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A Marcha do Vinagre em Brasília necessita ser compreendida dentro do contexto das Manifestações de Junho de 2013 no Brasil, também chamadas de Jornadas de Junho. Para que o percurso da análise não fique muito mais extenso que o proposto nos outros estudos de caso, inserimos um breve panorama sobre os movimentos de junho de 2013 nos anexos deste trabalho, de modo que quem desejar uma contextualização mais completa poderá consultar o material anexado.

Os movimentos de junho iniciam de modo local e com pautas claras. No Rio de Janeiro e em São Paulo, as cidades com maior repercussão dos protestos em nível nacional o motivo era o aumento das tarifas de transporte público. Em outras cidades haviam movimentos grevistas articulados e em diversas capitais o Comitê Popular da Copa se preparava para uma série de manifestações em decorrência da Copa das Confederações da FIFA, prevista para iniciar no dia 15 de junho. No Rio e em São Paulo o Movimento Passe Livre articulou manifestações

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com a intenção de reverter a decisão de aumento de R$ 0,20 centavos no preço das passagens. Nas duas cidades desde o início de junho tudo era parecido com movimentos anteriores de movimentos sociais em que há três estratégias bem definidas: a estratégia dos manifestantes é bloquear ruas ou avenidas, a estratégia da imprensa é focar no bloqueio ao trânsito e vincular o protesto à ideia de ‘transtorno na volta para casa’ e por fim a estratégia do poder público, representado pela Polícia Militar é de reprimir violentamente o protesto respaldado pela mídia e pela por parte da população que vê o protesto como baderna e transtorno. Nos primeiros dias do mês cada um desempenhou o papel esperado. Contudo, como sabemos, o resultado final não estava previsto no roteiro.

Os protestos ao longo dos dias foram ganhando mais adesão ao passo que a violência policial também aumentou a cada protesto, de modo absolutamente desproporcional. Essa violência que não era noticiada pela grande mídia teve repercussão nas redes sociais, em especial o Twitter. A Mídia Ninja, oferecia via web cobertura alternativa dos protestos, onde era possível ver a repressão da polícia com balas de borracha, bombas de gás e spray de pimenta. Os manifestantes passaram a levar vinagre para os protestos como estratégia para inibir os efeitos do gás lacrimogênio. A polícia passou então a deter quem portasse vinagre, e na noite do dia 13 de junho as redes sociais replicavam com grande velocidade os resultados da repressão aos protestos, que teve mais de 200 detidos e diversos feridos, entre eles uma repórter da Folha de S. Paulo. Esse fato motivou a programação das chamadas Marchas do Vinagre em várias cidades, em solidariedade aos manifestantes das outras cidades. No dia 15, abertura da Copa das Confederações em Brasília, foi marcado um protesto no Eixo Monumental em frente ao Estádio Nacional, que foi duramente reprimido

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pela polícia. Essas imagens repercutiram em diversos veículos de comunicação, e reforçaram o sentimento de solidariedade aos manifestantes. Na segunda, 17 de junho houve protestos em diversas cidades pelo país, a maioria articulada por eventos no Facebook.

Figura 46. Manifestantes que participam da Marcha do Vinagre, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (Foto: Rafaela Céo/G1)

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É possível afirmar com certeza que houve pelo menos três Marchas do Vinagre em Brasília em junho de 2013, contudo neste trabalho faremos a análise da primeira delas por seu impacto no contexto dos movimentos de junho. A intenção de marcar a Marcha do Vinagre para o dia 17 em Brasília teve relação direta com a repercussão das manifestações do dia 13 e do dia 15.

A Marcha do Vinagre em Brasília teve cerca de 5 mil participantes, e foi menor que as manifestações em pelo menos outras seis capitais, contudo por não haver um grande contingente policial o grupo presente em frente ao Congresso Nacional conseguiu acessar a cobertura onde se apoiam as cúpulas de concreto do Senado e da Câmara dos Deputados. No dia seguinte a imagem estava na capa dos principais jornais do Brasil e em diversos jornais pelo mundo. O efeito simbólico de uma imagem que parecia a representação do povo tomando o parlamento foi mais impactante que as multidões espalhadas pelas ruas do país. As emissoras de TV e os jornais fizeram a cobertura de todas as manifestações ao vivo, e nas redes sociais durante todo o dia foi intenso o volume de comentários sobre os protestos. Nesse momento, os comentários e compartilhamentos sobre as manifestações chegam de forma definitiva ao Facebook, mas o volume de informações de todas as partes e a velocidade dos acontecimentos não permitiu que ninguém apresentasse no momento uma leitura clara do que estava acontecendo.

Análise Espacial

A Esplanada dos Ministérios é um espaço bastante utilizado para manifestações. O percurso muitas vezes se inicia em algum ponto do eixo monumental oeste, como o Parque da Cidade,

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nas manifestações menores a concentração costuma ser marcada para a Rodoviária ou o Museu Nacional. O ponto de chegada é o Congresso Nacional ou a Praça dos Três Poderes, dependendo de qual a força política que os manifestantes pretendem pressionar. No caso da Marcha do Vinagre, os organizadores decidiram fazer a concentração na Praça do Museu e caminhar até o Congresso. Esse percurso é realizado em aproximadamente meia hora de caminhada lenta.

