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Em finais de 2005 foi criado o Circuito Fora do Eixo (hoje conhecida como Rede FDE), numa parceria entre produtores culturais de Londrina (PR), Uberlândia (MG), Cuiabá (MT) e Rio Branco (AC) que pretendiam, juntos, fomentar o intercâmbio cultural e tecnológico e pleitear verbas para projetos culturais fora do eixo econômico Rio-São Paulo. A ideia cresceu e se consolidou como rede de colaboração cultural no Brasil, contando hoje com produtores em 25 dos 27 estados brasileiros50. Em 2011 o FDE rompeu as fronteiras do Brasil e conta também com parceiros na Argentina, Costa Rica, Honduras, Bolívia, EUA, entre outros. Em sua Carta de Princípios, assinada pelos membros do coletivo em sua Plenária Nacional de 2009, pode-se ler que;

O Circuito Fora do Eixo é uma rede colaborativa e descentralizada de trabalho constituída por coletivos de cultura espalhados pelo Brasil, pautados nos princípios da economia solidária, do associativismo e do cooperativismo, da divulgação, da formação e intercâmbio entre redes sociais, do respeito à diversidade, à pluralidade e às identidades culturais, do empoderamento dos sujeitos e alcance da autonomia quanto às formas de gestão e participação em processos sócio-culturais, do estímulo à autoralidade, à criatividade, à inovação e à renovação, da democratização quanto ao desenvolvimento, uso e compartilhamento de tecnologias livres aplicadas às expressões culturais e da sustentabilidade pautada no uso de tecnologias sociais. 51

50 Ver Anexo 10 - Mapa de Coletivos do Circuito FDE e Anexo 11 – Estrutura Organizacional da Rede FDE 51 Retirado do website do CFE ; acesso em 21 de Abril de 2011 as 14h20 ::

Uma das tecnologias sociais que a Rede FDE utiliza são os mecanismos de moedas complementares, principalmente através de dois formatos: (1) realizam trocas como num Banco do Tempo, ou seja, indivíduos (fotógrafos, produtores culturais, etc) e coletivos (bandas, grupos de teatro, etc) podem oferecer e demandar serviços dentro da rede (a utilização de 1h de estúdio de gravações, filmakers, serviços de assessorias de imprensa, etc). A hora de trabalho é cotada no valor de R$50, porém as trocas são contabilizadas em um sistema de créditos multirecíprocos, ou seja, o valor destas transações internas da rede pode ser contabilizado em reais como medida de 'contrapartidas' oferecidas pela rede, porém se realizam sem a utilização de moedas reais. Estes valores também não podem ser 'trocados', ou seja, não mantém lastro com a moeda oficial.

Todos os coletivos da Rede podem criar suas próprias (2) moedas sociais e as mesmas são utilizadas para as trocas realizadas nos eventos que promovem, bem como podem ser realizadas trocas inter-moedas. Ao transformarem verbas públicas e privadas (patrocínios recebidos em Reais) em moedas sociais a Rede FDE mantém a massa monetária entre seus membros e apoiadores (produtores locais, etc), o que obviamente gera uma maior circulação de riquezas entre seus membros, e neste caso, resulta em maior visibilidade da rede como produtora e promotora cultural. Estas moedas deveriam ter lastro em reais neste caso52.

Os diversos coletivos culturais formadores da Rede FDE já vinham se organizando no país, principalmente impulsionados pelas políticas culturais implantadas pelo então Ministro da Cultura (2003-2008) Gilberto Gil através dos programas de descentralização da economia da cultura e do incentivo à formação de redes de colaboração cultural tais como os Pontos de Cultura, Viva Cultura e Mais Cultura, entre outros.

Ao perceberem a quantidade de trocas que poderiam ser realizadas dentro da rede, acordaram para a possibilidade de ações coletivas para o fortalecimento de cada ponto. Ao pleitearem verbas (editais públicos e privados, patrocínios) em conjunto, podiam dar maiores contrapartidas (tanto em serviços quanto em visibilidade e tamanho das ações) para os financiadores, gerando fluxos para todos os pontos e fortalecendo a rede como um todo.

