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73 Agradecemos ao nosso colega e amigo Pedro Pinto esta informação. 74 Cf. José Pinto Loureiro, «Livros e livrarias de Coimbra», pág. 117.
A importância do mercado livreiro ligado à Universidade de Coimbra não poderia passar despercebido junto de uma família cuja actividade tipográfica acompanhou todo o século XVII e levou João Alves Dias a utilizar a expressão “dinastia de impressores”75 para a ela se referir – os Craesbeeck: Pedro, Lourenço e
Paulo, aos quais se deverá juntar a oficina Craesbeeckiana.
A dinastia de impressores da família Craesbeeck foi fundada por Pedro Craesbeeck – ou Pieter van Craesbeeck, nascido em Antuérpia por volta de 1572, conforme aponta João José Alves Dias, que afirma, no seguimento de Venâncio Deslandes76, que o impressor terá feito a sua aprendizagem na oficina de Christophe Plantin durante seis anos77. Terminada a formação, Pedro Craesbeeck passou a Lisboa, segundo o mesmo autor, talvez em 1592, vindo aqui a casar pelos anos de 1596-1597. Muitas dúvidas permanecem sobre o período em que permaneceu na capital portuguesa até imprimir a primeira obra ostentando o seu nome no pé de imprensa, mas João Alves Dias avança com a hipótese de ter o impressor trabalhado na oficina de Manuel de Lira, até este se deslocar para Évora, deixando os seus antigos prelos, por trespasse, a Pedro Craesbeeck78.
Craesbeeck lança-se, assim, na actividade editorial por volta da época em que se casou com Susana Domingues de Anvers, de ascendência flamenga, de cuja ligação nasceu Lourenço Craesbeeck em 1599 e Paulo Craesbeeck em 1605. Não sendo nosso propósito traçar aqui o percurso da oficina lisboeta dos Craesbeeck, há que, no entanto, reter estes nomes porque todos eles estiveram activos em Coimbra na primeira metade do século XVII. Nesta cidade, Pedro Craesbeeck estabelece-se na rua das Fangas da Farinha, segundo é indicado por João Alves Dias, de modo a ter um pólo da sua oficina junto da Universidade, conforme fizera Christophe Plantin em relação à Universidade de Leyde79. Aí esteve activo nos anos de 1608 e 1609, mas a oficina não persistiu: somente em 1638, seis anos depois da morte de Pedro Craesbeeck, o seu filho Lourenço
75 João José Alves Dias, Craesbeeck. Uma dinastia de impressores em Portugal [...], Lisboa, Associação
Portuguesa de Livreiros Alfarrabistas, 1996.
76 Venâncio Deslandes, Documentos para a história da tipografia portuguesa nos séculos XVI e XVII
(prefácio de Artur Anselmo), 3.ª edição, [Lisboa], Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988, pp. 146- 149.
77 Cf. João José Alves Dias, Craesbeeck. Uma dinastia de impressores em Portugal [...], Lisboa,
Associação Portuguesa de Livreiros Alfarrabistas, 1996, pág. IX.
78 Cf. Idem, Ibidem, pp. IX-X. 79 Cf. Idem, Ibidem, pp. XI-XII.
abandona Lisboa para se fixar em Coimbra, onde permaneceu até 1648, chegando a trabalhar em associação com Diogo Gomes de Loureiro80.
Segundo João Alves Dias, o filho mais velho não teria levado o material tipográfico de Lisboa para Coimbra; porém, existe em Coimbra material tipográfico semelhante ao utilizado pelos Craesbeeck até aí, se bem que não tenhamos condições para saber se foi levado por Lourenço ou pelo pai quando aí teve oficina. Indubitável é o facto de haver nos parques tipográficos das oficinas conimbricenses uma colecção de capitulares decoradas com motivos vegetalistas de formato quadrangular com cerca de 20 milímetros de diâmetro, muito semelhantes às utilizadas pelos Craesbeeck em Lisboa e em Coimbra, aparecidas pela primeira vez entre as letras de Diogo Gomes de Loureiro. Resta saber se foi Lourenço que introduziu tal material tipográfico, ou se ele teria sido levado aquando do efémero estabelecimento de Pedro Craesbeeck em Coimbra.
