Nesse trabalho, interessa-nos tratar a construção da argumentação no processo de extradição de Cesare Battisti sob o prisma do princípio da influência concebido por Charaudeau (2005, 2008), em sua teoria da dupla semiotização do mundo, já brevemente exposta anteriormente.
Ao tratar dos atos de fala numa problemática da influência, o supracitado autor afirma que é preciso responder a duas questões que se complementam. A primeira consiste em descobrir o que está em jogo psicologicamente e socialmente em um ato de fala. A segunda, em identificar os processos linguísticos envolvidos nesse ato de influência. Para responder à primeira questão, basta que se aluda à história da retórica argumentativa, parte da qual foi ofuscada pela tradição da escola e da crítica literária; a primeira pela preocupação de inculcar nos estudantes formas
de analisar textos literários com base nas imagens e efeitos de estilo, a segunda por considerar que a retórica dos tropos é reservada ao fato literário.
Para tratar dos atos de fala em uma problemática da influência, Charaudeau (2008) defende a tese de que devemos responder a duas questões complementares entre si: O que está em jogo psicologicamente e socialmente em um ato de fala? Quais os processos lingüísticos envolvidos nesse ato de influência?
Para responder à primeira questão, o autor afirma que devemos nos reportar à história da retórica argumentativa, particularmente àquela que, desde Aristóteles até Perelman, é voltada para o outro, para fazê-lo aderir a uma posição. Contudo, devemos ir mais longe, como esses autores, considerando as situações de comunicação (debate político, a argumentação jurídica) como limitadoras de seu alcance.
Afirma esse autor que as ciências humanas e as ciências sociais têm demonstrado que as sociedades são compostas, fragmentadas, feitas de várias áreas de atividades e que tudo é construído de maneira interativa, entre os indivíduos que tentam regular as relações sociais de poder que se essabelecem.
Para ele, o modelo de deliberação ateniense e o modelo de persuasão dos debates jurídicos não são mais os únicos nem mesmo os dominantes. As relações sociais não seriam mais vistas somente sob a ótica do que "é verdade" mas também sob a ótica do que "creio verdadeiro". Não trabalharíamos mais tanto com a "força lógica" dos argumentos mas com a sua "força de adesão". Não procuraríamos mais tanto uma "prova absoluta" que pudéssemos remeter ao universal, mas uma "validade circunstancial" no contexto limitado do particular.
Para responder à segunda questão (Que processos linguageiros estão envolvidos nesse ato de influência?), adotando a perspectiva do sujeito do discurso, postula o autor que é preciso considerar os problemas que surgem quando se tenta persuadir alguém. Como entrar em contato com o outro? Que posição de autoridade adotar com relação ao outro? Como tocar, atingir o outro? Consequentemente, como ordenar o que se quer dizer?
O autor demonstra, na figura que vemos a seguir, o processo de organização argumentativa. Para ele, cada etapa do processo é objeto de uma encenação, que obedece a uma certa mecânica e recorre a certos procedimentos que podemos descrever e categorizar: encenação e categorias do ethos;
procedimentos das estratégias do pathos, mecânica e categorias da encenação narrativa e argumentativa.
Figura 3 – Processo de organização argumentativa
Fonte: Charaudeau (2008, p. 13).
A razão argumentativa, considerada a partir da perspectiva de uma problemática da influência, não reside apenas na força da razão (há um raciocínio inevitável?) nem na simples força das ideias (o que é uma ideia poderosa?). Se assim fosse, saberíamos, de antemão, o que seria o raciocínio inevitável e todos a ele recorreriam. Um mesmo raciocínio pode ser usado por ideias opostas, uma mesma ideia pode se encaixar em diferentes raciocínios. Concluiremos, então, que nenhum raciocínio, nenhuma ideia têm força por si mesmos.
Para Charaudeau, não há, portanto, uma hierarquia entre modos de raciocínio e tipos de argumentos, e a razão argumentativa depende de três considerações:
• qualquer ato de linguagem ocorre em uma situação de comunicação que dá instruções de produção e interpretação do significado aos interlocutores; o significado é o resultado de uma articulação; portanto, o ato argumentativo tira a sua validade (e não o seu valor) das instruções nessa situação.
