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As representações diagramáticas são espécie de modelo conceitual utilizado nos estudos dos sistemas socioambientais. Essa ferramenta tem natureza qualitativa (NEUDOERFFER et al, 2005) e sua base de construção se resume a um conjunto de palavras, que representam os elementos do sistema, e setas, que representam as relações entre os elementos, sob a ótica dos atores que observam o sistema, sejam eles especialistas ou não. Na Figura 1.04 estão apresentados trechos de modelos que permitem verificar a estrutura básica (não importando o conteúdo, neste caso) desse recurso de modelização.

Figura 1.04 – Representações diagramáticas utilizadas em pesquisas científicas (adaptado de Waltner-Toews &

Lang, 2000; Waltner-Toews et al, 2003; Waltner-Toews et al, 2005; Gitau, 2001)

As relações entre os elementos de uma representação diagramática são classificadas em dois tipos (GITAU, 2001): (i) positivas – ocorrem quando a condição do elemento que gera a relação implica em tendência para o mesmo estado no elemento que recebe a relação; e (ii) negativas – ocorrem quando a condição do elemento que gera a relação implica em tendência para o estado oposto no elemento que recebe a relação. Por julgar mais adequados, acrescentamos os termos diretas e inversas, em referência às relações positivas e negativas, respectivamente.

Em alguns casos, o arranjo dos elementos e relações nas representações diagramáticas forma ciclos de retroalimentação. Os ciclos são diferenciados em função do número de relações inversas. Nos ciclos positivos ou de amplificação não há relações inversas, ou estas estão em número par. Nos ciclos negativos, ou de estabilização, há número ímpar de relações inversas (MARTEN, 2007, p. 17-20). Segundo Marten (2007), os ciclos podem apontar para muitos problemas socioambientais que surgem dos processos de amplificação no sistema, como também para os processos de intervenção para controle ou reversão de problemas.

Na literatura, são atribuídas diferentes terminologias às representações diagramáticas. Para Christofoletti (1999, p. 25), esses modelos tratam-se de diagramas de caixas-e-setas, os quais servem como ponto de partida para a análise de sistemas complexos.

Segundo Ridgley & Lumpkin (2000), esses modelos são denominados mapas cognitivos. Sua aplicação é voltada para a elucidação do conhecimento sobre a dinâmica de contextos reais marcados por incertezas e conflitos, por meio da representação de redes de relações de causa e efeito entre elementos de um sistema utilizadas por especialistas para descrevê-lo. O propósito desse recurso de modelagem e de seu processo de construção é a elicitação do conhecimento de especialistas de diferentes áreas para articular suas percepções em representações integradas do objeto de estudo, como também evidenciar pontos de desacordo e contradição no grupo. Gitau (2001) compartilha do mesmo conceito apresentado por Ridgley & Lumpkin (2000), entretanto com a aplicação da ferramenta para elicitar conhecimentos locais, adquiridos com base na experiência de vida e no saber empírico, sobre as relações de influência entre elementos de diversas dimensões de um sistema socioambiental.

Autores como Waltner-Toews et al(2003), Waltner-Toews (2004); Waltner-Toews et al (2005) e Neudoerffer et al (2005) denominam essa metodologia de modelagem como diagramas de influência. Esses autores desenvolvem a aplicação da ferramenta em pesquisas interdisciplinares participativas, nas quais buscam construir com as comunidades locais as interações multidimensionais (entre meio ambiente, sociedade e saúde) que estão por trás dos problemas de meio ambiente e saúde humana. A representação dessas problemáticas permite elucidar as percepções de sua dinâmica pelas comunidades locais, explicita os principais atores sociais, instituições, problemas, necessidades e elementos que constituem a realidade dessas comunidades, além de demonstrar as estratégias visualizadas por esses grupos para reverter os problemas conhecidos.

Para Neudoerffer e colaboradores (2005), os diagramas de influência mapeiam relações essenciais entre os elementos de um sistema. Com isso, permitem evidenciar e explicitar, de forma esquemática, relações dificilmente reconhecidas por meio da análise de narrativas ou depoimentos. Ademais, esses recursos de modelização se mostram úteis no apontamento de pontos cruciais para intervenção em diferentes níveis hierárquicos do sistema (WALTNER-TOEWS et al, 2005).

