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A abordagem teórica metodológica de base de nosso trabalho tem assento na Teoria da Variação e Mudança Linguística de William Labov, cujo objeto de estudo é a variação e mudança da língua na comunidade linguística do falante, inaugurando uma estreita relação entre língua e sociedade. Labov, considerando a heterogeneidade da sociedade, reconhece que a produção linguística individual reflete a variabilidade social. Assim, considerando os postulados de Labov, como assinalam Coan e Freitag (2010, p.175), “a língua é vista pelos sociolinguistas como dotada de heterogeneidade sistemática, fator importante na identificação de grupos e na demarcação de diferenças sociais na comunidade”. Nessa perspectiva, ressaltam ainda as autoras, que, ao abordar a heterogeneidade, Labov referia-se a essa variação que pode ser sistematicamente explicada, pois concebia variação sistemática como modos alternativos de dizer a mesma coisa, sendo ambos portadores do mesmo significado referencial.

Assim, os estudos de Labov demonstram que a partir de dados concretos coletados em comunidades de fala, é possível, após estratificá-los, descrever as regras variáveis, buscando identificar os fatores que condicionam a variação, sistematizando-a e constatando a variação em curso (GOMES, 2008). E Mollica (2003), por sua vez, ressalta a importância dos estudos com foco nesses empregos linguísticos concretos, especialmente os de caráter heterogêneo que refletem a variabilidade linguística, demonstrando, ao reportar os estudos de Labov, que essa heterogeneidade mostra a coexistência das formas distintas que, em princípio, se equivalem semanticamente no nível do léxico, da sintaxe e morfossintaxe, do subsistema fonético - fonológico e no domínio pragmático-discursivo. No português falado do Brasil, por exemplo, essa variabilidade é muito fecunda. A dimensão territorial do país contribui, sobremaneira, para isso. Há uma riqueza de variedades linguísticas que nos leva à

compreensão de que cada variedade é igualmente complexa e eficiente para atender às demandas comunicativas do falante, sem impor limitações cognitivas na percepção e produção de enunciados. Isso demonstra que nenhuma variedade é superior à outra. As crenças disseminadas com o propósito de alardear a primazia de uma dada variedade linguística, geralmente a que goza de prestígio social, sobre as demais não têm sustentação teórica no âmbito dos pressupostos sociolinguísticos.

Todas as variedades linguísticas presentes nas línguas naturais atendem às necessidades comunicativas dos seus usuários. Labov (1983), em seus estudos empíricos, demonstrou que a maioria dos enunciados dos falantes é constituída de frases bem formuladas e que se encontram de acordo com os critérios que naturalmente são colocados pela língua. A probabilidade de um falante produzir uma sentença agramatical é quase nula. Nesse sentido, não há uma variedade melhor que a outra, pois não há erro nos enunciados dos falantes. E segundo Bagno (2010), se os falantes modificam algumas regras de funcionamento da língua de modo a atender suas múltiplas necessidades comunicativas, é porque as mudanças, de certa forma, são previstas no próprio sistema da língua. Os falantes apenas utilizam-se dessas possibilidades que a língua oferece para modificar as regras de funcionamento. E isso vai ao encontro do postulado de Labov (op.cit.) de que não existe erro na língua, o que existe é variação e mudança. Ao investigar as variáveis fonológicas, o autor estabelece correlações entre os usos linguísticos diferenciados e os diferentes grupos sociais, demonstrando, dessa forma, que a direção da mudança, muitas vezes, se encontra nas bases sociais da comunidade em que os falantes estão inseridos.

Mollica (2003), ao abordar essa questão, assinala que a variação do sistema linguístico, que se apresenta de forma sistemática e previsível, é motivada por um conjunto de fatores que podem ser de natureza externa ao sistema linguístico (fatores inerentes ao indivíduo (sexo, idade, etnia), os sócio- geográficos (região, escolarização, nível de renda, profissão, classe social) e os contextuais (grau de formalidade e tensão discursiva) como pode ser de natureza interna ao próprio sistema (fatores fonomorfossintáticos, semânticos, discursivos, lexicais).

