Mesmo durante o período de predomínio da lavoura cafeeira nos municípios da região, houve espaços para outras culturas, que ganharam maior visibilidade após a década de 1930, conforme vimos. Registrou-se também em Santa Rita do Passa Quatro relativo desenvolvimento industrial, destacando: a Indústria de Laticínios Paulista, responsável pela produção do Leite Condensado Santa-Ritense, instalado no início da década de 1920, posteriormente incorporado a Cia Nestlé; a Indústria Reunidas Santa Rita S/A, com produção de sacos de juta durante as décadas de 1940 até 1968 dada a sua falência, espaço onde funcionou do início os anos de 1970 até 1978 a Jutacional – Justifício Nacional Ltda; Indústria de Bebidas Missiato, que desde os anos de 1960 atua na área de envasamento de bebidas alcoólicas; a Açucareira Manarin, responsável pelo empacotamento e distribuição do Açúcar Cristal Santa Rita, desde os anos de 1980; dentre outros estabelecimentos e atividades de menor vulto. Na área rural o destaque foi a Companhia Usina Vassununga, e posteriormente sua sucessora, a Usina Santa Rita S/A.
A região onde se localizavam as colônias daquela usina possuía uma estrutura que possibilitava aos moradores residirem praticamente sem dependências de um centro urbano;
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possuíam mercearias, padarias, farmácias, escolas, agência de correio, salões de festas, capela, campos de futebol e, por um período experimental, até mesmo uma sala de cinema, conforme descrito nos levantamentos realizados para o Plano Diretor do município em 1958/59. Os problemas administrativos e financeiros pelos quais esta Usina passou nos anos de 1960 até 1969 com a sua falência contribuíram para o despovoamento daquela área e, por conseguinte o abandono daquela forma de organização social. Grande parte dessas pessoas migrou para as áreas urbanas após a reestruturação das formas de emprego de mão de obra sob o novo ritmo agroindustrial.
A homogeneização das paisagens rurais sob as plantações canavieiras promoveu profundas modificações não apenas na área rural do município, mas a cidade também se reorganizou social e espacialmente. Atualmente mais de 80% da população vive na área urbana. Embora a cidade ainda se mantenha em pequenas proporções, nos últimos vinte e cinco anos houve uma sensível expansão de conjuntos habitacionais que revelam, para além do crescimento vegetativo natural, um crescente fluxo migratório para área urbana até então não registrado. Essa expansão acelerou a ocupação do solo tornando essas áreas periféricas mais recentes regiões de fronteira com áreas que, por lei, seriam de preservação permanente, mas se encontram completamente degradadas.
Tabela 13 Evolução demográfica do município de Santa Rita do Passa Quatro
Fonte: Os dados aqui apresentados foram compilados a partir de: BELLUZ, Carlos Alberto Del Bel.
Santa Rita do Passa Quatro: imagens da época do café. op. cit.; PLANO DIRETOR do Município de
Santa Rita do Passa Quatro-SP. op. cit.; Informativo da Prefeitura disponível na Biblioteca Municipal “Evandro Mesquita” e www.seade.gov.br/produtos/imp/sam/index.php?page=tabela Acesso em 22 ago.
2006
Total. Urbana. Rural.
1872 2.362 N/disp. N/disp. 1886 6.459 N/disp. N/disp. 1900 10.994 N/disp. N/disp. 1918 17.917 2.970 14.751 1920 20.207 N/disp. N/disp. 1934 16.247 3.379 12.868 1940 13.972 3.870 10.102 1950 14.330 4.700 9.630 1970 19.262 10.662 8.600 1980 20.826 13.684 7.142 1991 24.285 18.501 5.784 2000 26.138 22.493 3.645 2005 27.288 23.975 3.313
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Notamos por meio dos dados acima que o período de 1920 a 1940 foi registrado um decréscimo na população do município. O lapso de catorze anos entre os dados referentes a 1920 e o próximo impossibilita precisar o momento em que se inicia a inversão, no entanto, tal fato, possivelmente, deve-se ao período de crise da cafeicultura.
Entre 1940 e 1950, o aumento do número da população pode ser relacionado ao desenvolvimento da área rural em torno da Cia Usina Vassununga com a expansão de suas atividades após a crise da cafeicultura, e ainda, a implantação pelo Governo do Estado do Sanatório para tuberculosos em 1945, em área então, há apenas dois quilômetros da cidade. Este Sanatório, além dos empregos gerados durante sua construção, possibilitou a fixação de muitas famílias em sua colônia, contribuindo, dessa forma, para aplacar um possível êxodo de famílias santarritenses e ainda trazendo outras para suprir demandas de cargos específicos.
Devemos considerar uma informação importante fornecida pelo Plano Diretor elaborado em 1959, pois alertava sobre a expansão da área urbana em loteamentos “prematuros”, dado o baixo número de habitantes por km2, principalmente em áreas afastadas do centro da cidade, não se fazendo necessária abertura de novos bairros. Visando evitar essa prática, o Plano Diretor foi enfático ao dizer sobre a urgente em se “sustar quanto possível a especulação imobiliária; impedindo que novos loteamentos sejam abertos. Caso contrário, sempre haverá na periferia da cidade zonas de população rarefeita sem nenhum equipamento, o que deve ser evitado”6. Para isso, foi proposta a fixação de um perímetro urbano que não poderia ser ultrapassado para constituição de novos loteamentos antes de ser alcançada uma taxa de densidade demográfica estabelecida em 150 hab/ha na área central e 80 hab/ha nas áreas periféricas7. No entanto, à primeira vista, não parece ter sido o que ocorreu tendo em vista o grande número de loteamentos abertos nas décadas de 1960 e 1970, onde alguns desse bairros, somente começariam a ser ocupados e a receber infra-estrutura a partir da década de 1980 e seguintes.
