1. FAKTISKE OPPLYSNINGER
1.10 Vei- og trafikkforhold
O pensamento bakhtiniano estabelece uma conexão entre ato e palavra, propondo o estudo da língua como um fenômeno da comunicação relacionado a um contexto. Para o autor, a verdadeira substância da língua não é um sistema abstrato de formas lingüísticas, muito menos a enunciação monológica isolada, mas a interação verbal. Isso significa que os signos devem ser estudados, levando-se em conta que estão inseridos num grande contexto social, que, por sua vez, é regido por uma dimensão axiológica.
Para o autor, a ideologia está diretamente ligada ao signo e tudo o que é ideológico possui um significado e remete para algo situado fora de si mesmo. Ou seja, um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social), mas concomitantemente reflete uma outra realidade, que lhe é exterior.
Nesse sentido, a significação está diretamente ligada à existência de outros signos já conhecidos e a compreensão de um signo é uma resposta a um signo por meio de outro signo, formando uma cadeia única, contínua, criativa e de compreensão ideológica que vai se deslocando de signo em signo para um signo novo, estendendo-se de consciência individual em consciência individual, ligando umas às outras. Isso significa que os signos só emergem do processo de interação entre consciências individuais, sendo que a própria consciência individual está repleta de signos. A consciência, por sua vez, só se torna consciência a partir do momento em que se impregna de conteúdo ideológico (semiótico), ou seja, somente no processo de interação social.
Essa característica do signo demonstra a importância do aspecto social- axiológico nos estudos bakhtinianos, no qual o diálogo das linguagens é de grande amplitude, englobando aspectos que ultrapassam o aspecto social, como o diálogo das épocas e das culturas. Todo esse processo ocorre no cotidiano das pessoas por meio de discursos sociais, cristalizando-se naturalmente no seio da sociedade. Portanto, a ideologia, por meio dos signos, é a grande formadora do repertório de conhecimento e posicionamento dos indivíduos. Nesse sentido, Bakhtin afirma que a palavra é o fenômeno ideológico por excelência e se atualiza no processo de interação verbal, adquirindo os mais variados sentidos conforme o contexto.
Os signos apresentam especificidade, ou seja, cada campo da criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e retrata a realidade à sua própria maneira. Cada signo ideológico é muito mais que um simples reflexo ou sombra da realidade, porque ele é um fragmento material dessa realidade. Afinal, todo fenômeno que funciona como um signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som, como massa física, como cor, como movimento do corpo seja como outra coisa qualquer. Por tudo isso, Bakhtin afirma que a realidade do signo é totalmente objetiva, sendo, por esse motivo, passível de um estudo metodológico unitário e objetivo. “Um signo é um fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas ações, relações e novos signos que ele gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior” (Bakhtin, 2004, p. 33).
Bakhtin defende que a consciência individual é um fator sócio-ideológico, não podendo ser desenvolvido um estudo objetivo das ideologias ou da psicologia sem o
devido conhecimento desse fato e de todas as suas conseqüências. Dessa forma, para que uma definição da consciência seja objetiva, ela deve ser de ordem sociológica.
Segundo Bakhtin (2004, p. 36) a consciência adquire forma e existência nos signos que são criados por meio de grupo organizado no curso de suas relações sociais:
Os signos são o alimento da consciência individual, a matéria de seu desenvolvimento, e ela reflete sua lógica e suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica da interação semiótica de um grupo social. Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico, não sobra nada. A imagem, a palavra, o gesto significante etc. constituem seu único abrigo. Fora desse material, há apenas o simples ato fisiológico, não esclarecido pela consciência, desprovido de sentido que os signos lhe conferem.
1.3. A INTERTEXTUALIDADE
Sem dúvida, foi decisivo o papel de Bakhtin para o estudo da intertextualidade ao evidenciar a presença do “outro” no processo de comunicação.
Para os bakhtinianos, não é a língua que deve ser tomada como objeto e sim o texto, porque o homem não só é conhecido através dos textos, como se constrói enquanto objeto de estudo nos ou por meio dos textos. Nesse sentido, Barros, (2001, P.23) destaca que Bakhtin teve um papel relevante para os estudos lingüísticos, antecipando ou influenciando as principais orientações teóricas sobre o texto e discurso das últimas três décadas. A autora defende que o pensador russo – diferentemente do percurso delineado pelos estudos lingüísticos que, tendo a língua como objeto de estudo, priorizaram a observação de unidades até o nível da frase – “afirma que a especificidade das ciências humanas está no fato de que seu objeto é o texto (ou discurso)”. Nessa perspectiva é o texto o responsável pela distinção entre as ciências humanas e as ciências exatas e biológicas, que examinam o homem “fora do texto”.