A compreensão desses fatores condicionantes da variação e mudança, quer de ordem extralinguística, quer de ordem linguística, no âmbito da Teoria da Variação e Mudança Linguística, é imprescindível para se entender o conjunto de pressupostos teórico- metodológicos da Sociolinguística. Mollica (2003) auxilia-nos nessa compreensão ao ressaltar que ao se estudar a língua em uso numa comunidade e ao se deparar com a variação linguística, é possível observar que os falantes têm características distintas (sexo, idade,

profissão, classe social, etc.), identificadas como sociais ou externas e que atuam na forma de cada um expressar-se. Tais variações, entretanto, nem sempre estão ligadas a condicionamentos externos. Algumas têm origem dentro do próprio sistema linguístico e atendem à premissa básica da variação que é o de duas ou mais formas alternantes ocorrerem no mesmo contexto, com o mesmo significado. Formas distintas que em princípio se equivalem semanticamente no nível do vocabulário, da sintaxe e morfossintaxe, no subsistema fonético-fonológico e no domínio pragmático-discursivo. A título de exemplo, podemos citar alguns dados pela própria autora, referentes à presença de marcas de

concordância nominal como em “os estudos sociolinguísticos” alternando com a possibilidade de ocorrência de enunciados em que tais marcas estão ausentes: “os estudo sociolinguísticoØ”. Ou ainda a realização de construções sintáticas do tipo “eu vi ele ontem, nós fomos no Maracanã, “é o tipo de matéria que eu não gosto dela”, alternando com os equivalentes semânticos “ eu o vi ontem”, “ nós fomos ao Maracanã”, “é o tipo de matéria de que eu não gosto” ( MOLLICA, 2003, p.09).

Monteiro (2000) destaca que nem todos os fatos da língua estão sujeitos a variações. Existem regras gramaticais que se definem como categóricas ou invariantes, desde que o falante não possa violá-las. É o caso, por exemplo, do artigo que sempre antecede o nome; qualquer alteração nessa ordem tornaria a construção agramatical. E mostra que todas as línguas têm um conjunto de regras que não podem ser violadas, sob pena de comprometer a compreensão dos enunciados.

No caso das variáveis extralinguísticas, Mollica (op.cit.) enfatiza que estas, a

exemplo das variáveis linguísticas, não agem isoladamente, mas operam num “conjunto

complexo de correlações que inibem ou favorecem o emprego de formas variantes semanticamente equivalentes”. (p.27). E, de acordo com Labov (1972), as variáveis extralinguísticas influenciam na escolha das variantes. E uma dessas variáveis que tem sido muito discutida é o estilo de fala, cujo princípio é de que nenhum falante utiliza a língua da mesma maneira em todas as ocasiões, o que implica uma escolha entre várias possibilidades de expressão. Essas escolhas são motivadas em razão da idade, do sexo, da escolaridade, da classe social, da região ou zona de residência e da etnia. Tarallo (1997) mostra que a variação encontrada, por exemplo, em formas de tratamento (você vs o senhor/a senhora), é na maioria das vezes afetada pelo sexo do informante e pela idade. E acrescenta que em virtude de a sociedade ser extremamente estratificada, é inevitável que o nível econômico e o de escolaridade do indivíduo tenham uma influência direta em seu desempenho linguístico.

Labov (2003), quando ressalta a importância dos fatores extralinguísticos no comportamento linguístico do falante, é assertivo em dizer que tal comportamento só pode ser entendido a partir do conhecimento das comunidades sociais em que o falante está inserido. A variação linguística que advém do contexto extralinguístico é determinada por três aspectos: (i) as relações entre os interlocutores, em especial as relações de poder e solidariedade entre eles; (ii) o contexto social mais amplo como a escola e o trabalho e (iii) o tópico discursivo. Tais aspectos são melhor observados, segundo o autor, na interação do falante com seus pares, ou seja, no contexto de uso.

É nessa perspectiva que se assenta a Teoria da Variação e Mudança Linguística. Ao estabelecer correlações entre grupos sociais e variedades de uso linguístico, Labov (1983) mostra que a direção da mudança, muitas vezes, encontra-se na estrutura social. Ao correlacionar as variações existentes na expressão verbal dos falantes com as diferenças de natureza social da comunidade de fala, mostra que os fenômenos variáveis não se dão por acaso.

