- Finalmente! Férias! Vou poder parar um pouco. – pensava Ana, quando caminhava para casa, no último dia de aulas antes das férias da Páscoa.
Ana é uma aluna do 10º ano, na área das Ciências e Tecnologias. Este ano lectivo está a ser particularmente difícil. Sempre foi boa aluna, mas agora não consegue ter boas notas, por mais que tente. Todas as matérias lhe parecem muito complicadas e o seu horário na escola não permite organizar um bom horário de estudo, muito menos pensar em momentos de lazer. Mas nos próximos dias será diferente. Ana e os seus pais irão até ao Alentejo, onde vivem os seus avós. O seu avô é um bem sucedido empresário, dono de vastos terrenos. Durante as próximas duas semanas poderá andar no seu cavalo e dormitar à sombra do chaparro, afinal o que o Alentejo tem de melhor. Com o seu pensamento a quilómetros de distância, nem deu conta que
percorrera a distância que separa a escola da sua casa…
- Mãeeeee!!!! Cheguei! O avô já disse alguma coisa? – perguntou, aos berros, quando chegou a casa.
- Estou aqui. Não é preciso gritares. O avô disse que se chegarmos amanhã à hora do almoço vamos ter uma surpresa. – respondeu a mãe.
- Surpresa? O que será? O avô prepara sempre surpresas incríveis. Vamos chegar lá a tempo, não vamos? – questionou Ana.
- Fala com o teu pai, não sou eu que vou a conduzir… - respondeu a mãe, descartando o ónus de um possível atraso.
A jovem nem ouviu a resposta da mãe até ao fim, já galgava as escadas em direcção ao seu quarto, para arrumar a mala. Quinze dias inteirinhos longe do rebuliço da cidade, longe dos carros, da poluição…
A tarde foi passada a enviar alguns mails aos amigos mais próximos e a arrumar as coisas da escola. Decidiu levar alguns livros. Afinal, estaria longe do mundo durante uns dias, mas acabaria por voltar, pelo que seria de todo desejável não perder o contacto com o mundo real – a escola. Depois do jantar foi logo para a cama, tal era o cansaço.
Dormia tão profundamente que só as sacudidelas da mãe a acordaram.
- Que horas são? – perguntou, ainda de olhos fechados.
- São quase dez da manhã. Se queres que cheguemos antes do almoço tens de te despachar. – avisou a mãe.
Arrastou-se para fora da cama e vestiu a sua roupa de montar. Já sabia que a primeira coisa que faria após o almoço seria dar um passeio a cavalo.
A viagem decorreu sem problemas, apesar do intenso movimento de automóveis que se verificava para o sul do país. Chegaram a casa dos avós perto da uma da tarde, mesmo a tempo do almoço.
- Olá avô. Onde está a avó? E qual é a surpresa? – perguntou sucessivamente.
- Calma, vamos por partes. A avó está na cozinha a ultimar o almoço e a surpresa está prestes a chegar à mesa. – respondeu o avô.
sa, onde estava a chegar o almoço.
- Ora cá está a surpresa! – a avó trazia um enorme tabuleiro com carne assada. - Uau! Avô, mataram um porco só por nossa causa? – perguntou Ana.
- Pensas que eu não sei que vocês lá em Lisboa só comem carne de plástico? – provocou o avô (Leopoldo).
- Pronto, pai. Lá vens tu com as tuas críticas. Sabes bem que não podemos vir aqui buscar carne sempre que a arca congeladora fica vazia. – refilou a mãe de Ana.
- Oh, vá lá, nada de discussões. Deixem-me saborear esta carne maravilhosa. – pediu Ana.
Leopoldo detinha uma empresa produtora de carne de porco preto, certificada pelo Ministério da Agricultura e muitíssimo reconhecida por consumidores e outros produtores. O segredo da qualidade da carne estava na forma como os animais eram criados. Nas suas vastíssimas propriedades, os animais podiam deambular e encontrar abundância de alimento. Aliás, os rendimentos deste empresário não se limitavam aos provenientes do comércio da carne de porco. Retirando todos os proveitos do montado de sobro, constituíra também uma empresa de transformação de cortiça e era dono de um restaurante de comida tradicional, onde, naturalmente divulgava a sua carne de porco preto e alguns alimentos tradicionais, nomeadamente alguns pratos com bolota.
