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8. Analyse

8.1. Magazinet og DagenMagazinet: pressehistorie

8.2.1. Vekkelse

No Alvará de Ley de 1721, a delimitação temporal da proteção dos artefactos é sucinta: o seu término encontra-se no reinado de D. Sebastião. Estabelece-se assim um limite preciso à investigação do Passado, sendo que a Restauração se assume como um fenómeno histórico, como constatável na obra seiscentista História de Portugal

Restaurado, por D. Luís de Menezes, 3º Conde da Ericeira, e não arqueológico. No

entanto, documentam-se inscrições portuguesas e latinas (Azevedo,1898:315-329) e sepulturas (Azevedo,1896:252-264). A difusa divisão da fronteira entre o Passado e o Presente assume-se no próprio Alvará, um “inventário artístico” nacional. A relevância para a investigação arqueológica neste período assenta na indissociabilidade que esta verifica com as metodologias da Filologia e da História da Arte. É por essa razão que, quanto mais recentes são os vestígios, mais esses métodos são utilizados, e maior a inserção de objetos e edifícios no âmbito de realidades artísticas.

Ao longo deste capítulo, apresentaram-se abordagens a períodos cronológicos como são hoje designados na investigação arqueológica científica, extrapolando-os para os seus equivalentes setecentistas. Este exercício pretendeu demonstrar que o interesse e estudo das Antiguidades possuem um largo espectro temporal, desde os tempos mais remotos ao final do período contemplado no Alvará de Ley e que são tratadas à luz das suas particularidades e do que as fontes permitem asseverar. Contudo, estas Antiguidades, quando retiradas do seu contexto original, são guardadas em espaços e coleções quando retiradas do seu contexto original, os denominados Gabinetes, objeto de análise do próximo capítulo.

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1705 – Publicação de The Antique and Present State of

Portugal, por John Stevens

1720 – Referência a pedra de raio no Vocabulario

Portuguez e Latino de Raphael Bluteau

1721 – Alvará de Ley de proteção do património cultural português e formação da Real Academia de História Portuguesa

1723 – Descoberta de arte rupestre em Moçambique por Frei Manuel de Santo Tomás

1724 – Contestação de D.Jeronymo Contador de Argote em conferência apresentada à Real Academia da História Portuguesa referente à importância dos estudos históricos de localidades, especialmente face ao legado romano de Braga / Notícia de descoberta de medalha romana em Évora 1724 – Notícia da descoberta de medalhas árabes apresentadas à Real Academia de História Portuguesa 1732 – Notícia da descoberta de inscrição romana na Igreja de S.Martinho

&

Publicação do primeiro volume das Memórias Históricas

para o Arcebispado de Braga, por D.Jeronymo Contador de

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1733 – Conferência de Mendonça e Pina na Real Academia de História Portuguesa, sobre o tema das antas

1733 – Notícia da descoberta de ruínas e inscrição romana em Ferreira do Zêzere

1734 – Notícia apresentada na Real Academia de História Portuguesa acerca da formulação de uma lista de antas presentes no território nacional pelo Padre Fr. Afonso da Madre de Deus Guerreiro

&

Publicação do segundo volume das Memórias Históricas

para o Arcebispado de Braga, por D.Jeronymo Contador de

Argote

1735 – Explicação da formação da pedra de raio em

Materia Medica Physico-Historico-Mechanica de Jacob de

Castro Sarmento

&

Publicação de Histoire Generale du Portugal por M. de la Clede

1737 – Publicação da Numismologia ou breve recopilação

de algumas medalhas dos Imperadores Romanos de ouro, prata, e cobre, que estão no museu de Lourenço Morganti… a que se ajunta uma Bibliotheca de todos os auctores que escreveram de medalhas e inscripções antigas, por Bento

Morganti

1742 – Publicação d’A Dissertação historica e critica sobre

a inscripção que existe no campo de Santa Anna na cidade de Braga, por Bento Morganti

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1753 – Ação de escavação de uma anta pela parte de Padre José Gaspar Simões

1755 – Episódio destrutivo em Lisboa, causado por terramoto no dia 1 de Novembro, Dia de Todos-os-Santos 1758 – Início da organização das Memórias Paroquiais, onde se encontram notícias arqueológicas ao longo do território nacional

1759 – Publicação da Collectio Academiae Liturgicae

1765 – Publicação de Observaçoens sobre a língua e

orthografia latina, por António Pereira de Figueiredo

1770 – Descoberta do “criptopórtico” da Rua da Prata, em Lisboa

1772 – Descoberta das Termas dos Cássios, em Lisboa 1780 – Publicação da Breve instrução sobre as medalhas

romanas, para os primeiros estudos do novo curioso, por

Frei Vicente Salgado

1781 – Interpretação das antas como potenciais sepulturas de grande antiguidade, no Cabo Mondego

1784 – Publicação de Conjeturas de uma medalha de

Bronze, por Frei Vicente Salgado

1785 – Descoberta de estátuas militares antigas no Outeiro Lesenho

1785 – Publicação de Os estrangeiros no Lima, por Manoel Bezerra

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1786 – Publicação das Memorias ecclesiasticas do Reino

do Algarve, por Frei Vicente Salgado

1788 – Encenação da peça Osmia na Real Academia das Ciências, onde figura uma anta interpretada como sendo um altar

1790 – Publicação de Documentos Arabicos para a

Historia Portugueza, por Frei João de Sousa

1791 – Publicação de Cuidados Literários do Prelado de Beja em Graça do seu Bispado, por Frei Manoel do Cenáculo

