Autor:: FERNANDES, J.C.(2011)
Mosaico 3 – Uberlândia - Setor Sul: paisagem dos bairros Morada da Colina e Copacabana
2.1 - O surgimento e a consolidação dos condomínios horizontais fechados
Alguns estudos analisam o surgimento destes condomínios nas grandes cidades e seus impactos sobre a mobilidade. Para Hollanda (2002, p.15), em Brasília, a mais rarefeita de todas as cidades brasileiras os condomínios horizontais fechados surgiram, a ocupar enorme parte da superfície do Distrito Federal e ratificar a estrutura esgarçada da cidade. Embora Brasília registre também o mais alto índice de motorização do país, mais da metade de todas as viagens para todos os fins ainda são feitos por meio de transporte coletivo, no entanto, os condomínios horizontais fechados reforçam a lógica da utilização do automóvel:
Seus moradores dependem quase exclusivamente do carro particular para se locomover. Se essas tendências ao esgarçamento acontecem na escala macro do Distrito Federal, infelizmente passaram a acontecer também nas áreas centrais do Plano Piloto. A cidade de muros não está apenas na periferia, mas seimiscui no centro urbano, pela edificação dos shopping malls. Em todas as escalas, a tendência é antiurbana, a atingir fortemente a configuração do espaço público e sua apropriação por variadas camadas sociais. (HOLLANDA 2002, P.15).
A expressão cidade dos muros é a que se refere Caldeira (2000), como resultado da construção dos muros que caracteriza ao mesmo tempo como estratégias simbólicas e materiais que estabelecem diferenças, impõem divisões e distâncias, constroem separações, multiplicam regras de evitação, exclusão e restringem os movimentos, traduz-se assim, o caráter disjuntivo da democracia no país. Nesse sentido, para a autora os condomínios horizontais fechados formam verdadeiros enclaves que:
são propriedade privada para uso coletivo e enfatizam o valor do que é privado e restrito ao mesmo tempo em que desvalorizam o que é público e aberto na cidade. São fisicamente demarcados e isolados por muros, grades, espaços vazios e detalhes arquitetônicos. São voltados para o interior e não
em direção à rua, cuja vida pública rejeitam explicitamente. São controlados por guardas armados e sistemas de segurança, que impõem
São, portanto, “... práticas que impõem separações, constroem muros, delineiam e encerram espaços, estabelecem distâncias, segregam, diferenciam, impõem proibições, multiplicam regras de exclusão e de evitação, e, restringem movimentos” (Caldeira, 2000: 28).
Os Condomínios horizontais fechados consolidam-se também nas cidades médias, como uma nova forma de moradia, valorizam os atributos de melhor qualidade de vida e segurança, para os grupos de alta renda e ainda para aqueles de menor poder aquisitivo, que neles habitam. Os incorporadores imobiliários apostam também nos grupos sociais emergentes, e assim lançam produtos imobiliários compatíveis com os diferentes extratos de renda. A facilidade de obtenção de financiamento imobiliário também tem estimulado a construção destes condomínios.
Essa forma de morar se prolifera, se fortalece enquanto empreendimento rentável e impacta de forma significativa no contexto urbano, especialmente da periferia, onde a maioria deles está instalada; no entanto, eles formam verdadeiros enclaves fortificados, com grandes extensões muradas, que trazem sérias preocupações ao planejamento da mobilidade urbana sustentável, ou seja, geram impactos negativos na questão urbanística.
Para Sobarzo e Sposito (2003), além da presença marcante dos muros, outros elementos caracterizam os condomínios horizontais fechados, a saber: exclusividade social; sistemas de segurança; qualidade ambiental; funcionalidade e autonomia administrativa.
Na visão de Sposito (2006, p. 182), o preço mais baixo das terras disponíveis ainda não loteadas, é uma das especificidades da produção do espaço em cidades de porte médio, e a acessibilidade aparece como um condicionante fundamental para as escolhas locacionais dos condomínios horizontais fechados feitas pelos incorporadores imobiliários. Segundo a referida autora,
Tais agentes têm sido capazes de procurar localizações que, ao mesmo tempo, possibilitam fluidez e diminuição do número e da frequência dos deslocamentos intra-urbanos, visto que valorizam, em suas escolhas locacionais, a situação geográfica da gleba a ser loteada em relação às vias que propiciam maior velocidade e em relação à proximidade dos meios de consumo mais modernos. Em outras palavras, combinam alta mobilidade com proximidade e identidade nas práticas de consumo. (SPOSITO, 2006, p. 186)
Assim sendo, é possível se ter acesso a esses condomínios sem ter que realizar grandes percursos e sem perda de tempo para a realização de diferentes rotinas diárias, reforçando, contudo, o processo de segregação sócioespacial.
as barreiras físicas e de controle social que são impostas e/ou legitimadas socialmente, a partir da implantação de loteamentos fechados, tornam a segregação clara e indiscutível, na escala intra-urbana. Nesse caso, a relação centro x periferia não se orienta mais pela distância geométrica entre o que é central e o que é periférico, mas pela distância espacial (grau de mobilidade de cada um) e social (numa formação social marcada por profundas disparidades socioeconômicas), entre áreas justapostas. (SPOSITO, 2006, p. 186).
É neste contexto que se pretende entender a sua forma de ocupação e os impactos acarretados à mobilidade urbana. Para tanto, neste capítulo buscar-se-á contextualizar condomínios horizontais fechados, com ênfase no desenho urbano, e tomar como exemplo a cidade de Uberlândia MG.
Em Uberlândia, as primeiras iniciativas de construção de condomínio horizontal apareceram na periferia, a partir do Condomínio Morada do Sol e das Mansões Aeroporto, que haviam surgido sob a forma de casas de campo, de chácaras de lazer. De acordo com Soares e Ramires (2002), até a década de 1990 esses empreendimentos somavam 25 loteamentos e ocupavam cerca de 2.330 mil hectares. Desse total, apenas 637 hectares se transformaram posteriormente, em condomínios horizontais e loteamentos fechados, como é o caso de parte da chácara do Jardim Holanda e Morada da Colina.