Embora não tenhamos conseguido levantar os dados demográficos referentes às década de 1960, podemos apontá-la como o momento em que a área urbana começa a registrar maior número de habitantes que a área rural. O que por si só não justifica a expansão dos loteamentos, pois, ainda segundo o referido Plano Diretor, em 1959, “a cidade só com os loteamentos atuais teria – portanto – capacidade para 18.167 habitantes”8, ou seja, população
6 PLANO DIRETOR do Município de Santa Rita do Passa Quatro-SP. op. cit. f. 82.
7 Ibid., f. 25. 8 Ibid., f. 82.
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que a cidade de Santa Rita registrará somente em 1991. O que dá a entender que a especulação imobiliária esteve intrinsecamente atrelada ao processo de expansão da área urbana do município de Santa Rita do Passa Quatro.
O município de Santa Rita do Passa Quatro ainda carece de estudos sobre a convivência social e as práticas de sociabilidades, principalmente sob as influências do grande número de imigrantes, sobretudo italianos e seus descendentes, que compõem a sociedade santarritense. Durante as primeiras décadas do século XX, temos conhecimento da existência de diversos locais, como o “Teatro Variedades”, que oferecia sessões de cinema, festivais de grupos dramáticos, dança, canto e mágica, ou os espaços dos clubes, tais como: “Democrata Familiar Club, Grêmio Literário e Recreativo, Associação Atlética Santa Ritense, Clube de Law-tennis e o Ideal Clube Operário”9. As poucas obras que trazem referência, e de maneira muito parcial, são de caráter mais memorialista que historiográfico.
Talvez, um dos primeiros espaços de sociabilidade que promovesse atividades culturais em Santa Rita, foi a Societá Italiana di Mutuo Soccorso Patria e Dovere, fundada em 07 de abril de 1889, por imigrantes italianos residentes neste município com a finalidade de auxiliar seus compatriotas que vinham trabalhar nas lavouras de café. Esta “Sociedade” ainda antes da virada para o século XX, em 1891, construíra um prédio que dispunha de salão para reuniões e palco para teatro. Este prédio localizava-se onde atualmente encontra-se a prefeitura municipal10. A Sociedade Beneficente Italiana como era conhecida, durante o período da Segunda Guerra Mundial foi obrigada o alterar sua denominação para Sociedade Beneficente de Santa Rita. No entanto, atualmente é reconhecida pelo nome que alude a pátria daqueles que a fundaram. Em decorrência do grande número de descendentes de italianos que moram em Santa Rita, desde 1993, realiza-se anualmente o Festival de Tradições Italianas.
O carnaval santarritense também era um evento que reunia muitos foliões nas ruas para o desfile dos blocos carnavalescos dos bairros da cidade. Não foi possível precisar quando esta prática tornou-se comum na vida social de Santa Rita, mas ao menos de meados dos anos de 1960 é sempre muito noticiada pela imprensa local, revelando os momentos de descontração desde os espaços dos clubes ao carnaval de rua, que duraria até o início dos anos de 1990. Desde então, acabaram as organizações dos bairros que organizavam os blocos para
9 BELLUZ, Carlos Alberto Del Bel. Santa Rita do Passa Quatro: imagens da época do café. op. cit., p. 63. 10 Cf. Sociedade Italiana – cem anos. Gazeta de Santa Rita, Santa Rita do Passa Quatro, ano XIV, n. 684, p. 12,
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o desfile pela avenida principal até a praça da Matriz onde era realizado o julgamento para definir o bloco vencedor.
Outro espaço muito utilizado para os encontros aos fins de tarde era o das cervejarias, em um total de cinco, notadamente implantadas por imigrantes seja alemão como Ernesto Richter ou italianos como das famílias Marchi, Rossi, Saggioratto ou Nicolosi, isso já nos primeiros anos do século XX, onde se degustava a cerveja “marca barbante”, produto artesanal trazidos pelas famílias italianas e alemãs. O nome pelo qual era conhecido o produto na época deriva do modo como eram fechadas as garrafas com as tampas amarradas por barbantes.
É interessante notar como as comunidades carentes têm formas diferentes de sociabilidade em resposta a uma situação de exclusão direta ou dissimulada. Percebe-se também que o estigma sobre os moradores dos bairros carentes é recorrente. Em conversa com qualquer segmento desta sociedade é possível identificar traços preconceituosos em suas falas. Em entrevistas realizadas com os proprietários de hotéis, pousadas e chácaras de aluguel do município era constante a referência aos moradores dos bairros carentes de forma pejorativa e preconceituosa. Alguns chegaram a criticar a própria construção de “casas populares” por atrair “pessoas pobres e feias” para a cidade, o que a tornaria menos atrativa do ponto de vista turístico. Embora declarada Estância Climática, em 1950, pelo Governo do Estado de São Paulo, sua “vocação” turística conforme indicada, pouco avançou no desenvolvimento desse setor, embora possua reconhecidos atrativos naturais, percebe-se ao longo da história recente deste município, ações isoladas que revelam, antes de tudo, a falta de planejamento para a área.