Déficits na linguagem na DA ocorrem desde os estágios iniciais (AHMED et al., 2013), de modo que a disfunção da linguagem, com o avanço da patologia, causa uma significativa incapacidade nas habilidades comunicativas e, consequentemente, na autonomia do paciente.
Nos estágios iniciais, já se percebe a dificuldade em encontrar palavras e nomear objetos (TSANTALI; ECONOMIDIS; TSOLAKI, 2013; CAIXETA; CAIXETA; CAIXETA, 2012; SOARES; BRANDÃO; LACERDA, 2012; LIRA et al., 2011), emissão de parafasias semânticas e substituições de palavras (cachimbo por cigarro) (SOARES; BRANDÃO; LACERDA, 2012; LIRA et al., 2011), maior quantidade de repetições de palavras e revisões (LIRA et al., 2011), menor fluência verbal (TSANTALI; ECONOMIDIS; TSOLAKI, 2013), uso de termos mais genéricos, como no caso dos hiperônimos (animal por cachorro) (SOARES; BRANDÃO; LACERDA, 2012).
No entanto, segundo Soares, Brandão e Lacerda (2012), “os déficits discursivos consistem no maior problema de comunicação das pessoas com DA”, fazendo com que elas dependam consideravelmente de seus interlocutores para manter uma comunicação, o que restringe sua interação social.
Quanto a esse aspecto, pesquisas mostram que o discurso de idosos diagnosticados com DA, seja no nível da produção ou da compreensão, mostra-se comprometido, evidenciando-se maior dificuldade em solucionar ambiguidades lexicais e sintáticas e em compreender provérbios populares (CAMPANHA et al., 2008), diminuição da iniciativa e espontaneidade na comunicação, limitação de vocabulário e dificuldade de encadear ideias (MANSUR et al., 2005). Idosos
diagnosticados com DA, comparados a idosos saudáveis, produzem menos inferências e também são menos hábeis em fornecer explicações sobre os eventos de uma história, confiando mais em seu conhecimento de mundo, o que, por sua vez, ocasiona inferências menos eficazes e declarações mais incoerentes (CREAM ER; SCHITTER-EDGECOMBE, 2010).
Observa-se também deficiências no planejamento do discurso desses indivíduos, demonstradas através de mais pausas silenciosas, mais alongamentos e hesitações (GAYRAUD; LEE; BARKAT-DEFRADAS, 2011; HOFFMANN et al., 2010). Além disso, esses idosos demonstram uma produção de sequências menores de fala e mais turnos na conversação, o que sugere que a busca de palavras e o planejamento do discurso estariam alterados devido aos processos degenerativos próprios da doença (VALDIVIESO; LADINO; QUIROGA, 2003). Também Brandão et al. (2009) puderam verificar uma maior quantidade de proposições incompletas e incapacidade de utilizar as pistas para compensá-las, o que reflete um déficit de gerenciamento do conhecimento em pacientes com DA. Destaca-se ainda, na produção do discurso de idosos com DA, o menor uso de sentenças complexas, especialmente de orações coordenadas e reduzidas (LIRA et al., 2011; SKA; DUONG, 2005) e menor número de proposições significativas (KING, 2012).
No que diz respeito a aspectos verbais e não verbais na produção da linguagem, idosos diagnosticados com DA, embora mantenham suas habilidades de comunicação não verbal preservadas, apresentam sua participação na comunicação parcialmente comprometida, demonstrando maior dificuldade no nível léxico - semântico (dificuldades de encontrar palavras) do que no nível pragmático (apresentação de informação em perguntas abertas) (ROUSSEAUX et al., 2010). Apresentam ainda uma maior ocorrência de mudança de rumo da trama na produção narrativa, acarretando comprometimento na coerência da história (ARTUZO;
PANHOCA, 2009).
Também Ash et al. (2007) perceberam limitações na comunicação desses pacientes, tais como omissão de aspectos centrais da história, dificuldade de encontrar palavras, além de menor conectividade local e dificuldade de ma nutenção do tema da história, o que pode estar relacionado a múltiplos déficits, dentre eles, prejuízos nas memórias episódica e semântica e deficiências nas funções executivas, componentes estes envolvidos na produção narrativa.
Ramanathan (1995) afirma ainda que o contexto interfere na interação verbal, de modo que algumas interações em contextos específicos, em casa ou na clínica, por exemplo, suscitam melhor estrutura narrativa. Conforme observado pelo autor, o discurso no centro de atendimento não foi tão bem formado como a conversação na casa do paciente, ocorrendo naquele mais pausas e descontinuidade, menor capacidade de analisar a conversa, além da produção de um discurso mais egocêntrico, com lapsos de coerência e mudança brusca de tópico. O autor sugere que essa grande diferença na produção do discurso pode se dar devido ao desconforto sentido em relação à clínica (o que não acontece em casa), às várias atividades acontecendo ao redor e às interrupções ocorridas na interação.
O reduzido número de unidades informativas, tanto em narrativa oral quanto escrita, tem demonstrado ser a característica mais saliente na diferenciação do discurso de idosos diagnosticados com DA e idosos saudáveis (ZRAICK et al., 2011; MIRANDA, 2010; MURRAY, 2010). Kavé e Levy (2003) reforçam esses achados, observando que idosos diagnosticados com DA, embora mantenham a estrutura sintática da narrativa, produzem menos unidades de informação, mais erros semânticos e mais circunlóquios, o que pode ser uma estratégia para supera r as dificuldades que enfrentam na situação de avaliação da comunicação. Além disso, esses participantes produzem mais pronomes que expressões nominais. Segundo os
autores, o uso excessivo de pronomes pode indicar dificuldades de encontrar as palavras apropriadas e a compensação através do uso de termos mais genéricos.