A contribuição dessa metodologia, segundo Waltner-Toews e colaboradores (2003), não se restringe tão somente à obtenção de representações variadas sobre os sistemas socioambientais. Seu atributo principal é o potencial de despertar um processo de ressignificação da ciência e dos papéis dos cientistas, na medida em que exercita nos especialistas a prática científica a partir de questões reais e urgentes para as pessoas que vivem num sistema socioambiental, no lugar de uma lógica de fora para dentro, na qual o objeto de investigação é determinado pelos cientistas.

As experiências de pesquisa em saúde e meio ambiente em que os diagramas são empregados possuem uma abordagem metodológica própria, denominada Metodologia Adaptada para Sustentabilidade Ecossistêmica e Saúde Humana (AMESH, em inglês: Adaptive Methodology for Ecosystem Sustainability and Health). A AMESH é dividida em cinco ações principais: 1- identificação da situação-problema; 2- contextualização da situação-problema, mediante identificação dos principais atores sociais, dos elementos e processos sociais, ecológicos e de saúde; 3- elicitação do conhecimento dos atores sociais para obter narrativas do processo que conduziu à atual configuração da situação-problema e representações dos principais elementos e relações que retrata a situação-problema; 4- desenvolvimento do entendimento sistêmico; 5- pesquisa e intervenção colaborativa (WALTNER-TOEWS, 2004).

Segundo Waltner-Toews et al (2005), a análise dos diagramas isoladamente é insuficiente para a compreensão dos sistemas dinâmicos. A análise descontextualizada desses modelos tende a gerar impressões de que as relações em um sistema socioambiental não se modificam com o tempo. Nos moldes da AMESH, as narrativas constituem não só a base de construção dos diagramas, como também servem para agregar significado a esses modelos. As narrativas contribuem para a caracterização de um sistema a partir de diferentes perspectivas e epistemologias de conhecimento, fornecendo descrições qualitativas que podem ser empregadas na identificação dos componentes e das conexões essenciais para representação do sistema na forma de diagramas de influência (NEUDOERFFER et al, 2005). Podem contribuir também indicando cenários de um sistema socioambiental (KAY, 2000). Os cenários são os possíveis estados futuros de organização do sistema e as condições sob as quais eles ocorrem, bem como o contexto humano e o nível hierárquico do sistema em análise (KAY et al, 1999).

A consulta da literatura indica que a metodologia de construção dos diagramas varia entre as experiências de pesquisa relatadas. Em estudo realizado no Nepal

(NEUDOERFFER, 2005), a elaboração dos diagramas se baseou em registros escritos de entrevistas e grupos focais. Com base nessas narrativas dos sistemas discutidas em grupo, os pesquisadores que executaram a atividade elaboraram os diagramas com outros membros da equipe de especialistas. Em outra fase da pesquisa, os pesquisadores apresentam os diagramas aos grupos para validação.

No Kênia (GITAU, 2001), a elaboração dos diagramas ocorreu durante a realização de atividades de grupo focal e os atores sociais participaram do processo de montagem dos modelos. Nessa experiência de pesquisa, os participantes dos encontros eram distribuídos em grupos de 6 a 10 pessoas, coordenados por um moderador – pesquisador – que promovia as discussões e por uma pessoa que registrava as informações. Os grupos recebiam a instrução de discutir como os problemas locais, os interesses e as ações dos atores sociais interagem uns com os outros de forma a precipitar mudanças na saúde e na sustentabilidade do sistema socioambiental local. Com base nas discussões, os participantes representaram suas percepções na forma de mapas cognitivos. Após as reuniões participativas, os mapas cognitivos foram analisados juntamente com os registros das discussões, terminando na construção de diagramas de influência com descrições mais detalhadas das percepções dos atores locais sobre seu contexto socioambiental (WALTNER-TOEWS, 2004).

2 ONDE E COMO SE DESENVOLVEU A PESQUISA

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