A estimativa da PM é de que havia cerca de cinco mil manifestantes no protesto, o que é um número relativamente pequeno para a escala do espaço, que tranquilamente comporta centenas de milhares de pessoas, de modo que mesmo as aglomerações pequenas dão a impressão de vazio, contudo é um público suficiente para bloquear o tráfego de veículos. O impedimento do fluxo é uma estratégia comum no Eixo Monumental.

Diferente do Sarau da Passagem e da Jam do Museu, que são eventos pensados para a permanência, na Marcha do Vinagre o fluxo tem igual importância, e nesse caso ele seguiu a via dos automóveis. A chegada na área em frente ao acesso principal do Congresso também não apresentou novidade com relação a outros protestos que ocorrem cotidianamente no local. Contudo, o contingente policial se posicionou em frente às rampas do edifício, na tentativa de evitar a entrada dos manifestantes nas dependências do Congresso. Por ser um espaço negativo no relevo, o acesso das rampas cria uma espécie de lugar sem saída, de modo que os manifestantes ficaram concentrados em frente ao espelho d’água e o transito foi liberado.

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O protesto parecia finalizado quando os manifestantes se aproveitaram de uma falha no bloqueio e acessaram o terraço do Congresso pela ponta que toca a via no nível da Esplanada. Centenas de manifestantes acessaram a cobertura do edifício em poucos minutos. As redes de TV e os grandes portais de notícia que faziam a cobertura ao vivo dos protestos no país deram grande destaque ao fato de haver manifestantes no terraço do Congresso, embora não houvesse risco da multidão acessar o prédio ou mesmo risco à integridade do palácio. O grande diferencial que pode ser observado nesse protesto foi o fato de que os manifestantes conseguiram realizar o acesso à um espaço que foi pensado como de livre acesso à população. É o reencontro entre o espaço e sua dimensão de produção da política.

139 Interações com a cibercultura

Assim como outros grandes movimentos civis ao redor do mundo em anos anteriores, os movimentos de junho tiveram relação estreita com a cultura de redes. Embora depois da consolidação dos movimentos a grande mídia tenha pautado desde o início as manifestações nos veículos de rede nacional, o papel das redes sociais e blogues independentes foi fundamental na disputa pela apresentação de versões alternativas dos fatos.

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Figura 47. Capa de O Estado de S. Paulo do dia 18/06/2013. Fonte: Estadão Figura 48. Capa da Folha de S. Paulo do dia 18/06/2013. Fonte: Folha.com

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Da mesma forma, internamente o movimento não possuía lideranças claras, de modo que enquanto os protestos marcados pelo MPL tinham uma diretriz, as Marchas do Vinagre tinham pautas difusas e os indivíduos que criaram eventos no facebook para convocação dessas Marchas não exerciam liderança sobre o movimento nas ruas. A estrutura da organização nos protestos de junho, embora houvesse iniciativa de um grupo organizado em alguns casos, pode ser comparada com a estrutura de rede, em que os pontos de recepção e geração de informação realizam trocas com outros pontos de forma menos hierarquizada. Não havia hegemonia do pensamento sobre o objetivo da Marcha do Vinagre.

As redes tiveram ainda o papel de propagar a ideia de que passou a ser cool fazer protesto, com participantes dos protestos produzindo imagens e selfies e compartilhando nas redes sociais. No caso específico da Marcha do Vinagre em Brasília, a imagem de manifestantes sobre o terraço do Congresso Nacional foi amplamente replicada e discutida tanto pela mídia tradicional como nas redes sociais, e de certa forma se tornou um símbolo do movimento de junho.

Considerações

Do mesmo modo em que a ocupação do vazio urbano pressupõe uma disputa entre os campos sociais, os Movimentos de Junho proporcionaram também no campo da mídia uma disputa pela construção do movimento e pelo modo como os fatos ocorridos nos protestos seriam noticiados. A mídia, tanto a convencional como as redes sociais disputaram a pauta dos movimentos e fez com que redes de solidariedade e desejo de transformação política levassem milhões de pessoas às ruas.

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A realização de um protesto na Esplanada dos Ministérios não constitui um fato novo, mas o modo como ocorreu a Marcha do Vinagre promoveu mesmo que por uma noite a retomada de um espaço público pela população. O espaço que foi configurado para ter ocupação foi com o tempo deixado vazio e na noite do dia 17 de junho teve o reconhecimento de seu sentido político.

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Embora seja possível afirmar que houve um envolvimento a partir das redes de comunicação, a vivência da política em junho de 2013 ocorreu com a apropriação do espaço público. Essa ação está de acordo com o pensamento de Hannah Arendt, para quem o espaço da política é o espaço público, onde não o homem em sua individualidade realiza algo, e sim os homens enquanto coletividade. A Esplanada dos Ministérios e o Congresso que foram pensados com um sentido coletivo alcançam esse sentido de modo pleno quando sua apropriação é feita por um coletivo que reconhece ser parte de uma coletividade maior.

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