Em Bakhtin o texto se define como um objeto significante, ou seja, as ciências humanas se preocupam com os processos de significação. Portanto, o texto é fruto da criação ideológica ou de uma enunciação, “com tudo o que está aí subentendido: contexto histórico, social, cultural, etc. Segundo Barros, isso significa que “o texto não existe fora da sociedade, só existe nela e para ela e não pode ser reduzido à sua materialidade lingüística (empirismo objetivo) ou dissolvido nos estados psíquicos daqueles que o produzem ou o interpretam (empirismo objetivo)”. Na visão bakhtiniana, o texto também é dialógico, definindo-se, dessa forma, por meio do diálogo entre os interlocutores e pelo diálogo intertextual e é justamente devido a essa postura dialógica que se constrói a significação. Por tudo isso isso, o texto também é visto como único, não repetível.
Segundo Bakhtin, a intertextualidade desempenha um papel altamente relevante no processo de formação da linguagem, por acumular toda a experiência humana de tantos e tantos textos produzidos anteriormente. Sendo a intertextualidade o princípio básico da formação da linguagem humana, todo processo cultural é constituído por meio de processos intertextuais. Portanto, o pensamento bakhtiniano nos leva à conclusão de que a intertextualidade é tão antiga quanto a história da humanidade.
Isso significa dizer que toda vez que alguém produz um texto, ele o faz tomando um texto anterior como referência, seja qual for a situação de comunicação. Por exemplo, é por meio de um processo intertextual que um nativo ancião transmite seus conhecimentos a um membro jovem de sua tribo. Afirmamos isso porque esses conhecimentos são transmitidos pelo ancião ao jovem, tendo como referência dados obtidos por meio de experiências acumuladas por gerações anteriores à sua. Ainda que ele passe algo novo, fruto de uma observação pessoal, essa observação não seria possível sem o conhecimento de mundo obtido por meio da transmissão de conhecimentos de seus ancestrais. Portanto, a intertextualidade evidencia que existe um grande elo em torno da linguagem: uma teia universal, construída pelo movimento circular do pensamento humano.
Julia Kristeva, primeira a empregar a expressão intertextualidade, também defende a idéia de que a elaboração de um texto ocorre com base em outros textos já existentes, ou seja, o texto é construído como um mosaico de citações e qualquer texto é, na verdade, a absorção e a transformação de outro. A autora, inspirada em Bakhtin, também defende que toda produção cultural nasce da interação de uma série de textos em intersecção com textos anteriores. Dessa forma, Kristeva questiona a noção que estabelece o autor como única fonte do texto, por afirmar que um texto não existe como um todo separado e auto-suficiente.
Kristeva estende o conceito de dialogismo de Bakhtin também aos sistemas simbólicos não-verbais, assim como a noção de texto: a autora considera texto quase todos os sistemas e estruturas culturais. Isso é importante para estender as fronteiras da intertextualidade para muito além do campo lingüístico. Atualmente se estuda a intertextualidade nos mais variados campos, como artes plásticas, cinema, dança e multimídia.
Na perspectiva bakhtiniana e também na de Kristeva, o texto é fator de mudança, porque se insere de um modo ativo e dialético na sociedade, reproduzindo e, ao mesmo tempo, transformando seus dados ideológicos num contínuo “diálogo textual”. Portanto, também em Kristeva, assim como em Bakhtin, podemos afirmar que a intertextualidade é um fator de construção social.
Fairclough (2001) defende a visão de que a intertextualidade está ligada a uma historicidade inerente aos textos, ou seja, o texto absorve e ao mesmo tempo é construído por textos passados. Nessa perspectiva, os textos são os maiores artefatos
que constituem a história. “Essa historicidade inerente aos textos permite-lhes desempenhar os papéis centrais que têm na sociedade contemporânea no limite principal da mudança social e cultural” (Ibid, p. 135).