Em Lisboa, a oficina teria ficado entregue a Paulo Craesbeeck, que por essa altura era livreiro e, portanto, não poderia exercer o ofício de impressor; porém, conseguiu fazer imprimir várias obras utilizando vários estratagemas descritos por João Alves Dias81: por um lado, nunca apareceu uma referência a uma oficina de Paulo
Craesbeeck, mas somente obras dadas à luz por Paulo Craesbeeck; depois, associou-se o nome de Lourenço de Anvers, como titular da oficina, ao nome de Paulo Craesbeeck, livreiro – porém, esse Lourenço de Anvers seria Lourenço Craesbeeck82.
Em 1648, a oficina de Coimbra passa, por trespasse, a Paulo Craesbeeck, unificando-se os dois pólos da oficina então existentes; no ano seguinte, surge uma nova designação – oficina Craesbeeckiana, utilizada tanto em Lisboa como em Coimbra; porém, a oficina de Coimbra parece ter desaparecido em 1651 e, seis anos depois, a oficina de Lisboa separa-se em duas – a de Paulo Craesbeeck e a de seu filho António, que a história da tipografia registou como António Craesbeeck ou António Craesbeeck de Melo83. Mas não consta que os Craesbeeck voltassem a ter oficina em Coimbra.
A obra conimbricense dos Craesbeeck não foi muito vasta, mas teve alguma importância no que respeita às obras produzidas.
Efectivamente, do “pai” Pedro Craesbeeck poucas obras se conhece ali impressas: a Introductio in graecam linguam ex institutionibus gammaticis Nicoli
80 Cf. Idem, Ibidem, pp. XII-XIII. 81 Cf. Idem, Ibidem, pp. XIV-ss. 82 Cf. Idem, Ibidem, pág. XIV. 83 Cf. Idem, Ibidem, pág. XVI.
Clenardi [...], de 1608; a Opus de uirtute, et statu religionis [...], em dois tomos, ambos impressos, igualmente, em 1608.
Já Lourenço Craesbeeck foi o membro da família que mais tempo permaneceu estabelecido em Coimbra, imprimindo entre 1639 e 1647. Iniciou a sua actividade em Coimbra com a Relação dos sucessos victoriosos que na barra de Goa ouue dos
ollandezes Antonio Telles de Menezes […], em 1639 e, no ano seguinte, dá à estampa o Templum Aeternitatis Poema Panegyricum […] de António Figueira Durão. Em 1641
imprime uma única obra parenética, o Sermam en omeasti o e demonstrati o da indubitauel justiça o serenis. e D. Ioam o I . o a lamado neste seu re no
[…], prégado por Frei Luís de Sá84; todas as outras obras por ele impressas neste ano
referem-se a provas académicas: as Conclusiones Philosophicae […] de Domingos
Abreu; as Conclusiones Selectae […] de Vicente do Amaral; as Conclusiones Quodlibeticae […] de Afonso Castilho; as Conclusiones ex Universa Naturali Theologia […] de Barnabé Dias; as Conclusiones ex Universa Philosophia Naturali […] de Mateus Ferreira; as Conclusiones Philosophicae ex Libris de Caelo Meteoris […] de
Manuel Mendes; e as Conclusiones Physicae […] de Manuel Pereira.
Em 1642 imprimiu somente o Treslado fiel, e verdadeiro de ha carta que da
Villa da Ponte da Barca mandou a Coimbra certa pessoa a credito, & authoridade a hum seu amigo. Nella se da conta do que atégora tem sucedido pello Porto, & Castello de Lindoso, Portella de Homem, & Soayo, nas entradas que se fezeraõ contra o Reyno de Galliza o ano de 1641 & 42, com felice sucesso de nossas armas85.
No ano seguinte, Lourenço Craesbeeck imprime em Coimbra o Sermão que o
Padre Antonio Bandeira da Companhia de Iesus pregou na See desta Cidade de Coimbra, na celebridade, com que ella solemnisou o nascimento do Serenissimo Infante Dom Affonso em 7. de Setembro de 164386, dedicado a D. Francisco de Castro, bispo inquisidor-geral.
