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elementos norteadores para a constituição e funcionamento dos espaços públicos, conforme proposto por Habermas e assinalado por Tendrich (1997) como sendo, em primeiro lugar a existência de uma cultura comum, porém não homogênea, que permite o reforço das identidades locais num diálogo compreensível entre os diferentes. Essa cultura comum nas redes digitais é a cibercultura.

Um segundo elemento basilar para a constituição e funcionamento dos espaços públicos é a existência de instâncias institucionalizadas que garantam a autonomia dos diversos atores sociais envolvidos. Em certa medida, dentro das redes sociais digitais, a organização dos atores em grupos e comunidades de interesse atende a estas condições, posto que a sociedade civil tem a possibilidade de se organizar, agrupar, e mobilizar ao redor de temas de seu interesse, tanto dentro como fora dos espaços de comunicação digital.

Claro que também podemos observar a colonização desse espaço pelo mercado (capital), através, por exemplo de ações de marketing que criam comunidades de marca e fan

pages com objetivo de construir um relacionamento mais íntimo com os consumidores ou

mesmo obter publicidade gratuita. Ambas as iniciativas, tanto as mobilizadoras quanto as mercadológicas, coexistem nos espaços das redes digitais.

Outro elemento fundamental para a efetividade de funcionamento dos espaços

13 O autor Guillaume (2004), propõe a classificação das mídias em duas famílias, são irradiantes as mídias clássicas, características da modernidade, com difusão a partir de um centro, como a televisão, o rádio, o jornal ou o livro; e comutativas as novas mídias (ou mídias pós-modernas), o telefone ou os computadores em rede.

públicos é a presença de um arcabouço jurídico que garanta a liberdade de expressão e associação, entre outras. Nas redes digitais as liberdades de expressão e associação encontram-se bastante ameaçadas, como observa-se nas decisões judiciais que imputam criminalmente indivíduos por suas publicações nas redes sociais.

Como exemplo pode-se citar o caso dos jovens presos e condenados a quatro anos de prisão na Inglaterra, por terem incitado a violência através do Facebook. Eles não provocaram nenhum ato de violência no “mundo real”, apenas sugeriram a ideia de forma online (JUIZ, 2011).

Além disso, essas redes são espaços de livre acesso e muita exposição, o que facilita muito a vigilância. Entretanto essas liberdades ainda são possíveis, embora não de forma simples, pois o usuário pode criar uma persona virtual desconectada de sua identidade no mundo real.

O quarto elemento fundamental para o funcionamento dos espaços públicos é que seja possível uma leitura crítica das normas vigentes, de onde possam emergir novas normas e valores morais que regem a vida social. Como leitura crítica estamos nos referindo a um olhar sobre as normas que questione sua validade e sua base de valores, uma avaliação elaborada através da razão que seja capaz de construir novas possibilidades de sociabilidade.

É aqui que se encaixa a presente pesquisa, que buscou avaliar, com relação ao tema da sustentabilidade, se existem vozes críticas se expressando nas redes digitais, quais são elas e o que têm a dizer.

Tendo em vista todas essas considerações, acreditamos ser possível situar as redes sociais digitais no contexto de uma esfera pública, anarquicamente organizada e onde se inscrevem processos de construção de opinião, sendo um domínio que propicia a razão comunicativa. Não são espaços de ação direta, mas possibilitam a discussão de ideias e a organização da ação, tanto on-line quanto offline. Acreditamos assim, que a pesquisa dos conteúdos presentes nas ferramentas disponíveis na internet podem fornecer algumas pistas e sinais dos possíveis consensos gerados pela via do diálogo democrático.

Essas afirmações vão de encontro à maior preocupação do trabalho desenvolvido, que busca sobretudo, detectar vozes criativas, na direção do que Boaventura de Souza Santos (2004) chamou de pistas. No caso nos interessam as pistas para as condições de construção de um possível mundo sustentável, por isso não necessariamente vozes submissas aos interesses neoliberais ou às pressões de mercado, que estão levando o planeta ao esgotamento dos recursos naturais, mas vozes em busca da emancipação, enfrentamento ou superação dos

desafios que a questão ambiental impõe à sociedade.

Boaventura de Souza Santos (2004) introduz em sua sociologia das emergências o conceito de Ainda-Não (NochNicht) de Ernest Bloch14 (1995). O Ainda-Não é a forma como o futuro se apresenta no presente. O Ainda-Não exprime o que existe apenas como latência, uma tendência que pode vir a se manifestar, ideia de uma possibilidade concreta, porém não determinada. Incerta, mas nunca neutra, que pode levar à salvação ou à perdição, e por isso mesmo, torna o futuro escasso e objeto de cuidado.

Para identificar o Ainda-Não (as tendências de futuro), Santos (2004) propõe, no contexto da sociologia das emergências, o procedimento da ampliação simbólica dos saberes, práticas e agentes. O processo de amplificação simbólica é uma investigação prospectiva. Trata-se de dar atenção excessiva às dimensões sociais enquanto sinais ou pistas. Tem o duplo objetivo de tornar menos parcial nosso conhecimento das condições do possível, conhecendo as condições de possibilidade da esperança (de salvação) e ao mesmo tempo conhecer o que da realidade investigada faz dela pista ou sinal.

As redes sociais da internet são um campo privilegiado para avaliar a relação entre os diversos discursos presentes na sociedade, pois nas redes sociais digitais estão presentes os representantes do mercado, do Estado e os membros da sociedade (de forma cada vez mais democrática social e culturalmente), todos se expressando e interagindo.

Tomando-se o cuidado de avaliar os dados para além da expressividade numérica dos conteúdos, e olhando para além das redundâncias evidentes, torna-se possível perscrutar a presença dos diversos discursos sociais sobre a temática da sustentabilidade ambiental no grupo de pessoas que participam dessas redes, e assim podemos considerar o conteúdo desses discursos e suas formas de articulação como pistas de um mundo possível.