Por outro lado, Carlomagno et al. (2005) observaram que tanto afásicos com indivíduos acometidos pela DA, comparados com idosos saudáveis, apresentam redução na geração lexical de informações em seu discurso, relacionando esses déficits a comprometimento no nível léxico-semântico. Contudo, o discurso de pacientes com DA foi ainda menos eficiente no que diz respeito ao estabelecimento de referência do que o discurso dos afásicos, apresentando assim maior número de mal-entendidos e exigindo maior número de pistas explícitas do ouvinte, além de apresentar maior confusão e irrelevância, erros estes também relacionados à baixa habilidade de estabelecer referentes. Essa análise do desempenho dos part icipantes com DA mostrou que a geração lexical de informação pode dissociar-se da eficácia na tomada de referência, sustentando a visão de que a dificuldade na elaboração pragmática/conceitual do conteúdo do discurso desempenha um papel importante no desenvolvimento reduzido de informação e na dificuldade de estabelecer referência, ou seja, no desenvolvimento do chamado discurso vazio.
Evidências sutis de alterações na linguagem foram observadas já na fase prodrômica da DA (período entre o aparecimento dos sintomas iniciais da doença e o seu pleno desenvolvimento), sugerindo uma ruptura progressiva na integridade da linguagem, detectável desde essa fase (AHMED et al., 2013). Segundo os autores, as medidas de teor semântico e lexical e de complexidade sintáti ca podem captar a progressão global da deficiência linguística através dos sucessíveis estágios clínicos da doença. Portanto, a identificação de distúrbios específicos da linguagem no período prodrômico da DA poderiam auxiliar os médicos a distinguir a pro vável DA de mudanças atribuídas ao envelhecimento normal (AHMED et al., 2013), justificando a importância de pesquisas linguísticas na área.
Apresentamos a seguir um quadro sintetizando a discussão desenvolvida acima sobre a produção do discurso na DA.
Quadro 3: Quadro-resumo de estudos sobre características da produção do discurso na DA
AUTORES RESULTADOS
TSANTALI; ECONOMIDIS;
TSOLAKI (2013) Dificuldade de encontrar palavras e menor fluência verbal. SOARES; BRANDÃO;
LACERDA (2012) Dificuldade de encontrar palavras e nomear objetos; tendência a usar termos mais genéricos; emissão de parafasias semânticas. CAIXETA; CAIXETA;
CAIXETA (2012)
Dificuldade de encontrar palavras e nomear objetos. KING (2012) Menor número de proposições significativas.
LIRA et al. (2011) Dificuldade de encontrar palavras e nomear objetos; emissão de parafasias semânticas; maior quantidade de repetições de palavras e revisões; menor número de sentenças complexas.
ZRAICK et al. (2011) Reduzido número de unidades informativas. GAYRAUD; LEE; BARKAT-
DEFRADAS (2011) Mais pausas silenciosas, mais alongamentos e hesitações. ROUSSEAUX et al. (2010) Dificuldade de encontrar palavras.
HOFFMANN et al. (2010) Deficiências no planejamento do discurso, mais pausas silenciosas, mais alongamentos e hesitações.
CREAMER; SCHITTER- EDGECOMBE (2010)
Menor número de inferências, menor habilidade em fornecer explicações sobre os eventos de uma história.
MURRAY (2010) Reduzido número de unidades informativas. MIRANDA (2010) Reduzido número de unidades informativas.
BRANDÃO et al. (2009) Proposições incompletas e incapacidade de utilizar pistas para compensá-las.
ARTUZO; PANHOCA (2009) Maior ocorrência de mudança de rumo da trama, comprometendo a coerência da narrativa.
ASH et al. (2007) Omissão de aspectos centrais da história, dificuldade de encontrar palavras, menor conectividade local e dificuldade de manutenção do tema da história.
MANSUR et al. (2005) Diminuição da iniciativa e espontaneidade na comunicação, limitação do vocabulário e dificuldade de encadear ideias.
SKA; DUONG (2005) Menor número de sentenças complexas.
CARLOMAGNO et al. (2005) Menor número de informação lexical, dificuldade de estabelecer referências, causando mais confusões e irrelevâncias.
KAVÉ; LEVY (2003) Menor quantidade de unidades informativas, mais erros semânticos, mais circunlóquios, mais pronomes do que expressões nominais. VALDEVISIO; LADINO;
QUIROGA (2003) Sequências de fala menores e mais turnos na conversação.
RAMANATHAN (1995) O contexto interfere no desempenho do discurso de idosos com DA. Na clínica, mais pausas silenciosas e descontinuidade, menor capacidade de analisar a conversa, discurso mais egocêntrico com lapsos de coerência e mudança brusca de tópico.
Fonte: A autora (2015)
Os achados dos trabalhos revisados mostram-nos que idosos com DA apresentam dificuldades na produção do discurso que podem comprometer suas habilidades comunicativas. Detectar essas características linguísticas precocemente
pode auxiliar a realização do diagnóstico da doença e, com isso, ser iniciado um tratamento adequado, na tentativa de oferecer melhor qualidade de vida a idosos acometidos pela DA, além de auxiliar os familiares e cuidadores na compreensão das capacidades e limitações linguísticas desses idosos, promovendo um melhor convívio social.
Como já mencionado, buscamos neste trabalho caracterizar a produção do discurso oral de idosos sadios e com DA, especificamente no mecanismo coesivo de referenciação. Como recorte metodológico, optamos por analisar a prod ução de discurso narrativo oral livre e com apoio de sequência de gravuras. Passemos, então, à revisão de literatura referente à relação entre o tipo de estímulo utilizado e a referenciação na produção do discurso na DA.
1.3.2 Características do discurso e da referenciação na Doença de Alzheimer e