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In document Søndeled Kraftverk (sider 35-0)

Lages, 1977, em plena madrugada de domingo, um casal de namorados saiu da discoteca dentro de um opala azul 73, numa conversa descontraída, rumou em direção a BR 116, depois de alguns quilômetros de subida ele estacionou o carro. Dali, a vista da cidade era linda, via-se luzes, o lugar era ideal por ser distante do centro da cidade e desabitado. Ao desligar o motor do carro, ele trocou a fita que estava tocando dos Bee Gees por uma gravada para aquele momento, enquanto isso ela acendeu um cigarro. Conversas, risadas, e ao som da música Feelings, foi criado um clima romântico. Beijos carícias, a música já era Good by my

love good by, mais carícias e na Rock and roll lullaby o casal despia-se.

Essa construção literária ao estilo dos romances Danielle Steel, 242 é uma representação de vivencias que muitos casais de namorados experimentaram em Lages nos anos 1970. Entretanto, o que se pretende levantar aqui é sobre o lugar mais comum para os encontros amorosos, o carro – lembrando que possuir carro, por si só, era distintivo e selecionava/ estratificava pela classe social.

242 A referência feita a escritora norte-americana Danielle Steel se dá por ela ser conhecida por seus dramas

românticos, popularmente chamados de romances ‘água com açúcar’. Seus livros estão entre os mais vendidos, 500 milhões de cópias no mundo todo, traduzido para 28 línguas.

As referêncais e esta prática de namoro aparecem em praticamente todas as memórias, e é instigante pensar que, numa cidade interiorana, conservadora e “elitista” (nas devidas proporções) esta prática tenha sido tão utilizada, lembrada hoje com saudosismo. Inês tinha 15 anos nesta década, e rememora seu namoro com um taxista:

[...] a gente ia namorar em regiões afastadas. A gente ia muito num campo onde hojé é a escola onde eu trabalho, era um campo na época. Tinha toda a visão da cidade, era um lugar muito bonito. Isso era comum e não tinha perigo de assalto, só que a gente ia lá só pra ficar conversando e namorando.243

Já o depoente Luiz, hoje com 51 anos, mostra como era dar-se visibilidade na posse de uma carro:

Em 76 eu tive meu primeiro carro. O carro era sinônimo de poder. Era frequente, a gente saia do Aero Clube com carro emprestado pra namorar. Na época dava pra você ir fumar lá em cima do Morro Grande, lá em cima onde é o seminário hoje, lá em cima, ali na ferrovia, você pegava o carro e ia lá namorar, fumar, namorar. E eu não tinha carro mas sempre meus amigos tinham carro e eles emprestavam pra você sair da boate e depois voltava. Um que emprestava bastante era o Beto [...]. Então ele tinha carro e sempre me emprestava, sempre tive facilidade, era comum chegar assim e dizer: “óh, me empresta o carro?” As meninas que iam era namoradas da gente, não era tu chegar e levar uma menina da boate, a namorada que tu ia na boate, era namoro. As moças iam sozinhas, tinha lugares que a gente via que ia a família inteira, isso era comum. Mas quando a gente tava namorando a gente saia o pessoal ficava lá dançando, a gente voltava e levava o pessoal pra casa. Era assim essa onda. 244 (grifo meu)

A pesquisadora Adriza Figliuzzi analisou como a cultura cria significados e produz masculinidades (assim como feminilidades), e observou os brinquedos oferecidos na infância, sendo que para meninos os carrinhos são o ícone mais bem acabado da construção de subjetividades masculinas, e para as meninas, tudo o que tem relações com a maternidade. O que é brincadeira acaba por ser pedagógico na construção cultural de gênero.245

Luiz reforça que “o carro era sinônimo de poder” e isso por certo provocava inveja, produz diferenças, e constrói masculinidades – na disputa entre ‘machos’, possuir é uma vantagem, pois as moças escolheriam estes homens. Vejo que havia a prática de emprestar o

243 Entrevista concedida por Inês. 51 anos. Lages, 26 de agosto de 2011. 244 Entrevista concedida por Luís. 58 anos. Lages, 26 de agosto de 2011.

245 FIGLIUZZI, Adriza Homens sobre rodas: representações de masculinidades nas páginas da revista Quatro

carro, evidenciando cumplicidade e coleguismo entre os jovens.246 Mas também distinção e vantagem de uns sobre outros na conquista de mulheres e a possibilidade de ter um contato mais íntimo, principalmente depois das discotecas. Lembrando que, por as discotecas terem um ambiente mais escuro, com menos luminosidade, isso que propiciava mais liberdade e contato físico, incitando a ‘fugidinha’ no meio da noite para apronfundar o contato. Esse comportamento era também uma forma de transgressão, pois era possível aproveitar que os pais sabiam que seus filhos estavam na discoteca, num lugar público e poder sair de carro para exercer a sexualidade no carro, uma forma de resistência aos costumes conservadores. Sobre isso Luís conta que se a moça ia na boate com ele, era ‘namoro’, isso quer dizer que se tentava manter um certo conservadorismo. Não se saía já no primeiro encontro, era com a namorada, a moça a qual eles mantiam um compromisso. O que nos leva a pensar que nessa situação, para essa geração jovem dos anos 1970, se fosse com a namorada era permitido.

Sobre essa questão do carro, como nos contou Luís, segue abaixo a imagem publicitária de um autómovel opala da linha Chevrolett (General Motors) divulgada no jornal

Correio Lageano de 1970.

Figura 19: fotografia publicitária da General Motors (Acervo: Jornal Correio Lageano, 26 de abril de 1970).