1792 – Publicação de Memória das antiguidades de Caldas

de Vizela, com notícia de acções de escavação, por José

Mascarenhas Neto

1793 – Publicação de Memória de quatro Inscripções

Arábicas suas traduções, por Frei João de Sousa

1795 - Explicação da formação da pedra de raio na

Recreação Filosofica do Padre Theodoro D’Almeida

1800 – Publicação de Sisenando Mártir e Beja Sua Pátria, por Frei Manoel do Cenáculo

Fig. 15 – Principais acontecimentos e obras publicadas relacionadas com a temática das Antiguidades no século XVIII em Portugal

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Capítulo 4

4. Gabinetes

Na caraterização do pensamento arqueológico em diacronia, foi realizada uma análise preliminar aos Gabinetes, em particular a sua organização, conteúdo e funções. Pertencentes a um período cronológico lato, integrado na Idade Moderna, estes espaços representariam um microcosmo do Mundo através da exposição de objetos exóticos ou que despertassem curiosidade. Estabelecemo-los como pontos centrais que entrecruza temas, tendências e ideologias. Apenas através da perceção de todos estes elementos se poderá atestar a verdadeira complexidade destes estabelecimentos, assim como desafiar noções predefinidas sobre a sua natureza.

Um dos seus traços mais marcantes é o aparente caos que neles impera, em termos de organização. Embora já o tenhamos frisado, a recente historiografia, em detrimento de uma análise de diletantismo puro, tem considerado o Gabinete como a consolidação de uma nova visão do mundo, um autêntico microcosmo (Pomian,1990:69; Carvalho,2017:1932). Sendo uma realidade que se constrói no decurso do século XVII, os Gabinetes setecentistas são alvo de processos de reformulação das coleções que os constituem (Schulz,1990:214-215). Assim, estes tornam-se o reflexo do espírito da Enciclopédia (Schulz,1990:217) quando emergem categorias que incorporam determinados objectos (Pomian,1990:45).

É inequívoca a ligação dos objetos, e do espaço em si, a uma vertente artística. A própria transição entre Kunstkammer, quartos de arte e Wunderkammer, quartos de maravilhas é precisamente a mudança de um estabelecimento exclusivamente conectado à arte para passar a ser um local onde se reúnem curiosidades (Schulz,1990:208). Esta realidade não iria implicar um corte absoluto com a estética, ou com objetos artísticos, mas antes uma alteração da prioridade concernente ao uso do espaço, da sua função e da necessidade de estabelecer um microcosmo. A este último, conceito proposto por Krzysztof Pomian, alia-se um outro, que funde a componente artística com a visão do mundo, o conceito de cabinets of the world de Eilean Hooper-Greenhill. Este cobre a componente cénica com a exposição de artefactos, animais e minérios cujo relevo para a compreensão da realidade é universalmente aceite (Hooper-Greenhill,2003:82). Assim, o

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cabinet of the world consistiria na utilização de “(…) material images and similitudes to

reveal the order of the world.” (Hooper-Greenhill,2003:90)

Essa dualidade – a combinação entre o discurso estético e científico - conduz a que o Gabinete seja comumente apontado como o antecessor do museu moderno (Bowry,2015:58-59). Não apenas pelo teor das coleções, mas da didática inerente à crescente abertura que estes estabelecimentos apresentavam (Schulz,1994:176). Deste modo, a fronteira entre a esfera privada e a pública tende a complexificar-se, embora obviamente não se possa classificar o Gabinete como uma instalação pública, aberta a todas as camadas sociais.

Independentemente desse aspeto, é certamente um espaço que provoca quem o visita. É visível pela sua arquitetura sistemática, cujo olhar progressivo desempenharia o aumento da curiosidade do visitante face ao seu interior (Ekman,2018:226), colocando-o no centro do microcosmo, uma verdadeira disposição humanista. A sua disposição convida igualmente à memória representativa, do que simboliza uma determinada temática e qual a sua ligação com os artefactos circundantes (Ekman,2018:232-233). Todos estes elementos revelam uma tríade de aspetos fundamentais. Se o colecionismo é o mais percetível, especialmente pelas profundas informações que os Gabinetes oferecem para a história das coleções (Schulz,1990:205-206; Carvalho,2017:1934), sublinhem-se dois outros. O primeiro, o Conhecimento, abrange a emergência de uma cultura não só de curiosidade, mas de saber, que se alia ao nascimento de Academias, Simpósios, Conferências e à imprensa escrita. A necessidade de entender a profundidade da Criação é premente, com as coleções de curiosidades a servirem também para esse propósito de pesquisa (Schulz,1990:217). Por fim, o individualismo reporta-se à emergência de figuras singulares, mas igualmente de projetos associados a uma única pessoa, à sua erudição e características próprias.

Evidentemente, o Indivíduo existe dentro de uma Sociedade. Se um dos aspetos sociais que se verificam consiste no binómio privado/público, no sentido de um espaço que é ao mesmo tempo pertença de um indivíduo ou instituição, mas aberto a visitas, um outro assenta no facto do Gabinete ser uma propriedade exclusiva de determinados estratos sociais. Já não se limitava às famílias reais, mas antes a diferentes níveis da aristocracia, clero e intelectuais (Pomian,1990:41), sendo que o foco sobre preciosidades é substituído pela curiosidade intrínseca, aliviando a pressão económica de compra de uma coleção.

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Isto traduz-se na possibilidade se poder formar uma coleção composta por antiguidades locais e feitas de materiais modestos, sem que a sua depreciação a nível da riqueza que os constituem interfira com a capacidade de proporcionar curiosidade ao Observador. Todos estes temas permeiam os Gabinetes e cada um dos mesmos tem o potencial de ser explorado individualmente. A sua ligação é necessária para entendê-los como um todo, tomando em atenção as suas dimensões várias. Se estes possuem um lugar na história das coleções, da arte, da sociedade, da arquitetura e da filosofia, há que explorar a sua importância para a História da Arqueologia.