Para o entendimento do fenômeno da variação, é oportuno destacar os conceitos de regra variável e de variante. Para Tarallo (1997, p.8), às formas em variação dá-se o nome

de variantes linguísticas, pois estas expressam as “diversas maneiras de se dizer a mesma coisa, em um mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade”. A um conjunto de

variantes, segundo ele, dá-se o nome de variável linguística.

Mollica (2003) acrescenta que um fenômeno variável é tecnicamente chamado de variável dependente, pois o emprego das variantes não é aleatório, mas influenciado pelos grupos de fatores (ou variáveis independentes) de natureza social ou estrutural, ou discursiva ou cognitiva. E acrescenta à definição de Tarallo (op.cit.) que o fenômeno variável se realiza através de duas ou mais variantes, duas ou mais alternativas possíveis e semanticamente equivalentes. E como exemplo de um fenômeno variável ou regra variável no português, cita a concordância entre o verbo e o sujeito que se realiza através de duas variantes: a marca de concordância no verbo ou a ausência da marca de concordância.

A autora lembra ainda que o termo “variável” pode significar fenômeno em

variação e grupo de fatores. Sendo que tais fatores “consistem nos parâmetros reguladores dos

fenômenos variáveis, condicionando positiva ou negativamente o emprego de formas

variantes” (op.cit, 2003, p.11). Acrescenta ainda que as variantes podem permanecer estáveis nos sistemas durante um período curto de tempo ou até mesmo por séculos, ou podem sofrer mudança, quando uma forma desaparece. Esses postulados labovianos ora apresentados nos remetem a uma concepção de língua natural como um sistema variável, indeterminado e não

fixo, ou seja, um sistema dinâmico, heterogêneo e que varia em razões de fatores internos ou externos ao próprio sistema. E a variação ou a mudança podem ocorrer em todos os níveis da língua, desde o nível fonológico até os níveis morfossintático, semântico, discursivo. Esse ponto de entendimento da teoria, entretanto, é considerado como um dos mais polêmicos. Algumas críticas aos estudos de Labov centram-se na questão de que o fenômeno da variação seria de difícil percepção fora do campo fonológico. Um desses contrapontos é feito por Lavandera (1978), ex-discípula de Labov, que se posicionou criticamente a um estudo sintático de Weiner e Labov (1977) sobre as construções passivas. Para a autora, fora do plano das unidades mínimas significativas, há um significado associado a cada forma, o que dificultaria o cumprimento da exigência necessária – dizer a mesma coisa - para que uma forma possa ser considerada alternante.

No estudo sobre as passivas, Weiner e Labov (1977) defendem que as construções passivas sem agente têm o mesmo significado referencial que as construções ativas com sujeito generalizado; a opção entre uma ou outra construção é uma escolha sintática, condicionada por fatores linguísticos, embora possa haver diferença de ênfase ou foco quando do uso de tais construções, em última instância, acabam por fazer referência a um mesmo estado de coisas.

Labov (1978), ao contra-argumentar a defesa da ex-discípula, define significado como estado de coisas e mostra que dois enunciados, que se referem ao mesmo estado de coisas, têm o mesmo significado representacional. Pode ocorrer que esses enunciados, com o mesmo significado representacional, tenham a mesma relevância expressiva e afetiva, mas se houver diferença, a regra variável se mantém, pois o significado representacional estaria no nível (primário) e as funções de identificação (do falante) e de acomodação (do ouvinte) em outro nível que incluiria os aspectos social e estilístico. Assim, duas variantes, embora apresentando traços pragmáticos distintos, podem ter o mesmo significado representacional e serem tratadas como formas que se equivalem.