Realizaram, por exemplo, o Festival Grito para o Rock em 2012 em 250 cidades do Brasil e do mundo. O financiamento do projeto veio tanto através de um caixa coletivo quanto de outros financiamentos menores para as ações específicas locais e regionais. Muitos grupos culturais fizeram turnês recebendo seus cachês em CARDs, alguns serviços comprados fora da rede foram cotados a preços mais baratos, já que envolviam diversas ações conjuntas (estruturas de palco, materiais de 52 O funcionamento da Rede Fora do Eixo está em discussão neste momento no Brasil, informações dispersas podem ser encontradas a respeito do funcionamento de seu sistema de moedas complementares, mas poucos documentos mostram com clareza como ele funciona. Inclusive há documentos da rede que afirmam haver cambio entre as moedas e outros que afirmam o contrário. Diversos e-mails enviados aos integrantes da rede não foram respondidos, pelo que não pudemos averiguar informações coletadas. Certamente estudar este modelo que surge é de grande valia para esta matéria, já que com certeza esta é uma nova inovação monetária na área da cultura no Brasil, e a jução entre o modelo de bancos do tempo e moedas sociais físicas seria o surgimento de um novo modelo.

divulgação, etc). Apenas alguns exemplos da complexidade do sistema financeiro da Rede Fora do Eixo, que ainda é desconhecida mesmo para os integrantes da rede, que aprendem ao mesmo tempo em que praticam a experiência53.

Entender o que representa esta rede cultural que se forma no Brasil vai muito além dos números que eles movimentam, que mostram-se bastante robustos, mas pouco claros. Um recente episódio da Rede FDE tornou-se motivo de debates nas redes sociais e veículos de mídia brasileira. A entrevista de Pablo Capilé (liderança e animador da rede) ao programa Roda Viva mostrou o quanto o vocabulário dos envolvidos na rede transformara-se juntamente com o entendimento de mundo que estes jovens vem criando, e o quanto o 'velho' se debatia para tentar entender o 'digital, colaborativo''.

O sistema de financiamento da rede Ninja e da rede Fora do Eixo não constitui nada de revolucionário, existe em milhares de experiências pelo mundo afora e no Brasil, e consiste em reciprocidades baseadas em uma moeda contábil, ou simbólica, que pode ser representada por horas de trabalho, A diferença é que não se paga juros aos bancos, o que torna tudo mais barato, e facilita as trocas, ao se tirar os intermediários de cena. No caso mencionado no Roda Viva, trabalham com pouco dinheiro oficial (reais), e com muito dinheiro equivalente (cards), em que um grupo que realiza um show apoiado no esforço de organização de outro, por exemplo, passa a assegurar uma contribuição correspondente em reciprocidade em outro local ou cidade, expressa emcards, mas sem necessidade de dinheiro. Assim, o pouco dinheiro que arrecadam em reais, tem efeitos multiplicadores dezenas de vezes superior. O sistema tem toda lógica em economia, mas não entra na lógica de quem não está familiarizado, e fica à procura de dinheiro escondido.54

53 Em alguns documentos e informes da Rede Fora do Eixo se lê que os CARDs podem ser tro cados em Reais, o que significaria que há cambio (e portanto equivalencias monetárias) entre as moedas, em outros lê-se que não há esta equivalência. O modelo ainda não está bem claro, nem há informações suficientes disponíveis para aprofundarmos este debate, que é motivo de viva polêmica neste momento no Brasil. Ainda assim, julgamos interessante incluir este projeto entre nossos modelos estudados, já que trata-se de uma nova adaptação da tecnologia social dinheiro, bem como um novo formato de moeda complementar (na área da cultura) em vias de desenvolvimento e amadurecimento. Um estudo mais aprofundado deste modelo faz- se necessário e este não poderia ser melhor momento para fazê-lo.

54 Entrevista com Ladislau Dowbor publicada em http://foradoeixo.org.br/2013/09/26/redes-culturais-desafio-a- velha-industria-da-cultura/ acesso em 01 de Outubro de 2013 as 11h.