “ser-para-outro”. O corpo será “o lugar” do psíquico, e será através do corpo que o psíquico será “objeto-para-outro”. Não vamos desenvolver aqui esse tema. O que nos interessa agora é a relação do psíquico com a consciência transcendental.
Em A transcendência do Ego o psíquico, ao ser rejeitado à transcendência, perdia qualquer privilégio de ser um fenômeno consciente. Moutinho observa muito bem essa distinção entre o psíquico e a esfera de dados imanentes:
“Entre o vivido de repulsão e o ‘estado’ ódio, não há meio-termo, não há passagem. O salto é brusco; de um lado, a imanência, ‘esfera de vivências adequadas’; de outro, o sentido transcendente, o estado ódio, que não se reduz a esse vivido de repulsão, afirmando por isso mesmo ‘sua permanência’ e rompendo com a distinção entre ser e
eidética”. (...) ao propugnar métodos para a psicologia, Sartre fala apenas de observação externa e de introspecção, que, segundo ele, ‘têm os mesmos direitos e podem se prestar uma ajuda mútua, e mesmos direitos porque se, de um lado, o psíquico é transcendente (observação externa), de outro, ele é íntimo (introspecção). Nesse caso, se quero conhecer-me a mim mesmo, posso bem colecionar os fatos que me concernem e tentar interpretá-los tão objetivamente quanto se se tratasse de um outro”. [MOUTINHO, p. 98 e 97]
A partir de Esboço para uma teoria das emoções as relações entre a consciência transcendental e o psíquico são enriquecidas: o psíquico deixa de ser simplesmente o resultado de uma “síntese artificial” das vivências refletidas e passa a intermediar as relações do Para-si com o mundo. O psíquico continua a ser uma transcendência, mas agora passa a ter um significado. Apesar de não ser ele mesmo um vivido, no entanto, ele é um fenômeno de consciência: ele é constituído, mas essa própria constituição diz algo sobre a consciência, diz algo sobre como essa consciência procura mediar suas relações com o mundo.
O psíquico, em Esboço para uma teoria das emoções, é descrito como a objetivação de certas condutas da consciência frente ao mundo: o psíquico é uma forma pela qual a consciência apreende essas condutas, ou seja, uma forma pela qual a consciência se relaciona objetivamente com essas condutas. As emoções, por exemplo, são condutas frente a uma situação, condutas que visam transformar a qualidade dessa situação.
“(...) se fiquei sabendo de minha ruína, não disponho mais dos mesmos meios (carro particular etc.) para realizá-las. Preciso substituir aqueles meios por novos (andar de ônibus etc.), e é precisamente o que não quero. A tristeza visa a suprimir a obrigação de buscar esses novos meios, de transformar a estrutura do mundo substituindo sua constituição presente por uma estrutura totalmente indiferenciada. Trata-se, em suma, de fazer do mundo uma realidade afetivamente neutra, um sistema em equilíbrio afetivo total, de abandonar os objetos com forte carga afetiva, de levá-los todos ao zero afetivo e,
desse modo, aprendê-los como perfeitamente equivalentes e intercambiáveis. Em outras palavras, por não poder e querer realizar os atos que projetávamos, fazemos de modo que o universo nada mais exija de nós”. [ETE, p. 68]
A emoção, enquanto fenômeno consciente, é passível de ser descrita. Mas isso não significa que a consciência tenha téticamente, na emoção, consciência de degradar-se para alterar a qualidade da situação. “(...) tem apenas consciência posicional da degradação do mundo que passa ao nível mágico”. [ETE, p. 79]
Essas condutas, mesmo mediando a aparição do psíquico, não se constituem originalmente como tal: a consciência emocionada visa o mundo. É claro, ela visa transformar a qualidade do mundo em vista de “sua” situação nesse mundo, mas ela não é uma apreensão tética de si. Essas condutas servem de matéria para a vida psíquica. Em geral a vida psíquica se constitui a partir da objetivação dessas condutas.
A reflexão impura vai apreender essa emoção não como uma conduta, mas como o próprio ser da consciência: a “tristeza” passa a ser apreendida como uma qualidade dessa consciência. Todas essas condutas “tristes” frente a uma situação são sintetizadas e a consciência se apreende como “ser-triste” frente ao mundo.
A produção do psíquico resulta assim de um modo objetivante da consciência se relacionar com suas próprias condutas. Essas condutas têm um sentido: o psíquico é uma forma da consciência apreender o sentido dessas condutas. Vemos, assim, que a constituição do psíquico passa normalmente pela objetivação das condutas frente à situação do Para-si no mundo.
Porém, se a subjetividade é o fundamento do psíquico, o psíquico diz algo sobre a subjetividade. Não que o psíquico, ele mesmo, seja um vivido; ele continua sendo um objeto,
psíquico surge de um movimento reflexivo, que envolve um “ser-para”. Esse movimento reflexivo constitui o psíquico como transcendência, mas este “só existe na medida em que é assumido pela realidade humana.” [MOUTINHO, p. 101] Esboço para uma teoria das
emoções revela assim, não mais um movimento direto da consciência transcendental ao ser
psíquico como em A transcendência do Ego, mas um movimento de uma consciência descrita como “ser-no-mundo” para a vida psíquica. Então, não é a reflexão impura que efetua a passagem da esfera transcendental para o “mundano”. A existência “no mundo” é pré-psíquica: o psíquico é a objetivação dessa existência.
É claro, o psíquico é a face objetiva dessa existência mundana e assim, é regido por leis que não atuam na consciência transcendental. Sartre afirma que, tal como o objeto mundano, o Ego (como o psíquico em geral) possui uma espécie de inércia. “O que acentua ainda mais o seu caráter de inércia, de “datum” passivo, é o fato de existir sem ser para uma consciência, tética ou não”. [EN, p. 214] A reflexão impura apreende o objeto psíquico como já estando aí. O fato de que a reflexão impura apreenda o objeto psíquico como independente de si é confirmado pela forma com que a relação entre objetos psíquicos lhe é revelada. “Segue-se uma ação total e à distância de um sobre o outro, por influência mágica. Por exemplo, minha humilhação de ontem motiva integralmente meu humor da manhã de hoje, etc”. [EN, p. 216] Dessa forma, o psíquico parece se organizar independentemente da consciência.83 A reflexão impura, ao projetar a consciência no Em-si, degrada o caráter espontâneo dessa consciência.84 Por isso, esta auto-organização do psíquico assemelha-se à multiplicidade de
interpenetração bergsoniana, onde há uma síntese e o princípio sintético permanece oculto.85
83 A reflexão impura oculta seu próprio caráter constitutivo.