- Como vão as coisas com os negócios avô? – perguntou Ana.
- Vão bem querida. O único problema tem sido o desaparecimento de alguns animais durante a noite. Como sabes, deixamo-los relativamente soltos, e têm desaparecido alguns. Já informei a polícia. Vamos ver o que conseguem descobrir. – informou Leopoldo.
- Mas pai, estamos a falar de quantos animais que já desapareceram? – questionou a mãe da Ana (Fátima).
- Não sei ao certo, mas devem ter sido uns cinquenta no total. – respondeu o pai.
- Cinquenta?? Mas isso é muito grave, tem que descobrir o que se passa! – exclamou Fátima.
A conversa do almoço girou em torno do problema, e das possíveis soluções. Leopoldo não parecia muito preocupado, ou melhor, não deixava transparecer a sua preocupação. Calculava que alguém roubava os seus porcos para mais tarde os vender, mas não reunira ainda provas que pudessem levá-lo a desconfiar de alguém em concreto.
futuros da Ana. Findo o almoço…
- Avô, pediste ao Joaquim para preparar o Ventania para mim? Queria ir dar uma volta. – perguntou Ana.
- Claro, achas que me esqueceria de tal coisa? – respondeu o avô.
- Mas vai com cuidado, não fico nada descansada quando sais para andar a cavalo. – pediu Fátima.
- Sim mãe, não te preocupes. – tranquilizou Ana.
O início de tarde estava esplêndido. Ana andou horas, até parar junto a um sobreiro (Quercus
suber) centenário. Ali, amarrou o Ventania e deitou-se para dormitar um pouco. Quando acordou
tinha perdido por completo a noção do tempo. Notou, pela claridade diminuta, que o pôr-do-sol não tardaria. Como faria para regressar a casa? Era demasiado tarde. Não conseguiria, mesmo a galope, chegar a casa antes do anoitecer. Teria que pernoitar num dos abrigos que existiam espalhados pelos campos. Estas pequenas casinhotas eram utilizadas pelos trabalhadores para passar a noite, quando o trabalho se prolongava até tarde, ou tinha que ser iniciado bem cedo, no dia seguinte.
- Há tanto tempo que não fico numa destas casinhas. Vai ser giro. Basta que amarre bem o Ventania. – pensou.
Apesar de estar no meio do nada, o seu telemóvel ainda tinha alguma rede, pelo que pôde avisar a sua mãe, para que esta não se preocupasse. Subiu para o cavalo e começou a perscrutar o horizonte, em busca de uma das tais casinhas.
- Bolas, não vejo nenhuma daqui. Vou fazer o caminho inverso. Lembro-me de ter visto uma a alguns quilómetros daqui. – disse baixinho.
Andou cerca de trinta minutos. Quando a noite estava prestes a mergulhar todo o montado na mais profunda escuridão, eis que alcança o abrigo. As portas não estavam trancadas, era mesmo assim. No interior havia um cobertor e uma cama de palha. Serviria perfeitamente. Ventania ficaria no exterior, onde poderia comer sempre que quisesse.
Estava tão cansada que não demorou muito a mergulhar num sono profundo. Tão profundo que nem os sonhos se atreviam a perturbá-lo. Até que…
- O que é isto? O que é que se passa? – assustada com o ruído de um motor levantou-se da cama.
Espreitou pela pequena janela. O que viu deixou-a com o coração na boca. Quatro ou cinco homens empurravam vários porcos para a caixa de carga de uma camioneta. Eram muito corpulentos e falavam uma língua estranha, embora lhe fosse difícil perceber o que diziam por causa do barulho.
- São eles! São os ladrões de porcos! – sussurou.
Ventania, o que fariam se vissem o cavalo? Iriam perceber que estavam a ser observados, certamente. Ainda bem que optara por deixar o cavalo preso numa árvore mais distante. Com sorte, nenhum dos assaltantes repararia no animal.
Pareciam muito profissionais, já o haviam feito numerosas vezes, por certo. Que horror, roubarem daquela forma descarada. O seu avô nunca vira necessidade de delimitar os seus campos, fechando-os com um cadeado. As vedações existentes serviam somente para evitar a passagem dos animais para a estrada, onde poderiam causar acidentes.