Sobre a diferença entre as noções de valor e de validade, Charaudeau (2008, p. 16) expõe:
O valor remete a um semantismo ao mesmo tempo referencial e axiologizado que se encontra inserido nas palavras de uso social e pelo uso social, como seria por exemplo a palavra crime , portadora, por seu uso social, de um semantismo de valor negativo. A validade concerne ao efeito
semântico que é produzido em coerência com a situação na qual são empregadas as palavras pelas quais os parceiros do ato de fala são responsáveis10.
O processo de raciocínio argumentativo obedece a certas condições de encenação discursiva, fazendo com que a pertinência da argumentação só possa ser julgada, considerada se for relacionada às condições dessa encenação.
O processo argumentativo tira sua força da influência de um certo tipo de argumentação, em uma determinada situação e de acordo com a função que desempenha o argumento considerado sob o prisma da encenação discursiva.
No que diz respeito mais particularmente às condições de encenação discursiva do ato argumentativo, Charaudeau afirma que a pessoa, ao argumentar, exerce uma tripla atividade discursiva (figura 3), conscientizando seu interlocutor ou interlocutores (auditório):
1º -do assunto de que se trata (problematizar);
2º- da postura que ele adota diante do problema (se posicionar); 3º- da força de sua argumentação (provar).
Figura 4 – Tripla atividade argumentativa
Fonte: Charaudeau (2008, p. 18).
10La valeur renvoie à un sémantisme à la fois référentiel et axiologisé qui se trouve inscrit dans les
mots de par leur usage social, comme serait par exemple le mot « crime », porteur, par son usage social, d’un sémantisme à valeur négative. La validité concerne l’effet sémantique qui est produit en cohérence avec la situation dans laquelle sont employés les mots, et dont les partenaires de l’acte de langage sont comptables.10
a) Problematizar
Problematizar é uma atividade discursiva que consiste em propor a alguém não somente o problema em questão, mas também o que é preciso pensar sobre ele. De um lado, é fazer com que o interlocutor ou o auditório saibam do que se está falando, ou seja, identificar a área temática que lhes está sendo proposta; por outro lado, é dizer-lhes o que está em jogo, o problema suscitado.
Problematizar é, na teoria de Charaudeau, impor uma área temática em um contexto de questionamento.
b) Posicionar-se
O sujeito comunicante deve se posicionar com relação à problematização proposta. Deve tomar uma posição de defesa ou de refutação do que lhe foi dito. Contudo, o sujeito comunicante pode ficar neutro, refletindo sobre um determinado ponto de vista e examinando as diferentes opiniões dadas.
No caso da neutralidade na tomada de posição, o que ocorre, defende Charaudeau, é uma explicação em um dado contexto situacional. Na explicação, de acordo com o autor, não há tomada de posição nem esclarecimentos dos diferentes posicionamentos que possam existir.
c) Provar
É preciso que o sujeito comunicante valide o seu posicionamento e, ao mesmo tempo, dê ao seu interlocutor ou auditório os meios de julgá-lo para que esses possam acatar ou refutar tal posicionamento.
O referido autor discute a escolha do termo “provar” e critica a retórica argumentativa, que distinguia prova de argumento. A prova essaria para os retóricos no nível do “irrefutável”, pois se apoia na sua autenticidade. Já o argumento seria algo “discutível”, na medida em que se baseia em um saber relativo.
Defende Charaudeau que, para provar, o sujeito comunicante realiza duas operações:
1º- a de raciocínio, para que se essabeleçam relações de causalidade (causa/consequência) entre duas ou várias asserções e se assegure a força de relação (de possibilidade, de probabilidade, de necessidade ou de fatalidade); durante essa operação, é necessário ainda dizer se essa relação, esse elo, estão no nível do que é possível ou do que é inevitável;
2º- a de escolha entre os argumentos de valor que permitam ao sujeito comunicante desempenhar o papel de detentor da razão ou impactar o destinatário; afirma o autor que um raciocínio somente pode ser julgado quanto ao teor de sua prova.