1647 foi o último ano em que Lourenço Craesbeeck terá exercido a actividade de tipógrafo em Coimbra. Trabalhou em duas obras, mas só deixou uma completa, a
84 Publicado em A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração (organização, introdução e
notas de João Francisco Marques), Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2007, pp. 59-105.
85 Há uma referência desta obra no Arquivo de História e Bibliografia, vol. II, pág. 151, n.º 116. Existia
um exemplar na biblioteca de Francisco Palha (Cf. Catálogo da [...] livraria [de] Francisco Palha [...], Lisboa, Typographia Santos, 1913, n.º 3136. Actualmente, há um exemplar nos Estados Unidos da América, em Harvard e outro no Brasil, na Fundação Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro).
86 Publicado em A Utopia do Quinto Império e os Pregadores da Restauração (organização, introdução e
Relação do assassinio intentado por Castella, contra a Magestade del Rey D. João IV […]. O Ceremonial da Congregação dos Monges Negros da Ordem do Patriarcha S. Bento do Reyno de Portugal […], reformado, por ordem do Geral Frei Francisco Carneiro, pelos padres Manuel da Ascensão e Pedro de Meneses, foi terminado em 1648 na oficina de Diogo Gomes de Loureiro.
Paulo Craesbeeck aparece como impressor em Coimbra em 1641, com o Assento
em cortes pelos tres estados dos Reynos de Portugal, de acclamaçaõ, restituição, & juramento dos mesmos Reynos, ao muyto Alto, & poderoso Senhor Rey Dom Ioão o Quarto deste nome [...], mas nada mais parece ter impresso até 1649, com o Sermão […] A primeira pedra do Templo […] do Padre Bento de Sequeira, uma altura em que
Lourenço Craesbeeck já tinha terminado a sua carreira na cidade do Mondego há mais de um ano. A longevidade da obra tipográfica de Paulo em Coimbra não ultrapassa os três anos, durante os quais imprime, essencialmente, parenética; em 1650, aliás, só imprime sermões do Padre Bento de Sequeira: a Oraçam funeral […] em as honras do
Serenissimo Iffante Dom Duarte Irmam da Sacra, & Real Magestade del Rey nosso Senhor Dom Ioam o Quarto de Portugal. Aos 15. de Dezembro de 1649; o Sermam […]
à primeyra pedra do Templo, & Conuento Real, que a Real Magestade delRey Dom Ioam o IV. leuanta à Rainha Santa Isabel sua Auoo […]; e o Sermão […] em a festa do
anjo custodio do Reyno de Portugal. Paralelamente, a Oficina Craesbeeckiana imprime edições diferentes de alguns destes sermões: o Sermam […] à primeyra pedra do Templo, & Conuento Real, que a Real Magestade delRey Dom Ioam o IV. leuanta à Rainha Santa Isabel sua Auoo […] e a Oraçam funeral […] em as honras do Serenissimo Iffante Dom Duarte Irmam da Sacra, & Real Magestade del Rey nosso Senhor Dom Ioam o Quarto de Portugal. Aos 15. de Dezembro de 1649.
Em 1651, o único representante da família Craesbeeck presente em Coimbra parece ser Paulo, imprimindo mais dois sermões de Bento de Sequeira – o Sermão [no]
dia do Patriarcha S. Francisco […] e uma nova edição do Sermão […] em a festa do anjo custodio […], e um tratado de filosofia: o Cursus Philosophicus […] do Padre
Francisco Suarez, do qual conhecemos duas variantes.
Assim se resume a obra dos Craessbeeck em Coimbra, com duas características únicas: em primeiro lugar, parece que todas as obras foram publicadas sem apoios externos, pois não existem referências a quem as possa ter mandado imprimir; excepção são as obras destinadas à prestação de provas académicas na Universidade, impressas por Lourenço Craesbeeck em 1641, que certamente não terão sido financiadas pelo
impressor. Porém, a sua impressão leva-nos a levantar mais um problema: sabendo que nunca Lourenço foi impressor privilegiado da Universidade, o que é confirmado pelo pé de imprensa dessas obras, porque razão não terão os respectivos autores recorrido aos serviços de Diogo Gomes de Loureiro ou de Manuel de Carvalho, ambos detentores do privilégio?87