Ana assistiu, imóvel, a tudo o que se passava. Nada podia fazer, a não ser tentar memorizar a matrícula, ou pelo menos as características, do carro dos assaltantes. Mas a tarefa não se revelou nada fácil. Foi, aliás, impossível. Assim, restou-lhe esperar que se fossem embora e aguardar pelo romper do dia.
- Óptimo, o sol já vai nascer.
Saltou para cima do Ventania e foi, o mais depressa que pôde, para casa. Quando chegou, exausta e ofegante, todos se assustaram.
- O que é que te aconteceu? – perguntou a mãe, correndo para junto dela. - Nada, comigo nada. Eu vi-os avô, eu vi-os! Os ladrões! – exclamou Ana. - Calma, conta lá melhor essa história. – disse o avô, tranquilamente.
Ana descreveu tudo o que vira e no final sugeriu ao avô que fosse à polícia, contar o sucedido. Leopoldo nem pensou duas vezes. Pegou na neta e foram os dois à esquadra.
que as suas propriedades são vastíssimas. Mas vamos fazer vigilância nocturna em diferentes pontos. – informou o comissário que os atendeu.
- Agradeço imenso a vossa colaboração. – disse Leopoldo. - Ora essa, é para isso mesmo que nós existimos.
Foi preciso esperar mais duas noites para que houvesse novidades.
- Senhor Leopoldo. Já sabemos quem é o responsável pelos roubos de suínos das suas propriedades. – informou o comissário.
- Ai sim? E pode dizer-me quem é? – perguntou o avô de Ana.
- Claro. Trata-se do dono do novo restaurante de comida típica da cidade. Ele confessou quase de imediato. Pelos vistos pagava a um grupo de imigrantes para roubarem os porcos. Ficaria mais barato do que comprá-los a si. – esclareceu o agente da autoridade.
- Mas que bem, a competir com o meu restaurante. Com os meus próprios animais! – concluiu Leopoldo.
- Vamos, obviamente, avançar com uma queixa em relação a este senhor, e encerrar-lhe o restaurante, que entretanto deverá falir, de qualquer forma. – acrescentou o polícia.
Quando regressou a casa, Leopoldo contou os pormenores à família. De facto, os seus animais eram os mais apreciados na região e não havia forma de competir com tão elevada qualidade. O pobre homem deve ter entrado em desespero e concluiu que a única forma de ter sucesso era apoderar-se da matéria-prima do seu sucesso.
- Que lhe sirva de lição. – disse Ana.
- Tenho que te agradecer, Ana. Se não fosses tu hoje ainda estaria sem saber quem andava a roubar os meus porcos. – salientou o avô.
Com a primeira semana de férias ainda a meio, sobrou imenso tempo para Ana visitar todas as propriedades do avô. Andou pela fábrica de produção de rolhas de cortiça. Esta fabricava rolhas para uma famosa marca de champagne francês.
Quis saber como se podia rentabilizar ao máximo o ecossistema que era o montado, que estudara no oitavo ano de escolaridade. Na altura, lembrava-se que a sua professora chamara a atenção para o facto de se tratar de um ecossistema com influência humana, mas muito produtivo e integrado no ambiente. A exploração dos sobreiros e das azinheiras (Quercus rotun-
difolia), os primeiros para produzir rolhas de cortiça e as segundas para a produção da bolota (utilizada na alimentação dos suínos), permitia rentabilizar o estrato arbóreo.
Mas também se plantavam alguns cereais, o que permitia explorar as zonas situadas por baixo dos sobreiros e azinheiras. E nas zonas em que tal não era possível, os animais alimentavam-se da vegetação rasteira que crescia.
- Bem, parece que está na hora de regressar à realidade avô. – disse Ana, despedindo-se.
- Já sabes que podes vir sempre que quiseres. E agora já sei que tenho uma aprendiz de detective para resolver os casos de policia. – brincou o avô.
Ana não tocara num livro, mas terminara as férias com a sensação de ter aprendido muito sobre a natureza que a rodeia. Para além disso, estava com a cabeça mais fresca para recomeçar a estudar, pois precisaria de recuperar algumas notas menos boas obtidas no segundo período…
FIM
Bibliografia consultada: Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007; FREITAS, 2007 e ANTÓNIO, 2007.