246 conforme depoimento de Madson, em dezembro de 2011, 36 anos, solteiro, morador de uma cidade do

interior do sul de Santa Catarina, ainda hoje a prática de emprestar o carro para o parceiro que esta no baile e quer dar uma fujidinha com a gata, é comum. “Meu carro passa por várias mãos todos os bailes”.

Nessa propaganda foi utilizado o carro como o principal meio para a conquista feminina do homem. Pois, a frase “Um homem como êste pode mudar sua vida”, foi forjada para mulheres, mas era direcionada aos homens, vendendo a ideia de que elas iriam querer um homem que fosse poderoso por ter um opala, pois esse homem mudaria sua vida. Ou seja, trata-se apenas de uma publicidade voltada para vendas que coloca o automóvel como o elemento principal representado como instrumento de conquista. Assim, o opala poderia mudar a vida de um homem.

O automóvel era um bem masculino porque era o homem quem levava a namorada de carro para passear, namorar, ou para locais ermos e não o contrário. Portanto, para algumas moças ter um namorado com carro poderia significar status, para alguns rapazes poderia ser sinônimo de sexo. O importante era o homem ter um automóvel e aquele que não tivesse pegava emprestado, do pai, de um amigo. Era comum, numa discoteca, no meio da noite, um amigo chegar para o outro e pedir as chaves como nos contou o depoente Luís.

Seria incorreto generalizar dizendo que os/as jovens lageanos/as solteiros/as faziam sexo somente dentro dos carros. Nesse particular, ao perguntar a depoente Regina aonde os casais de namorados faziam sexo durante os anos 1970 ela respondeu que:

Eu imagino que como não tinha motel, não tinha nada, eu imagino que fosse assim, em casa, quando o pai de um ou de outro viajavam ou nos carros. Porque não tinha local. Nos carros, quem não tinha emprestava do amigo. Na minha casa jamais, nós transávamos na casa dele ou dentro do carro, aí tinha os locais para você ir. Por exemplo, lá em cima do morro, lá aonde é o morro do sabão, o morro hoje da net, eram desabitados, então você ia por ali, nesses lugares ermos, né? Não tinha o bandistismo que tem hoje, né? Então era assim. Eu pelo menos foi assim. Nunca fui a hotel, motel, não conheci motel, dentro do carro, do carro do namorado obviamente e depois na casa dele quando os pais dele viajavam.247

A depoente nos confirma essa relação entre sexo e carro e acrescenta um novo elemento, a casa dos pais. Quando os pais viajavam, no caso dela, quando os pais do namorado viajavam eles faziam sexo na casa dele, do namorado. O sexo, segundo nossos dois depoentes era feito com o/a namorado/a. Entretanto nem sempre os casais que tinham relações sexuais dentro dos carros, eram namorados, as vezes era somente um sexo casual.

Um ponto famoso para os namoros nos anos 1970 dentro dos carros era o Bar

Guairacá, tanto casais de namorados como casais sem compromissos iam para lá, ficavam

dentro ou ao redor dos carros bebendo, alguns faziam sexo dentro do automóvel. Uma frequentadora do Bar nos anos 1970 nos conta como se davam os namoros ali e qual a impressão que o local causava:

No Guairacá, ali o pai - deus o livre falar em Guairacá! - o Guairacá fechou uma época por causa disso [...] tinha batidinha de laranja, abacaxi, coco, tipo caipirinha que faziam então a gente comprava garrafinha e ia pra dentro do carro tomar e daí ali começava beijinho, beijinho, quando viam já tavam grávida e daí tinha um vigia que batia no vidro, sabe? Só que suava o vidro do carro e ele batia: “parem, não sei o que”. O pai... deus o livre dizer pro pai que ia no Guairacá, era a mesma coisa que dizer que tinha ido no motel, deus o livre! Daí de tanto os pais encherem o saco, conseguiram fechar o Guairacá. Que era o ponto de encontro, a gente saia do carro ficava todo mundo como se fosse uma praia daí claro, tinha uns que saiam, ficavam rindo, e todo mundo ia pra lá, era a nossa festa, não tinha computador, não tinha celular, não tinha tanta boate. Daí os pais conseguiram fechar. Daí o posto Coesa lá da Duque resolveu abrir em cima, daí foi pior ainda, aí o pátio era maior, o posto fechava virava só festa. Uma vez meu pai foi pegar um caminhão, ele ia de carona e o caminhão ia pegar ele lá, meu irmão deixou ele lá e ele foi caminhando pelo pátio e era sábado de madrugada e ele viu coisas horríveis daí ele odiava. Depois voltou pro Guairacá de novo [...] 248

O que Lúcia nos permite imaginar com este depoimento, que havia a cobrança de comportamentos sobre os jovens, mas que havia a possibilidade da transgressão. Este lugar, o

Guairacá, deve ter ficado nas memórias de muitos frequentadores pelas possibilidades que permitia, mas principalmente pela possibilidade do encontro – carros, som alto. Encontros de grupos são comuns ainda hoje em praias, pátios, praças, postos de gasolina.

Portanto, o Guaicará “era um ponto de encontro”, para amigos, amigas se reunirem eles/as tinham esse lugar como um local de referência entre os/as jovens. Sobre isso ela faz uma relação aos dias de hoje em que as pessoas para terem contato não precisam sair de casa, têm o computador, o celular e que também nos anos 1970 não tinha “tanta boate” (que ela refere-se as discotecas), isso resultava em poucas opções. O que havia na época? o Aero

Clube, Parque Verde, Hippopotamus, a Chocolatt (final da década de 1970), para citar os locais frequentados pela classe média.

Ainda, segundo conta Lúcia que seu pai ficou horrorizado com os namoros dentro dos carros, nessa ocasião num lugar público, esse comportamento para gerações anteriores não era comum e por isso era o confronto as formas de vivenciar a sexualidade.

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