Tudo isso evidencia a característica circulante da linguagem e o caráter interativo da comunicação. A intertextualidade aproxima os homens, as culturas e os tempos: tudo o que produzimos está inserido num grande patrimônio em contínua evolução. Seguindo esse raciocínio, cada homem contém em si toda a comunidade humana.
De certa forma, a intertextualidade corrobora a afirmação do Velho Testamento: “Nada de novo debaixo do sol! Mesmo que alguém afirmasse de algo: ‘Olha: isto é novo’!, eis que já aconteceu em outros tempos, muito antes de nós”, (Ecl 1, 9-10)
Para Barthes (1987, p. 49) não há textos puros “qualquer texto é um novo tecido de citações passadas” e todo texto é um intertexto; outros textos estão presentes nele, em diversos níveis, sob formas mais ou menos conhecíveis. O autor se refere à leitura como sendo um ato lexicográfico, ou seja, quando lemos estamos escrevendo nossa leitura, portanto, encontrando sentidos que nos levam a outros sentidos.
Ducrot (1980) também prestou uma importante contribuição aos estudos da intertextualidade. Segundo esse autor – apoiado no conceito de polifonia de Bakhtin e transportando-o para o nível lingüístico, no plano da Semântica da Enunciação – mesmo num enunciado isolado, há várias vozes ressonantes.
Os estudiosos da Análise do Discurso estudaram a intertextualidade como condição de existência do próprio discurso, portanto, a intertextualidade num sentido amplo. Maingueneau (2000) afirma que um discurso não vem ao mundo numa “inocente solitude”, mas sendo construído por meio de um “já-dito” em relação ao qual toma uma posição. Segundo o autor, o intertexto é um componente importante para as condições de produção, justamente porque – sendo a leitura um processo cognitivo, resultado de informações fornecidas pelo texto – decorre de fundamentos inter e multidisciplinares.
Beaugrande e Dressler( 1981) afirmam a necessidade de se evidenciar que os textos estão em constante convergência, interação e diálogo. É justamente pela relação que se estabelece entre o texto e textos anteriores que os interlocutores acionam fragmentos de sentidos já conhecidos por eles e que estão relacionados com a informação nova. Segundo os autores, a interdependência entre a produção e a recepção de um determinado texto e o conhecimento que os participantes do processo
de comunicação têm de outros textos ocorrem por meio de um processo de mediação que está intimamente ligado à atividade de elaboração do texto e sua relação com textos precedentes.
Kristeva, assim como outros estudiosos, aproximou bastante a noção de intertextualidade da literatura. Para a pesquisadora, o texto literário permite uma grande abertura de significação porque é constituído na sua essência por um cruzamento de superfícies textuais.
Segundo Mallarmé, fora da intertextualidade, a obra literária seria simplesmente incompreensível, tal qual a palavra de uma língua ainda muito desconhecida. Esse também é o pensamento de Jenny(1979) que afirma que só se apreende o sentido e a estrutura de uma obra literária se a relacionarmos com seus arquétipos que são abstraídos de textos anteriores que constituem a constante:
Esses arquétipos, provenientes de outros tantos «gestos literários», codificam as formas de uso dessa «linguagem secundária» (Lotman) que é a literatura. Face aos arquétipos, a obra literária entra sempre numa relação de realização, de transformação ou transgressão. E é, em grande parte, essa relação que a define.
Por tudo isso, Jenny afirma que fora de um sistema a obra é impensável, ou seja, a compreensão de uma obra pressupõe a competência na decifração da linguagem literária, que é adquirida na prática duma multiplicidade de textos. Segundo a autora, a intertextualidade se faz presente até mesmo no conteúdo formal de uma obra: uma paródia se relaciona simultaneamente com a obra que pretende caricaturar, ao mesmo tempo em que se relaciona com todas as obras parodísticas que fazem parte do seu próprio gênero textual.
Para Vigner (1988) – mesmo reconhecendo que a intertextualidade é especialmente manifestada na literatura – é fundamental contemplar o fenômeno da intertextualidade para além das fronteiras do discurso literário. Afinal ela está presente em outros discursos, como o político e o científico, e pode ocorrer com a mesma intensidade. O autor afirma ainda que, devido às relações intertextuais, todo texto propaga fragmentos de sentidos que de alguma forma são do conhecimento do leitor.
Koch (1986), partindo do princípio da heterogeneidade de Bakhtin, distingue a intertextualidade em sentido amplo e em sentido restrito.