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In document Avisåret 2015 (sider 54-74)

Apesar da constituição de campos sociais que acabam criando sua própria ética, a sociedade como um todo necessita de justificativas para aceitar desvios das duas éticas consideradas inerentes à dignidade do ser humano: a aristotélica e a kantiana. O cristianismo, cujos preceitos éticos, pelo menos na “fachada”, orientam a sociedade do ocidente, por sua vez, legitima as reflexões dos dois filósofos preocupados indubitavelmente com a promoção do bem do indivíduo e do grupo social. No campo da sociologia, é possível entender a conciliação do lucro com o cristianismo, quando lemos A

Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo47, de Weber (2003:9) que redimensiona a visão do capitalismo afirmando, por exemplo, que o desejo de ganho ilimitado não se

identifica nem um pouco com o capitalismo, e muito menos com o espírito do capitalismo. O capitalismo pode até identificar-se com uma restrição desse impulso racional.

Também, na Torá, existe uma preocupação rotineira com o dinheiro e o lucro: os judeus não devem, é verdade, emprestar a juros para os irmãos, mas é permitido emprestar a juros para os não-judeus. Na fase final da pesquisa, tivemos acesso a uma obra que não constava da bibliografia inicial: Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo48 com a chancela do prefácio do Rabino Henry Sobel que atesta a pertinência de sua leitura: quem o lê com

atenção e isenção descobre nele interessantes explicações para a imagem distorcida do judeu que se formou na mente de tantas pessoas e talvez até se sinta impelido a rever seus (pré)conceitos. Pois bem, Jacques Attali ataca a posição anti-semita de Weber comprovada,

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WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

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segundo ele, por passagensde A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Vale a pena citar uma passagem, observando que, o que vier entre aspas, é citação que Attali faz de Weber:

Weber é um dos primeiros a ligar a força do capitalismo à sociedade religiosa, ao passo que, antes dele, muitos viam no dinheiro o libertador do obscurantismo teológico. E em particular, escreve ele, o judaísmo “teve uma importância histórica decisiva no desenvolvimento da ética ocidental em matéria de economia”.

Decisiva, sem dúvida, mas acessória, pois no judaísmo, segundo ele, “a atividade econômica não se vê promovida ao nível de virtude”; ela é apenas tolerada. Enorme erro histórico, e Weber, como veremos, comete alguns outros. Porque, continua ele, sempre peremptoriamente, o judaísmo acentua a responsabilidade coletiva, ao passo que o capitalismo precisa acionar a responsabilidade individual. Para o judaísmo, segundo Weber, não existe ambição privada, distinta do destino coletivo: “A busca do aperfeiçoamento individual é subordinada à lógica da redenção da coletividade judaica”. Isso leva o judaísmo a praticar um capitalismo especial, moralmente condenável.

Até aqui, o raciocínio é somente falso.

(Attali, 2003:411)

Voltando ao próprio Weber (2003:26,27), em seu estudo do espírito do capitalismo, ele vai reproduzir os mandamentos de Benjamin Franklin, escritos em 1748, que leva o título de Advice to a Young Tradesman. O quadro a seguir traz na primeira coluna os mandamentos; na segunda, elaboramos uma síntese desses mandamentos na forma de máximas que ajudam a esclarecer a relação do protestantismo com o capitalismo, salientando que, nas palavras de Weber, o bom protestante sabe que Deus ajuda quem cedo

Mandamentos Máximas correspondentes Lembra-te de que tempo é dinheiro. Ser ágil. Não ser preguiçoso.

Lembra-te de que o crédito é dinheiro. Ser honrado e confiável.

Lembra-te de que o dinheiro é de natureza prolífica, procriativa. Ser inventivo e ousado.

Lembra-te deste ditado: “O bom pagador é dono da bolsa alheia”. Ser bom pagador.

Guarda-te de pensar que tens tudo o que possuis e de viver de acordo

com isto. Ser ambicioso.

Por seis libras anuais, poderás ter cem libras, uma vez que sejas um

homem de conhecida prudência e honestidade. Ser prudente e honesto.

Aquele que gasta inutilmente um groat49por dia, desperdiça mais de

seis libras por ano, que é o preço de cem libras. Não ser esbanjador.

Aquele que desperdiça o valor de um groat do seu tempo por dia, um

dia após outro, desperdiça o privilégio de usar cem libras todos os dias. Ser previdente e investidor.

Aquele que inutilmente perde o valor de cinco xelins, perde cinco

xelins e poderá, com a mesma prudência, atirar ao mar cinco xelins. Não ser esbanjador.

Aquele que perde cinco xelins, não perde somente esta soma, mas todo o proveito que dela poderia ser tirado investindo-a, e quando um jovem

se tornar velho, integraria uma considerável soma de dinheiro.

Ser previdente. Não ser esbanjador.

Por estranho que possa parecer, é de dinheiro que se trata aqui e dos conceitos éticos ligados a ele e que são seriamente levados em consideração por seitas protestantes, inicialmente de origem calvinista. Teríamos, no desconhecimento dos “mandamentos” de Franklin, uma possível explicação do aparente descaso de muitos católicos pelo acúmulo de capital. Segundo Weber, os católicos, muitas vezes, desprezam o dinheiro, ou melhor, não se esforçam por obtê-lo, nem por conservá-lo e muito menos por fazer com que ele se

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reproduza. Não é à toa que um dos versículos do Sermão da Montanha50 mais repetido pelos católicos reza: Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios

do campo! Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles; e que um dos ditados mais ouvidos é : Deus

há de prover… e uma passagem bíblica constantemente valorizada é a que relata a dificuldade de se passar pelo fundo de uma agulha carregando bagagens em excesso. No entanto, acabamos por esquecer que em algumas parábolas51 do Novo Testamento são claramente discutidas questões ligadas ao trabalho, ao salário e ao lucro.

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