Lavandera (op.cit.), ainda argumentando contrariamente os postulados de Labov, defende que muitas formas que estão fora do campo fonológico não têm influências estilísticas ou sociais, mas apenas linguísticas, e, por sua vez, não poderiam ser consideradas como variáveis sociolinguísticas. Labov (1978) refuta novamente a crítica dizendo que a

sociolinguística é “sócio” não porque lida com fatores estilísticos e sociais, mas porque

entende a língua como um componente social. Ele acrescenta que o objetivo da teoria linguística é captar as restrições da estrutura gramatical da língua, de informações nos diversos níveis, tais como, fonológico, prosódico, morfológico, sintático. E que se existe uma

função representacional que se distingue de outras, esta mostra que a análise linguística deve centrar-se, inicialmente, no significado representacional ou significado referencial ou ainda estado de coisas.

2.3 Mudança

Embora haja variação na língua, nem tudo o que varia sofre mudança. De acordo com Weirinrich, Labov e Herzog (2006 [1968]),toda mudança linguística pressupõe variação mas nem toda variação implica mudança. Para Labov (1983), as mudanças que ocorrem na língua atingem apenas partes e não o todo da língua, e embora ocorram de forma contínua, ocorrem lentamente. Assim é fácil perceber que a língua está sujeita à variação e também a mudanças. A juventude é capaz de perceber que a linguagem por ela utilizada possui traços bastante diferentes da linguagem utilizada pelos idosos e por seus pais. Labov (2001) mostra que a segregação relativa entre elementos sociais e estruturais do idioma é um fator importante para se distinguirem as possíveis causas da mudança.

Segundo Monteiro (2000), é fácil perceber que a língua está em contínuo processo de modificação, o que é difícil é identificar como e por que ocorre uma mudança ou por que ela opera num sentido e não em outro. Para Labov (1994), a mudança ocorre em tempo aparente e em tempo real. Ao se escolher para estudo uma determinada comunidade, compara-se a fala das pessoas mais idosas com a das pessoas mais jovens e admite-se que as diferenças entre elas podem resultar em mudança linguística. A esta mudança chama-se de mudança em tempo aparente porque é um prognóstico feito pelo pesquisador, em virtude da distribuição das variantes por faixas etárias. Já o tempo real refere-se a mudanças linguísticas possíveis de comprovar num período arbitrário de tempo. Relaciona-se, portanto, ao aspecto diacrônico da língua.

Para se explicar a mudança linguística é necessário, segundo Labov (1983), levar em conta três importantes aspectos:

a) Origem da mudança: em que se detecta em qual nível ocorre a mudança, quais suas motivações e a que grupo de falantes a mesma circunscreve-se;

b) Propagação: observa-se que um número mais amplo de falantes passa a adotar a variante; esta, então, passa a contrastar com a antiga forma;

c) Realização completa: a regularidade de uso da variante nova é estabelecida; a

nova forma deixa de rivalizar com as variantes antigas e consolida-se como vencedora.

No processo de completa substituição de uma variante por outra que passa a realizar-se plenamente numa dada comunidade de fala, observa-se um duelo de

contemporização e morte, a que Tarallo (2000) chama de “morte das variantes”. O fato de

uma variante ceder lugar a outra não implica dizer que a mesma não possa mais se manifestar. Muitas vezes, determinadas variantes supostamente desaparecidas podem voltar a aparecer em momentos posteriores, em outras comunidades de fala, ou mesmo passar a assumir novas funções no sistema linguístico.

Os processos de mudança, geralmente, iniciam-se nos grupos de baixo prestígio social. Em razão disso, observa-se que há reações negativas à mudança, sobretudo, por parte dos grupos bem situados socioeconomicamente, que passam a tratar as inovações linguísticas

como “erradas”, “feias” e desvalorizadas.

Numa perspectiva estritamente linguística, não há a supremacia de uma forma sobre a outra. Ambas cumprem o mesmo papel linguístico. A valoração negativa de uma dada variante vem, na verdade, carrear um juízo de valor homologado pelas camadas que gozam de maior prestígio social, mas que não encontram nenhuma sustentação linguística na perspectiva da Teoria da Variação e Mudança Linguística. E como assevera o próprio Labov

(2008, p. 335): “tem muito mais coisa na avaliação social do que as reações explícitas que os

falantes nativos fazem emergir. O problema (...) é regido pela superficialidade das

observações”.

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